
Crédito, Serviço de Investigação Criminal de Angola
- Author, Maria Jevstafjeva
- Role, Unidade Global de Desinformação da BBC
- Author, Ilya Barabanov & Investigations Team
- Role, BBC Rússia
- Author, Leandro Prazeres
- Role, BBC Brasil
Há 5 minutos
Tempo de leitura: 9 min
Dois russos devem ir a julgamento em Angola acusados de incitar protestos contra o governo, conduzir uma campanha de desinformação e tentar interferir na eleição presidencial do próximo ano.
Presos em agosto do ano passado, o consultor político Igor Ratchin e o tradutor Lev Lakshtanov enfrentam 11 acusações, incluindo terrorismo, espionagem e tráfico de influência.
A BBC obteve uma cópia da denúncia, que inclui acusações relacionadas a uma suposta operação com o objetivo de mudar o rumo político de Angola.
Os advogados dos russos contestam a denúncia, alegando que ela carece de "fatos concretos e objetivos".
Segundo a acusação, os russos atuaram em nome da Africa Politology, uma rede clandestina de operadores e agentes de inteligência na África que surgiu a partir do agora extinto Grupo Wagner, cujo fundador, Yevgeny Prigozhin, morreu em 2023 em uma queda de avião. Prigozhin era uma figura central na invasão russa da Ucrânia até se voltar contra lideranças do governo russo e liderar um motim em 2023, que durou menos de 24 horas.
Operadores políticos ligados ao grupo Wagner atuam em vários países africanos há mais de uma década, especialmente na República Centro-Africana, Mali e Madagascar.
A equipe de defesa dos dois russos acusados em Angola afirma que eles não têm ligação com a Africa Politology nem com o Grupo Wagner, não atuaram em nome do Estado russo e estavam, na verdade, cooperando para criar uma "Casa Russa" cultural em Luanda, capital da Angola.
Angola é um dos principais produtores de petróleo do continente africano e exportador de diamantes. Seus recursos naturais e posição estratégica fazem do país um alvo de interesse contínuo da Rússia. Mas, embora as relações remontem à Guerra Fria (1945-1991), Angola vem se afastando gradualmente da esfera de influência da Rússia.

Crédito, Getty Images
A empresa russa de mineração de diamantes Alrosa e o banco VTB foram obrigados a deixar Angola devido às sanções internacionais impostas por causa da guerra na Ucrânia.
O presidente de Angola, João Lourenço, aproximou-se do Ocidente e não se reúne com o colega russo, Vladimir Putin, desde 2019.
Os operadores russos na África estariam de olho em Angola como uma nova frente, segundo a acusação.
"Isso indica a preocupação da Rússia com o rumo que Angola vem tomando sob a administração Lourenço", diz Alex Vines, diretor do programa África do think tank (centro de pesquisa e debates) European Council on Foreign Relations.
"Há claramente um elemento de desinformação russa para tentar aumentar a simpatia em relação à Federação Russa."
Além dos russos, dois angolanos também irão a julgamento por sua suposta participação na operação de influência ligada à Rússia.
A acusação afirma que os dois acusados russos contrataram o jornalista esportivo Amor Carlos Tomé e o ativista político Francisco Oliveira para conduzir suas atividades no país.
Eles enfrentam nove e cinco acusações, respectivamente, incluindo terrorismo, espionagem e tráfico de influência.
A equipe jurídica que representa os angolanos afirma que não há provas suficientes contra eles e que "a acusação se baseia em mera conjectura".

Crédito, Getty Images
Promotores afirmam que o primeiro grupo de operadores russos chegou à capital de Angola, Luanda, em 2024 sob o pretexto de abrir um centro cultural russo, projeto que nunca se concretizou.
Entre os primeiros a chegar estava Maxim Shugalei, um operador político ligado ao Grupo Wagner e sancionado pela União Europeia por supervisionar campanhas de desinformação, cujas atividades na África foram transformadas em uma trilogia de filmes aparentemente financiada por Prigozhin.
Ele viajou para Angola com seu tradutor de longa data, Samer Suaifan. A BBC entrou em contato com ambos.
Suaifan admitiu conhecer os réus, mas Shugalei negou conhecê-los.
Segundo a denúncia, entre 2024 e 2025, os réus fizeram diversos pagamentos a jornalistas e especialistas locais para disseminar propaganda e desinformação na mídia local com o objetivo de "provocar mudança política". Os pagamentos somam mais de US$ 24 mil (cerca de R$ 120 mil).
As autoridades angolanas consideram esse trabalho parte de uma operação de influência mais ampla, destinada a minar a confiança nos parceiros ocidentais e desacreditar a política externa do presidente Lourenço.
Uma fonte, que trabalhou anteriormente com Prigozhin em projetos na África, criticou esses esforços como sendo amadores.

Crédito, Youtube/ Aurum Production
"Neste ano [2025], eles entregaram todo o tema africano a completos idiotas. Parece que foram simplesmente recrutados no mercado Sadovod [um mercado popular em Moscou]. E, pouco antes do Ano Novo, eles queriam publicações plantadas na mídia angolana. Mas eu disse a todos para irem para o inferno", disse um estrategista político à BBC, sem revelar quem eram os responsáveis.
A acusação cita algumas publicações como prova da campanha de desinformação conduzida pelos dois russos.
Uma publicação de janeiro de 2025 em uma página do Facebook que imitava o site local de notícias Angola 24 Horas, e que se apresentava como página satírica, alertava que Angola poderia ser arrastada para a guerra na Ucrânia.
Em dezembro de 2024, uma publicação na mesma página criticava o Corredor do Lobito, um projeto ferroviário apoiado pelo Ocidente que transporta minerais da África central para os portos de Angola.
A publicação afirmava que empresas estrangeiras teriam acesso quase total aos minerais de Angola. A BBC entrou em contato com a página satírica Angola 24 Horas, mas não obteve resposta.
A postagem sobre o Corredor do Lobito apareceu no site de notícias Lil Pasta News um dia depois. Outro artigo publicado pelo site especulava se o país havia "feito um pacto com o diabo" ao aderir ao projeto.
O Lil Pasta News afirmou à BBC que os artigos em questão não foram escritos por sua equipe, mas recebidos por meio de um intermediário. O site disse que não teve contato com o autor e não recebeu pagamento pela publicação.
Os advogados que representam os réus russos argumentam que não há provas de que Ratchin tenha encomendado qualquer um dos artigos.

Crédito, TG Premia Vorotnikova
Promotores angolanos descrevem o grupo como uma rede pequena, mas eficaz. Ratchin estaria no centro da operação.
Ele já havia trabalhado em várias campanhas eleitorais regionais na Rússia que, segundo ele próprio afirmou em um vídeo visto pela BBC, terminaram com vitórias de seus candidatos.
Lakshtanov atua como tradutor em Angola desde a era soviética. Os promotores acreditam que ele teve um papel de apoio na operação, atuando principalmente como tradutor.
A conexão local teria sido feita por Francisco "Buka Tanda" Oliveira, líder juvenil do principal partido de oposição de Angola, a Unita, que fala russo após ter estudado engenharia química na Rússia entre 2015 e 2019.
A acusação afirma que ele foi encarregado de apresentar políticos angolanos aos réus.
"Ele [Oliveira] não conhece essa organização [Africa Politology] nem qualquer atividade relacionada a ela. Tudo o que sabe é que eles queriam criar uma casa de cultura russa", disse o advogado de defesa Pedro Cangombe.
Tomé, jornalista esportivo da emissora estatal angolana TPA, é acusado de reunir informações sobre o cenário político do país e possíveis candidatos presidenciais, além de ajudar a produzir e publicar conteúdos ligados à suposta operação de influência.
A defesa de Tomé argumenta que "nenhum dos elementos subjetivos ou objetivos" dos crimes está "minimamente" demonstrado na denúncia.
A denúncia cita outros seis membros russos da rede que, segundo a acusação, entraram e saíram de Angola em diferentes momentos ao longo de 2024 e 2025.

Crédito, Lev Lakshtanov via MyMail.Ru
As autoridades angolanas também afirmam na denúncia que Lakshtanov e Ratchin se reuniram com várias figuras políticas de alto escalão tanto do partido governista MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) quanto da Unita, oferecendo apoio e financiamento para atividades de campanha.
Em especial, a acusação afirma que eles se reuniram com o general Higino Carneiro, figura de peso do MPLA, e com o líder da Unita, Adalberto Costa Júnior.
Ambos são considerados possíveis candidatos à Presidência na eleição do próximo ano.
Segundo os promotores, os russos teriam oferecido a Carneiro até US$ 15 milhões (cerca de R$ 75 milhões) em apoio de campanha, além de assistência de segurança, aconselhamento estratégico e coleta de informações.
Não há evidências dessa suposta oferta na denúncia a que tivemos acesso.
"Não sei se essa reunião de fato ocorreu", disse Elizeu Nguiniti, advogado que representa Ratchin e Lakshtanov.
O representante da Unita Jonas Mulato disse à BBC que as alegações que ligam o líder do partido a uma operação de influência estrangeira são falsas e que se tornou "cada vez mais evidente" que os processos judiciais estão sendo usados com fins políticos.
A BBC procurou Carneiro para comentar, mas não houve resposta.
Agitadores ou bodes expiatórios?
Em julho do ano passado, Angola registrou os protestos mais violentos desde o fim da guerra civil entre a Unita e o MPLA, em 2002.
O que começou como uma greve pacífica de motoristas de táxi em Luanda rapidamente se transformou em uma onda de protestos em todo o país, que acabou em violência.
Manifestantes foram reprimidos com o que ativistas descreveram como uso "excessivo" da força policial.
Segundo números oficiais, pelo menos 29 pessoas morreram e mais de 1.200 foram presas.
A acusação afirma que os réus orquestraram os protestos, apontando anotações sobre as manifestações encontradas em seus celulares e fotos feitas por Ratchin.
Em documentos judiciais vistos pela BBC, os advogados de Ratchin dizem que ele tirou as imagens por motivos de segurança, para ter provas caso fosse atacado. A BBC não teve acesso às fotos nem às anotações.

Crédito, Getty Images
Vários jornalistas e ativistas angolanos contestam a ideia de que os protestos não foram espontâneos e afirmam que as autoridades podem estar usando os russos como bodes expiatórios.
O Banco Mundial estima que quase 40% dos angolanos vivem abaixo da linha internacional de pobreza de US$ 3 por dia (cerca de R$ 15).
"As pessoas protestavam por causa de suas condições de vida, não porque alguém de outro país mandou", diz Sheila Nhancale, pesquisadora sobre Angola da Human Rights Watch.
A própria denúncia também foi alvo de críticas. O documento contém erros de grafia e aparentes inconsistências factuais.
Por exemplo, os promotores afirmam que a operação russa começou em 9 de outubro de 2024, com a chegada de Maxim Shugalei e outros, mas Shugalei foi preso no Chade em 19 de setembro de 2024 e retornou a Moscou em 16 de novembro de 2024.
A BBC solicitou esclarecimentos à acusação angolana sobre essa e outras inconsistências, mas não recebeu resposta.
Rui Verde, especialista jurídico e pesquisador associado do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Oxford, no Reino Unido, afirma que o principal desafio da acusação será demonstrar que os atos listados na denúncia formam um padrão deliberado, uma espécie de roteiro intencional de subversão.
Segundo várias fontes, os russos podem ser enviados de volta ao seu país se forem condenados.
Mas as autoridades russas não parecem ter pressa em oferecer ajuda.
Uma fonte próxima à comunidade diplomática russa disse à BBC que "a lógica é simples: essas pessoas não estavam cumprindo tarefas oficiais do Estado, eram apenas contratados. A posição da Rússia no país já é fraca, então não há motivo para piorar a situação".
"Que esses remanescentes da operação de Prigozhin resolvam isso por conta própria", disse a fonte.

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