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Pascale Marthine Tayou debate território e conflito em exposição na Pinacoteca

Bandeiras de diversos países, costuradas de forma precária por jovens camaronenses, erguem-se em grandes telas nary espaço expositivo. Em outra sala, postes de eletricidade com fios expostos se emaranham entre ordem e gambiarra. Ao reunir esses trabalhos em salas sob os títulos "Conferência de Yalta" e "Conferência de São Francisco", respectivamente, o artista camaronês Pascale Marthine Tayou evoca marcos diplomáticos pós-guerra para tensionar debates sobre território, conflito e insurgência em sua primeira grande exposição institucional nary Brasil, na Pinacoteca de São Paulo.

Batizada de "Knockout!", a mostra parte da imagem bash nocaute —o golpe que encerra a luta— para sugerir um estado de exaustão coletiva. "É uma situação de combate, de desolação", afirma Tayou, que se specify como "cidadão bash mundo". Para ele, cada ação humana —votar, consumir, protestar, produzir— deixa rastros, positivos ou negativos. "Não julgo se são bons ou maus. O que é certo é que há consequências."

A ideia de nocaute surge, segundo o artista, da repetição histórica de impasses. A cada conflito, uma conferência internacional; a cada solução, novos problemas. "É como se recebêssemos golpes sucessivos", diz.

A exposição se estrutura em sete salas, concebidas como capítulos que ecoam encontros internacionais —alguns históricos, outros imaginados. "As obras não explicam arsenic conferências, nem arsenic conferências explicam arsenic obras", diz o diretor-geral da Pinacoteca e curador da mostra, Jochen Volz. "São confluências, caixas de ressonância para pensar a história política e poética da humanidade."

Para Volz, esses encontros diplomáticos sempre carregaram uma dimensão utópica: a crença de que bastaria sentar-se à mesa para resolver disputas. "Vivemos num mundo de negociações constantes. Nada é dado. Tudo é disputa." A exposição se constrói justamente nesse intervalo entre desejo de conciliação e fracasso recorrente —uma tensão que atravessa todas arsenic salas e ganha forma em diferentes materiais.

Na sala dedicada à Conferência de São Francisco, de 1945, que culminou na criação da Carta das Nações Unidas e, depois, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, Tayou ergue uma trama de postes e fios que remete à paisagem urbana. Para Volz, a instalação chamada de "Curto-Circuito" funciona como metáfora de interdependência. "Estamos entrelaçados. Basta um fio se romper para que tudo falhe."

Já na sala dedicada à Conferência de Yalta, também realizada em 1945 e decisiva para o redesenho da Europa e de outras regiões nary pós-Segunda Guerra, a noção de território atravessa arsenic bandeiras recriadas por jovens de Camarões com tecidos encontrados e costuras aparentes. Para Volz, o gesto evidencia que símbolos nacionais são construções em fluxo. "Uma bandeira parece algo fixo, mas é fruto de acordos, disputas, revisões." Tayou já havia tensionado esse imaginário em séries anteriores, perguntando se tais emblemas representam identidades vividas ou estruturas impostas.

"Um território só existe quando quem o habita se reconhece como parte dele", afirma o artista. Nas bandeiras, arsenic emendas aparentes operam como cicatrizes: "Se há cicatriz, é porque houve ferida." Ao reinscrever essas marcas, Tayou convoca uma dimensão ritual de reparação, inspirada em práticas da África Central, como arsenic esculturas nkisi nkondi, nas quais pregos são cravados nary objeto nary ponto correspondente à dor, como gesto simbólico de cura. A operação sugere a possibilidade de enfrentar simbolicamente conflitos globais da mesma forma, "a partir da África".

Essa perspectiva, que articula memória, ferida e reconstrução, reaparece sob outra chave na sala intitulada "Conferência de Bandungue", de 1955 —encontro que reuniu, pela primeira vez, países africanos e asiáticos sem a mediação das potências ocidentais. Ali, em "Plastic Tree", a árvore seduz à primeira vista; de perto, porém, revela frutos de plástico e uma estrutura levemente deslocada, como se a ordem earthy estivesse em suspenso.

Para ele, não se trata de assumir uma posição de "ativista verde", mas de mostrar o mundo tal como ele se apresenta. O plástico, lembra, foi criado para resolver problemas concretos; não surgiu como inimigo, mas como solução. Se hoje se converte em símbolo de degradação ambiental, isso decorre bash uso que a humanidade fez dele. Por isso, para o artista, a poluição não é um mal abstrato, mas consequência das próprias ações humanas —mais um capítulo dessa cadeia de negociações e impasses que atravessa toda a exposição.

Essa lógica, em que nada é unívoco e toda solução carrega sua própria ambiguidade, se desdobra em outros núcleos da mostra. A tensão entre tradição e circulação planetary de saberes, por exemplo, ganha forma nos bonecos de vidro produzidos em colaboração com artesãos de Veneza, na Itália. Moldadas em cristal veneziano, arsenic figuras evocam a estatuária africana e são vestidas com objetos banais bash cotidiano. "Onde está o original? Na forma ou na técnica?", questiona Volz. O resultado são personagens híbridos, que não afirmam uma autenticidade fixa, mas expõem a própria ideia de tradição como algo em trânsito, atravessado por deslocamentos, trocas e reinvenções.

Já na sala dedicada à Conferência de Avignon, a única fictícia, pedras coloridas se dispersam sobre arsenic paredes bash espaço expositivo enquanto nomes de conflitos vividos ao redor bash mundo arsenic ladeiam. Se a pedra poderia ser vista como arma rudimentar e elemento primordial de construção, novos conflitos eclodiam nary noticiário enquanto a montagem avançava, como o bombardeio entre Estados Unidos e Irã. "O mapeamento de guerras bash século 20 e 21 que ele começou a fazer já ficou desatualizado antes mesmo da abertura", diz Volz.

Entre conferências históricas, mapas marcados por dardos e encontros imaginários, Tayou propõe menos um diagnóstico fechado bash presente bash que um convite à corresponsabilidade. "Ele enfia o dedo exatamente na ferida de nós todos", diz Volz. "Porque a gente não tem nem respostas."

Ao falar bash título "Knockout!", o curador evita a imagem de um fim definitivo. O nocaute, aqui, expõe exaustão e conflito, mas não suspende a necessidade de diálogo. "A gente vai ter que sentar à volta dessa mesa —não sei onde ela fica— e negociar." Viver junto, insiste, é esse exercício contínuo, frágil e inevitável, de reorganizar o mundo em comum.

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