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- Author, Atahualpa Amerise
- Role, BBC News Mundo
Há 1 minuto
Tempo de leitura: 7 min
A Nova Zelândia viu mais de 70 mil de seus cidadãos deixarem o país em apenas um ano.
Embora o número pareça modesto, ele equivale a quase 1,4% da população desse país insular do sudoeste do oceano Pacífico, habitado por cerca de 5,1 milhões de pessoas.
Esse que vem sendo o maior fluxo de saída de neozelandeses em décadas começa a gerar preocupação no país.
Em geral, os emigrantes não escolhem destinos distantes como a Europa ou os Estados Unidos. Eles optam por um voo relativamente curto e se estabelecem naquele que historicamente tem sido seu principal destino: a Austrália.
O fenômeno não é novo, mas a intensidade e o contexto são novos.
Por décadas, a Nova Zelândia registrou perdas líquidas (saldo entre os que saem e os que chegam) moderadas de cidadãos, compensadas com folga pela chegada de imigrantes.
No entanto, nos últimos dois anos as saídas se aceleraram de forma abrupta, em meio a um mercado de trabalho fraco e a uma percepção generalizada de estagnação econômica.

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A comparação com a Austrália, onde o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas) per capita é maior, os salários são mais elevados e há mais oportunidades, se tornou onipresente em conversas cotidianas, nas redes sociais e nas manchetes da imprensa da Nova Zelândia.
E, se antes o perfil do emigrante neozelandês era o de um jovem que tentava a sorte por alguns anos no país vizinho, hoje um número crescente de trabalhadores experientes está deixando o país sem um plano claro de retorno.
Para alguns especialistas, essa mudança de perfil e a intensificação das saídas indicam que a Nova Zelândia pode estar diante de algo mais do que um ciclo migratório comum.
O que está acontecendo
Os números confirmam que a saída dos neozelandeses entrou em uma fase excepcional.
Antes da pandemia, a Nova Zelândia registrava uma perda líquida relativamente estável de cidadãos, em torno de 3.000 pessoas por ano, segundo dados da agência nacional de estatísticas Stats NZ.
Mais de 71 mil neozelandeses emigraram em um período de 12 meses até outubro de 2025, enquanto cerca de 26 mil retornaram ao país, o que representa uma perda líquida de 45 mil cidadãos.
O precedente mais recente remonta ao pico de emigração observado nos dois últimos anos da crise financeira global (2011–2012), quando os saldos migratórios negativos anuais superaram 40 mil pessoas.
Aquele aumento, porém, foi temporário e associado às condições adversas enfrentadas à época por países em todo o mundo.
A diferença agora, ressaltam os analistas, é a persistência do fenômeno: o ritmo das saídas segue elevado e não apresenta sinais claros de desaceleração.

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Paul Spoonley, professor emérito da Universidade Massey, na Nova Zelândia, considera "preocupante" o número de saídas. Segundo ele, embora os volumes sejam semelhantes aos do fim da crise financeira global, agora também estão deixando o país mais estrangeiros que viviam ali, o que "reforçou uma tendência que não mostra sinais de desaceleração".
A Austrália concentra cerca de 60% dos neozelandeses que deixam o seu país, de acordo com dados oficiais dos últimos anos.
Mais de 700 mil neozelandeses (cerca de 13% da população) vivem atualmente no gigante país vizinho do outro lado do mar da Tasmânia. A esse contingente somam-se cerca de 100 mil pessoas nascidas na Austrália, mas com cidadania neozelandesa.
"Isso é um grande atrativo para muita gente que tem vínculos sociais lá", disse o sociólogo Francis Collins à emissora 1News.
A emigração de cidadãos ocorre, além disso, em um contexto de enfraquecimento da imigração líquida. Embora a chegada de não cidadãos ainda ajude a amortecer a saída de nacionais, o saldo migratório total diminuiu de forma significativa em relação aos picos registrados após a pandemia.
Como resultado, a taxa de crescimento da população da Nova Zelândia caiu de 2,3% em 2023 para apenas 0,7% em 2025.

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O que os leva a sair
O aumento da emigração neozelandesa responde, em grande parte, a fatores econômicos.
"O principal fator que explica as saídas é a fragilidade do mercado de trabalho, com uma taxa de desemprego de 5,3% (a mais alta em quase uma década) e cortes expressivos de emprego no setor público", disse Spoonley à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
A esse cenário soma-se uma economia em desaceleração, com crescimento do PIB em torno de 1% em 2025, segundo estimativas oficiais, além da perda de poder de compra: os salários avançam mais lentamente do que os preços, inclusive de itens básicos e da moradia, o que aumenta a pressão sobre as famílias.
Com isso, os neozelandeses se veem cada vez mais atraídos por "salários melhores em outros países, além do recrutamento ativo por parte de determinados setores e empregadores, com incentivos como o custeio das despesas de realocação", afirmou Spoonley.
"Outro fator é a solidez do mercado de trabalho em países maiores, com mais opções quanto ao tipo de emprego e às possibilidades de progressão na carreira", acrescentou.
Por que escolhem a Austrália
A Austrália, em particular, oferece condições mais atraentes para quem busca trabalho, com um mercado de trabalho dinâmico, uma taxa de desemprego menor e salários médios significativamente mais altos.
A isso se somam melhores condições de trabalho, como pagamentos adicionais por horas extras, fins de semana e feriados, benefícios que não são garantidos por lei na Nova Zelândia.

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Um bom exemplo está no setor de saúde: o salário médio de um enfermeiro registrado na Austrália gira em torno de 85 mil a 90 mil dólares australianos por ano (cerca de R$ 311.100 a R$ 329.400), segundo dados da plataforma Seek. Apenas no ano passado, mais de 10 mil enfermeiros neozelandeses se registraram para trabalhar no país vizinho.
O mesmo ocorre nas forças de segurança. Entre janeiro de 2023 e abril de 2025, 212 agentes deixaram a polícia da Nova Zelândia, segundo confirmou a própria instituição, após receber pedidos de verificação de agências australianas. Em alguns casos, essas agências oferecem salários superiores a US$ 75 mil anuais (cerca de R$ 375.000), além de moradia gratuita ou subsídios.
A mineração e a construção civil também figuram entre os setores com maior poder de atração, impulsionados por uma economia australiana que cresceu acima de 2% no ano passado e mantém demanda constante por mão de obra qualificada.

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Quem está saindo
Também mudou o perfil de quem deixa a Nova Zelândia.
Tradicionalmente, a emigração era dominada por jovens que haviam acabado de concluir o ensino médio ou por recém-formados universitários que tentavam a sorte por alguns anos no exterior.
No ciclo atual, porém, há mais pessoas na faixa dos 20 aos 30 anos.
"Isso sugere que essas pessoas que já estavam inseridas há algum tempo no mercado de trabalho neozelandês", afirma Spoonley, da Universidade Massey.
O especialista destaca que 38% dos emigrantes são cidadãos neozelandeses que não nasceram no país.
"Em algumas comunidades de imigrantes, há mais pessoas saindo do que chegando. É o caso, por exemplo, dos imigrantes do Reino Unido", diz Spoonley.
A esse grupo somam-se os aposentados que optam por se reunir com familiares no exterior, sobretudo na Austrália.

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Em um plano mais amplo, esse padrão reflete uma realidade demográfica singular: os mais de 800 mil cidadãos neozelandeses e seus filhos que vivem fora do país formam uma das maiores diásporas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em proporção ao tamanho da população.
Nesse contexto, Spoonley critica que "o governo neozelandês não parece interessado em se conectar com a diáspora nem em aproveitar sua experiência e seus contatos".
Quanto às implicações de longo prazo, especialistas avaliam que a saída contínua de trabalhadores experientes pode resultar em perda de capital humano, menor produtividade e crescimento econômico mais fraco.
O governo prometeu reformas para favorecer a retenção de talentos na Nova Zelândia, com incentivos fiscais e mudanças regulatórias, embora essas medidas estejam mais voltadas a atrair e manter trabalhadores estrangeiros qualificados.
De todo modo, a economia neozelandesa fragilizada, somada a outros fatores como a vantagem comparativa da Austrália em salários e oportunidades, impõe desafios relevantes para reverter a tendência crescente de jovens buscarem novos horizontes em outro país.

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