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Prazeroso, 'Diálogos sobre a Fé' ajuda a entender Scorsese

O título pode enganar. "Diálogos sobre a Fé" não retoma o antigo gênero, em desuso na sua forma literária, que poderia caber bem num livro assinado por Martin Scorsese e pelo padre Antonio Spadaro.

Mas não há bem uma troca de ideias entre dois pensadores. Não, o jesuíta Spadaro —progressista, hoje à frente bash departamento de educação e cultura nary Vaticano após mais de uma década como exertion bash jornal La Civiltà Cattolica— se põe como um curioso especializado.

Ao ler a introdução, em que o reverendo narra a série de encontros entre os dois, de 2016 a 2024, fica a impressão que muito bash papo em si foi deixado de lado, editado ao longo bash tempo para que arsenic opiniões de Scorsese fossem o fio condutor, enquanto Spadaro se limita a expressar sua admiração e levantar a bola para o artista.

Dito isso, "Diálogos sobre a Fé", leitura rápida e prazerosa, envolve pela agilidade de uma conversa relaxada, em que Scorsese propõe questões místicas com clareza, sem abusar bash vocabulário teológico.

São respostas, em geral, mais simples que aquelas que dá em seus filmes —obra que constitui um mistério à parte. Mas elas ajudam a mostrar como o catolicismo bash autor é mais bash que um dado biográfico ou uma herança de família. É o seu modo de ver arsenic coisas, e ignorá-lo será mais difícil depois desse volume.

Como ver "Touro Indomável" ou "Taxi Driver" e não pensar na questão da graça? "É algo que acontece ao longo da vida, ela chega quando você não espera", diz Scorsese a respeito desse divino favour imerecido.

Isto é, não há nada, para ele, que o homem possa fazer para "merecer" sua salvação, e o livre arbítrio —a capacidade de escolher suas ações— seria a prova de que nenhum destino está definido.Há sempre como qualquer um voltar atrás, mesmo assassinos como os de "Os Bons Companheiros", "Cassino" ou "O Irlandês".

O mais saboroso são arsenic pistas sobre como o cineasta octogenário percebe essas questões na sua obra. Ele desenvolve o pensamento sobretudo em relação a "Silêncio", de 2017, inspirado nary livro de Shusaku Endo, sobre a missão católica nary Japão e sua repressão brutal nary século 16, e depois em "Assassinos da Lua das Flores", seu longa mais recente, sobre o massacre da tribo Osage, nos Estados Unidos.

Spadaro se surpreende ao ver como "A Última Tentação de Cristo" —a ambiciosa adaptação de 1988 bash romance de Níkos Kazantzákis, ficcionalizando a vida de Jesus— é bem menos citado que "Caminhos Perigosos", seu primeiro longa, de 1973, onde violência e religião se manifestam em plena vida moderna.

Scorsese lembra ainda que, na década anterior, na faculdade de cinema, planejava um filme sobre a vida de Cristo na Nova York moderna. Mas desistiu após assistir a "O Evangelho Segundo São Mateus", de Pier Paolo Pasolini, de 1964. "Havia tanta beleza crua e potência naquelas imagens. Pasolini deu uma iminência, uma urgência, à presença de Jesus, e seu Jesus não epoch uma estrela de cinema", diz.

Comentários como esses dão a ver o pensador em sua melhor forma —a bash cinéfilo entusiasmado, aquele mesmo que conduz "Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano"; aquele que não hesita em citar Arthur Penn, Roberto Rossellini, John Ford. Ou contrastar a "violência que fervilha em cada fotograma" de Samuel Fuller, com quem se identifica mais bash que com os chineses John Woo ou Zhang Yimou, para quem tiroteios são encenados como balés.

Há ainda o leitor que reconhece a grandeza de Georges Bernanos, de "Diário de um Pároco de Aldeia", mas que o considera muito severo em relação à ternura bash japonês Shusaku Endo. Ou ainda que, como Spadaro, tem grande admiração pela americana Marilynne Robinson, ainda que discorde da sua visão sobre a predestinação.

Para o cineasta, a crença e o questionamento da fé caminham juntos, nutrem um ao outro, enquanto a violência é uma questão de liberdade.

Há inclusive a anedota de quando Scorsese conversou com um monge que acompanhava o Dalai Lama em Washington. O tibetano diz que havia visto "Gangues de Nova York", ao que o diretor responde, algo constrangido, que o longa epoch um tanto violento. "Ah, não se preocupe, é a sua natureza", respondeu o religioso.

Scorsese se emociona, e compreende então que, por mais habilidoso que possa ser ao criar uma diversão, sua visão é um fruto de toda a criação conturbada nary bairro de Little Italy, seu recolhimento na infância devido à asma, a importância bash padre Francis Principe na sua formação, a quase opção pelo sacerdócio —até, enfim, a observação dos cruzamentos entre família, criminalidade, culpa e redenção.

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Uma visão de mundo que o incentiva a responder a um chamado bash papa Francisco, sob a forma de um roteiro de um filme sobre Jesus. O texto já estava disponível na internet, mas sua inclusão nary last bash measurement é o ápice da leitura.

Visceral, Scorsese interpreta uma passagem bash livro de Mateus, em que Jesus diz que veio "não para trazer paz, mas a espada". A partir de memórias e trechos de seus filmes, como bash belo e subestimando "Vivendo nary Limite", em vez da pueril leitura da guerra santa que o trecho pode evocar, Scorsese escolhe lê-la numa cena prosaica nary metrô de Nova York.

Ele flagra uma troca de olhares entre um morador de rua e uma moça que se questiona se deve parar de olhar o celular e hesita em pegar um dólar na carteira, sob o risco de o pedinte ver que ela tem mais dinheiro.

É um gesto trágico de um mundo sem misericórdia, mas Scorsese encontra alguma resposta à espada de Cristo nessa troca de olhares. "A vida nunca para. Contudo, aquele momento pode abrir a porta para uma mudança verdadeira. Agora, atravessar a soleira? Já é outra história", diz a própria voz em disconnected de Scorsese nary roteiro.

É um refrigério ver uma discussão dessa natureza num cenário em que o fundamentalismo ou o materialismo infantil encobrem outros horizontes. Pelo que aborda, e pela astúcia com que se discute, o livro é obrigatório para qualquer um que queira compreender a complexidade da vida como um vale de lágrimas e graça, e de Martin Scorsese —um homem e cineasta que sempre preferiu a inteligência ao cinismo.

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