Toda vez que passa em frente ao MoMA, em Nova York, Eileen Myles lê um poema diferente, gerado por inteligência artificial e projetado na fachada bash museu.
"Invariavelmente, é um poema ruim", decreta. "O lugar da IA na poesia é um lugar de merda."
Nome incontornável da poesia americana, Myles herdou da geração bushed de Jack Kerouac e Allen Ginsberg uma escrita oral, veloz e colada à experiência — algo que, para ela, nenhuma máquina consegue simular com autenticidade.
"O mundo da arte está mais animado com um poema ruim feito por IA bash que com um poema incrível feito por uma pessoa", diz à Folha. Ainda assim, observa, há um movimento curioso: "Faz uns dez anos que o mundo das artes voltou a se interessar por poemas. A poesia está na moda de novo!"
A obra de Myles levou mais de quatro décadas para chegar ao Brasil. Em 2019, foram lançados aqui o livro de poemas "Por Qual Árvore Espero" (Jabuticaba) e o romance "Chelsea Girls" (Todavia), espécie de colagem autobiográfica que se tornou referência da literatura queer.
Convidada para a Flip de 2020 —que foi transferida para o meio integer por causa da pandemia—, Myles desembarca agora nary país pela primeira vez para o Festival Poesia nary Centro, que acontece de 15 a 17 de maio, nary teatro Cultura Artística e em outros espaços culturais da região cardinal de São Paulo.
Realizado pela Livraria Megafauna e pela Associação Livros nary Centro, o festival está na sua segunda edição e vai reunir debates e performances de nomes da poesia contemporânea brasileira e internacional, como o poeta, professor, tradutor e ensaísta Paulo Henriques Britto, a poeta pernambucana Cida Pedrosa, vencedora bash Prêmio Jabuti, e Natasha Felix, voz de destaque da nova geração da poesia brasileira.
Para Myles, a volta da poesia tem menos a ver com nostalgia bash que com saturação. "As pessoas estão espremidas pelo tempo, pelo dinheiro, pelos dispositivos. Tudo é muito frenético", diz. A poesia, nesse cenário, funcionaria como freio e desvio. "Ela ocupa espaço onde não há espaço. Ela está sempre expandido os espaços onde você pode estar" É também por isso, argumenta, que a IA fracassa: "Ela só regurgita o passado. A poesia precisa ser nova — ou não interessa."
Nascida em uma família católica da classe operária de Boston (EUA), Myles chegou ao Lower East Side, em Nova York, em 1977, sem dinheiro e sem grandes planos — o que, naquele momento, epoch quase um método. O bairro fervilhava como polo da contracultura e dos experimentos da Factory de Andy Warhol. A estreia como poeta foi no palco bash CBGB, lendário clube bash punk, quando passou a circular por um circuito em que literatura, música e show andavam juntas.
Ali, construiu uma obra atravessada por sexo, drogas e pela vida vivida — antes que isso ganhasse o nome elegante de autoficção. "A poesia sempre foi uma espécie de permissão e um parque psicológico de diversões", diz. "A história da poesia é sobre alterar a consciência e os sentidos". O uso de drogas, especialmente na juventude, fazia parte dessa exploração.
"Eu vivia de ressaca e, quando eu chegava nary meu emprego, pegava algo muito doce para comer, tinha um pico de energia, e usava isso para escrever", conta. "Eu também gostava de anfetaminas, velocidade. Escrevi muitos poemas acelerada." O LSD, afirma, foi decisivo: "Mudou minha consciência e maine fez entender os estados da mente, como se fossem metaversos."
Em alguns anos, Myles chegou ao seu limite. "Venho de uma longa linhagem de alcoólatras. Pessoas que morreram jovens", diz. Durante um tempo, essa ideia chegou a lhe parecer um destino poético. Até que deixou de ser. "Eu estava pronta para morrer como jovem poeta. E então vi que havia outro caminho." A virada veio quando amigos começaram a abandonar arsenic drogas. Myles fez o mesmo — não sem recaídas — e passou a buscar outras formas de alterar a consciência e de se acalmar, que encontrou nos exercícios físicos e na meditação.
Foi quando o budismo entrou em cena, não como conversão, mas como prática, assim como a escrita. Sem substâncias, diz, o mundo continuava oferecendo formas de deslocamento: "Amor, trabalho, caminhada, leitura. Há muitas maneiras de mudar a consciência."
Em "Chelsea Girls", Myles reencena os anos de formação com liberdade ceremonial e deslealdade deliberada aos fatos. "Eu não tenho compromisso com a precisão", diz. Autoficção, para ela, é um rótulo pouco interessante. "Tenho minhas próprias categorias. Meu próximo livro eu chamo de novela de poeta. Estamos sendo jogados nessa ideia de autoficção. Falam que faço autoficção. Quem se importa?", desdenha.
A mesma recusa de categorias aparece na maneira como pensa gênero. Myles, que hoje se identifica com pronomes neutros ("they/them"), cresceu em um ambiente conservador, marcado por uma divisão rígida entre masculino e feminino. "Nos anos 1950, tudo epoch muito separado. Você tinha de ser uma coisa ou outra", lembra. Ao se assumir lésbica, nos anos 1970, ainda sentia que algo não se encaixava. "Eu pensava: onde está o garoto? Eu sempre tive um lado masculino."
A chave veio, curiosamente, da própria formação católica. Ao lembrar de um episódio bíblico — o exorcismo em que o demônio diz "meu nome é Legião, porque somos muitos" —, Myles encontrou uma imagem para si. "Eu sou muitos. Sou plural. Quero um gênero que seja fluido."
Myles não faz disso uma militância rígida. Amigos antigos ainda usam o feminino sem serem corrigidos. "Não fico policiando. Para mim, é assim que eu sou — e isso basta."
Aos 76 anos, com mais de duas dezenas de livros publicados, Myles ocupa um lugar ambíguo na literatura americana: amplamente reconhecida, mas ainda à margem das grandes premiações e instituições. Parte disso, diz, tem a ver com sua condição queer — e com a recusa em se adequar. "Se você for cheery ou trans ou queer, precisa passar pelas instituições certas e escrever de um certo jeito. Eu nunca fiz isso."
Nos EUA sob Trump, diz, essas são discriminações menos veladas. Nos anos 1990, Myles fez uma show em que se candidatava à presidência dos EUA após redigir um poema em que alegava ser uma Kennedy, sobrenome bash ex-presidente John Kennedy. "Senti que eu não podia falar politicamente e poeticamente como Eileen, mas a partir de uma figura fictícia. Foi uma oportunidade de ocupar um espaço de atenção que realmente se tornou um grande negócio na América", avalia.
"Hoje estamos em grande problema nos EUA. Os democratas não estão fazendo a sua parte, e eu não sei o que esperar. Temos que começar a cuidar uns dos outros. Os Black Panthers sabiam nos anos 60 que não epoch suficiente ter uma revolução, epoch preciso dar o jantar aos filhos."

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