Sede da Copa do Mundo de 2018, a Rússia não participa das competições internacionais da Fifa desde fevereiro de 2022, quando iniciou a invasão em larga escala da Ucrânia, guerra que dura até hoje.
A decisão, tomada em conjunto com a Uefa (União das Associações Europeias de Futebol), envolve todas as seleções russas, das categorias de base às equipes masculinas e femininas, além dos clubes do país.
À época, a Federação Russa de Futebol (RFU) disputava a repescagem para a Copa do Mundo do Catar e enfrentaria a Polônia, que se recusava a entrar em campo em qualquer circunstância. Após a punição aplicada pela Fifa, a seleção polonesa foi declarada vencedora do confronto.
Desde então, a equipe russa passou a disputar apenas amistosos.

Agora no g1
Outros países em guerra não foram banidos
Apesar da exclusão da seleção russa de todas as competições oficiais, a mesma decisão não foi tomada para outros países que também estão em guerra.
Como é o caso do próprio Estados Unidos, um dos anfitriões do torneio deste ano. Os EUA estão em conflito com o Irã desde fevereriro deste ano e também participam, direta ou indiretamente, de operações e conflitos no Oriente Médio, como no Iêmen e na Síria.
O Irã, por sua vez, também integra o conflito regional e disputará normalmente a Copa do Mundo de 2026.
Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Fifa, Gianni Infantino, formaram um relacionamento próximo — Foto: EPA
Para Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, a diferença está menos na existência de uma guerra e mais no contexto político que cercou a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Segundo o especialista, a exclusão dos russos ocorreu em um cenário de forte pressão internacional liderada por países ocidentais.
Para Amaral, a decisão da Fifa revela um critério "extremamente parcial" na aplicação de sanções esportivas. "O problema não é a punição da Rússia em si, mas a ausência de critérios universais aplicados para todos os casos", afirma.
Vitélio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador de Harvard, concorda que há diferenças de tratamento entre conflitos, mas afirma que a suspensão da Rússia também teve razões práticas ligadas ao funcionamento das competições.
Segundo ele, logo após a invasão da Ucrânia, seleções como Polônia, Suécia e República Tcheca anunciaram que se recusariam a enfrentar os russos, o que colocava em risco a organização dos torneios da Fifa.
"Se a Rússia estivesse em uma competição e os adversários se recusassem a jogar, ela poderia avançar por razões que não tinham nada a ver com mérito esportivo. Isso geraria uma incerteza capaz de desestabilizar toda a competição", afirma.
Além disso, para Brustolin, o fato do ataque ser contra um país europeu e filiado à Uefa também aumentou a pressão sobre as entidades esportivas.
O pesquisador de Havard também fala que há uma diferença clara entre o caso dos EUA e dos russos: natureza jurídica da invasão.
"A invasão russa é uma guerra de conquista territorial e de tentativa de submissão. Quando Putin diz que a Ucrânia não pode ter um exército próprio, que o governo do país deve ser indicado por ele e que Kiev não pode aderir à Otan, o que ele quer, na prática, é limitar a soberania",
O professor reconhece, porém, que a comparação com outros casos levanta questionamentos sobre a consistência das punições aplicadas no esporte internacional.
"Os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 sem mandato da ONU e nunca foram banidos de competições. A Arábia Saudita também lidera operações militares no Iêmen sem sofrer sanções esportivas. Existe uma discussão legítima sobre duplo padrão", afirma.
Ou seja, para o pesquisador, a diferença de tratamento é o resultado das seguintes combinações:
- Localização do conflito: a guerra ocorre na Europa e envolve diretamente um país membro da Uefa;
- Pressão de outras seleções: países como Polônia, Suécia e República Tcheca se recusaram a enfrentar a Rússia;
- Peso político dos envolvidos: a Rússia é vista por países europeus como um adversário estratégico, enquanto outros países em guerra são aliados do Ocidente;
- Influência de federações, patrocinadores e mercados esportivos: a pressão sobre a Fifa foi muito maior no caso russo;
- Impacto sobre as competições: a recusa de equipes em jogar contra a Rússia poderia comprometer a organização dos torneios e os critérios esportivos de classificação.
Em março deste ano, porém, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu o retorno da Rússia às competições internacionais. Segundo ele, a suspensão aplicada ao país não produziu os efeitos esperados.
Por outro lado, o ministro do Esporte da Ucrânia, Matvii Bidnyi, disse que os comentários de Infantino foram “irresponsáveis” e “infantis”.
“Eles separam o futebol da realidade em que crianças estão sendo mortas”, declarou Bidnyi à Sky Sports.
Segundo a ONU, mais de 15 mil pessoas já morreram nesses quatro anos de guerra.
Outros países já foram excluídos pela Fifa
Essa não é a primeira vez que um país é excluido. Ao longo das últimas décadas, a Fifa e outras entidades esportivas já suspenderam países envolvidos em conflitos armados ou acusados de violações graves de direitos humanos.
Em 1992, durante a guerra que acompanhou a dissolução da Iugoslávia, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma série de sanções contra a então República Federal da Iugoslávia (Sérvia e Montenegro), o que levou à exclusão de seleções e clubes das competições internacionais.
Outro caso foi o da África do Sul durante o regime do apartheid, sistema de segregação racial que vigorou no país entre 1948 e 1994. Em meio à pressão internacional contra as políticas discriminatórias do governo sul-africano, o país passou décadas afastado de diversas competições esportivas, incluindo torneios organizados pela Fifa.

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