Quem mais está aproveitando a alta são os estrangeiros, que só em janeiro foi igual a todo o ano passado.
Muito brasileiros, diferentemente dos gringos, estavam mais ocupados em temer a maior crise da nossa história.
Quem comprou dólares para fugir dessa terrível crise que está sempre por vir, viu seu dinheiro perder 8% do valor.
E o brasileiro que investiu na Bolsa americana ganhou apenas 2,2% no mesmo período, bem menos do que os 11,7% líquidos por quem aplicou no investimento mais conservador do país (o título Tesouro Selic, do Tesouro Direto) ou em qualquer CDB (exceto os do Banco Master e do Will Bank).
Até a nossa poupança bateu os investimentos nos Estados Unidos este ano, com um ganho acumulado de 8,17% nos últimos 12 meses.
Isso quer dizer que investir nos EUA sempre é um péssimo negócio e no Brasil é ótimo? Não.
Quer dizer apenas que maniqueísmos fáceis, típicos de discursos ideologizados, fazem as pessoas perderem dinheiro ou deixarem de ganhar.
Se você quer colocar o seu patrimônio a seu serviço, não pode tomar decisões financeiras com base em discursos ideológicos. Deve se ater somente aos dados e tomar cuidado com os influenciadores que você segue.
O Brasil nunca chegou perto de virar Venezuela
Quando escrevi nesta coluna, no ano passado, que a ideia de crise iminente era falsa, fui alvo de diversos comentários ofensivos.
Atualmente, os que veem uma venezuelização do Brasil quebram a cabeça para tentar explicar por que tanto capital estrangeiro apostaria, mesmo a curto prazo, em um país à beira do colapso.
Resumindo, meu diagnóstico sobre a economia brasileira é de que a dívida pública e os gastos públicos, apontados por muitos como os fatores que vão "quebrar" o Brasil, de fato são preocupantes.
Mas, nem de longe, caminhamos para um cenário de hiperinflação combinada com um total descrédito internacional, como na Venezuela.
Afinal, qual é o estado econômico do Brasil atual?
Os indicadores econômicos mais preocupantes do Brasil, hoje, são os gastos públicos e a dívida pública.
A dívida do setor público brasileiro fechou o ano passado em 65,3% do PIB (produto interno bruto). Isso é muito ou pouco? Comparado com o nosso histórico, é muito, pois é o maior valor dessa série de dados, iniciada em 2001. Está quatro pontos percentuais acima do maior pico registrado na pandemia (61,3%).
Em comparação com outros países, a situação da nossa dívida é pior do que a de outros emergentes, como México e Índia, e melhor do que a da China e de países desenvolvidos, como EUA, Japão, França e Reino Unido.
Assim, se um investidor internacional fosse avaliar um país apenas por esse indicador, nós estaríamos mais atraentes do que os mercados desenvolvidos e menos do que a maioria dos emergentes.
Outra preocupação são os gastos públicos. Em 2025, o chamado "rombo" das contas públicas, ou seja, quanto o país gastou a mais do que arrecadou, foi de R$ 1,06 trilhão. Porém, desse valor, R$ 1 trilhão é de juros da dívida. Sem contar os juros, o déficit ficou em R$ 55 bilhões. Isso dá 0,43% do PIB.
Portanto, quem mais está contribuindo para o aumento da dívida é a própria dívida. Com a perspectiva de queda na taxa básica de juros nos próximos meses e, possivelmente, anos, a tendência é de que a situação se amenize.
Ponto de atenção
A conclusão a que esses dados levam é de que estamos em situação frágil, não catastrófica.
Para sairmos dessa, o PIB precisa crescer mais rápido do que os gastos públicos. Com uma tendência de queda do dólar, é possível que a inflação se aproxime mais do centro da meta (3% ao ano), levando o Banco Central a reduzir mais os juros.
Se isso ocorrer, temos ótimas perspectivas para a nossa economia. O problema é que, se algo ocorrer, e o dólar subir muito, a situação pode se inverter, com a dívida subindo ainda mais, afastando investidores e iniciando uma espiral negativa.
É por isso que eu digo que nossa situação é frágil. Temos chance de melhorar, mas dependemos muito do que acontecer com o dólar.
Como investidor, eu mantenho minhas posições na Bolsa, mas não pretendo aumentá-las no momento.
Alguma dúvida?
Tem alguma dúvida sobre investimentos? Me siga no Instagram e envie uma mensagem por lá. Sua pergunta poderá ser respondida nesta coluna.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
Este material não é um relatório de análise, recomendação de investimento ou oferta de valor mobiliário. Este conteúdo é de responsabilidade do corpo jornalístico do UOL Economia, que possui liberdade editorial. Quaisquer opiniões de especialistas credenciados eventualmente utilizadas como amparo à matéria refletem exclusivamente as opiniões pessoais desses especialistas e foram elaboradas de forma independente do Universo Online S.A.. Este material tem objetivo informativo e não tem a finalidade de assegurar a existência de garantia de resultados futuros ou a isenção de riscos. Os produtos de investimentos mencionados podem não ser adequados para todos os perfis de investidores, sendo importante o preenchimento do questionário de suitability para identificação de produtos adequados ao seu perfil, bem como a consulta de especialistas de confiança antes de qualquer investimento. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura e não está isenta de tributação. A rentabilidade de produtos financeiros pode apresentar variações e seu preço pode aumentar ou diminuir, a depender de condições de mercado, podendo resultar em perdas. O Universo Online S.A. se exime de toda e qualquer responsabilidade por eventuais prejuízos que venham a decorrer da utilização deste material.

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