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Por que esta onda de protestos no Irã difere das anteriores?

A primeira impressão é a de que já assistimos a ondas parecidas de protestos no Irã, e o regime dos aiatolás se manteve intacto. A resposta ao movimento que sacode o país há mais de duas semanas tem os ingredientes costumeiros — repressão brutal das forças de segurança, com centenas de mortos e milhares de presos, e bloqueio da internet e da telefonia para isolar o país e sufocar os manifestantes.

Mas há dados novos em relação às maciças mobilizações de 2009, em protesto ao resultado eleitoral, e de 2022, contra a morte de uma jovem de 22 anos por não usar o véu. A insatisfação popular de agora encontra um regime vulnerável pela grave crise econômica e pela guerra de 12 dias com Israel, em junho passado.

O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, está fisicamente debilitado, sem um claro sucessor. Seus parceiros regionais, como Hezbollah e Hamas, estão enfraquecidos.

E, de outro lado, há também a disposição do presidente dos EUA a socorrer os manifestantes e os avisos de que, embalado pela intervenção militar na Venezuela, examina opções militares para o Irã.

O presidente americano admitiu que analisa a situação no Irã “com muita seriedade” e disse acreditar que, diante da violência da repressão aos manifestantes, o regime tenha cruzado a sua linha vermelha para a intervenção.

A onda de protestos atravessou as 31 províncias do país, e o regime luta para contê-la. Mesmo que diminua, a economia do país está em espiral descendente, e a indignação pública só crescerá a médio e longo prazo, conforme analisa o iraniano Vali Nars, professor de Relações Internacionais e Estudos do Oriente Médio da Universidade Johns Hopkins.

“Um colapso total da República Islâmica não é necessariamente iminente, mas a revolução iraniana está chegando ao fim”, ponderou Nars em um artigo divulgado pelo Project Syndicate.

Não surtiram efeito as reformas de austeridade anunciadas pelo presidente Masoud Pezeshkian, para liberar subsídios para as camadas mais pobres. Rapidamente, os manifestantes desviaram o foco de questões econômicas e corrupção para a mudança de regime.

A lacuna geracional entre o ultrapassado sistema clerical que rege o país e a população jovem se faz presente: 47% dos iranianos nasceram após a Revolução Islâmica e têm menos de 30 anos. São eles que impulsionam os protestos, invadem prédios estatais e queimam fotos de Khamenei.

O bloqueio total do acesso à internet, decretado na quinta-feira passada, visa a desconectar a população, mas, ao mesmo tempo, alimenta o ciclo vicioso acarretando custos pesados à economia do país. Esta conjunção de fatores deixa evidente que o medo vem perdendo força no país, assim como o regime parece ter pouca manobra para imprimir reformas de curto prazo.

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