Mais da metade dos criadores de conteúdo já considerou abandonar a carreira. É o que revela o Creator Report 2025, estudo da Manychat que aponta que 51% dos criadores pensaram em desistir, índice que sobe para 55% entre a Geração Z. Os dados ajudam a dimensionar um cenário de pressão crescente na creator economy, marcado por instabilidade, cobrança constante e dependência das plataformas digitais. Para entender o que está por trás desses números, o TechTudo conversou com a diretora-geral da Manychat Brasil, Flavia Rosário, com a psicóloga Pamela Magalhães e com o criador de conteúdo Sou Will, que relatam como a lógica do engajamento e do algoritmo tem impactado a rotina, a saúde mental e a sustentabilidade dessa profissão.
Presos ao scroll infinito: como o algoritmo esgota criadores de conteúdo — Foto: Shutterstock “Pensei em desistir”: o que está levando criadores ao limite
A exaustão aparece como uma experiência recorrente entre criadores de diferentes nichos. Para Sou Will, a ideia de que trabalhar com redes sociais é uma tarefa simples não corresponde à realidade. “Acho que todo influenciador se sente cansado e esgotado. Existe uma falácia ao dizer que é um trabalho fácil”, afirma.
Segundo ele, o desgaste é ainda maior para quem produz conteúdo estruturado, com responsabilidade editorial, e soma-se ao impacto emocional do retorno que não depende apenas do público, mencionando os sistemas automatizados de distribuição de conteúdo presente nas plataformas.
Will descreve a frustração de investir tempo, dinheiro e energia sem garantia de entrega. “Quando você faz um vídeo bem roteirizado, responsável, bem editado, investe tempo e dinheiro, e ele não é entregue por um fator externo, você se sente invalidado.” Para ele, esse processo leva a uma autocrítica constante. “A gente acaba se culpando o tempo todo.”
Os números mostram que não é um caso isolado
Os relatos individuais refletem um fenômeno mais amplo identificado pelo Creator Report 2025. Entre a Geração Z, por exemplo, 55% dos criadores já pensaram em desistir da carreira. O grupo entrou mais recentemente neste mercado e cresce sob a lógica de alta competitividade, métricas em tempo real e dependência quase total das plataformas.
Para Flavia Rosário, diretora-geral da Manychat Brasil, esses dados não devem ser lidos como episódios pontuais de frustração, mas como sinais de um desgaste estrutural da atividade.
A pesquisa também aponta uma mudança na forma como os próprios usuários percebem os criadores.
Segundo ela, os excessos na rotina produtiva tem deslocado o foco da criação.
Números mostram que mais da metade dos influencers pensam em abandonar a carreira — Foto: Freepik Cobrança contínua que leva ao esgotamento
Segundo Flavia, o burnout não tem uma causa específica, além de que para entendê-lo é necessário o observar o cenário de trabalho de forma mais ampla.
A exigência por constância aprofunda esse cenário. “Quando somamos isso à lógica dos algoritmos — que exigem constância, performance e adaptação constante — criamos um cenário em que o criador sente que nunca pode desacelerar”, diz a especialista.
Do ponto de vista clínico, a psicóloga Pamela Magalhães explica por que esse tipo de cobrança favorece o adoecimento e diferencia o quadro de esgotamento do estresse comum.
Segundo diretora do Manychat, cobrança não permite que criadores desacelerem — Foto: Getty Images Audiência alta não significa renda estável
Apesar da visibilidade, a maioria dos criadores enfrenta instabilidade financeira. O Creator Report 2025 mostra que quase três em cada quatro ganham menos de US$ 10 mil por ano com a criação de conteúdo (pouco mais de R$ 52 mil em conversão direta).
A diretora geral da Manychat Brasil aponta que esse fator pesa especialmente entre criadores menores. “Criadores menores acumulam funções e sentem mais fortemente a falta de retorno financeiro. Isso aparece nos dados como dois gatilhos relevantes para pensar em desistir: ‘não estava dando certo’ e ‘não ganhava dinheiro’.”
O influenciador digital Sou Will reforça a insegurança gerada por esse modelo. “Crescer é necessário para garantir sustentabilidade financeira”, diz, ao explicar que, mesmo tentando não viver em função disso, os números continuam sendo determinantes para o mercado.
Número de visualizações não significa renda alta — Foto: Shutterstock Algoritmo exige constância: o impacto do “estar sempre online”
A exigência por presença contínua afeta diretamente a saúde mental. Para Magalhães, “a lógica do algoritmo transforma presença em obrigação”. Segundo ela, tudo passa a ser medido. "Tudo passa a ser comparado e avaliado por números, gráficos e métricas, o que gera um estado de hipervigilância permanente.”
A própria psicóloga, que também é muito ativa nas redes sociais, relata sentir essa pressão no dia a dia e explica que, com o tempo, parar de usar as plataformas se torna angustiante.
Esse estado constante de alerta tem consequências claras. “Esse monitoramento constante cria ansiedade antecipatória, medo de errar e dificuldade real de descanso”, afirma.
Psicóloga alerta para estado de hipervigilância — Foto: Shutterstock O chamado “gap de engajamento”, na prática
Mesmo com altos níveis de interação, muitos criadores relatam frustração com a falta de retorno real. Para Rosário, os dados mostram uma perda de sentido na atividade. “Precisamos lembrar que, antes de serem criadores, eles são pessoas, e estamos perdendo justamente aquilo que os torna únicos.”
Sou Will descreve essa distância entre esforço e resultado. “Essa frustração não vem da validação ou invalidação humana, mas do que o algoritmo faz com o conteúdo.” Segundo ele, o sistema se torna uma incógnita. “Ele vira quase um ‘deus’, e isso é extremamente esgotante.”
Para influenciador, algoritmo é como se fosse um "deus" — Foto: Freepik A transformação da vida em um produto
A pressão por autenticidade e proximidade também cobra seu preço. Pamela explica que influenciadores vivem sob exposição e consequente alerta constante. “Existe a sensação de que, em qualquer contexto, o criador está ‘performando'. Isso aumenta significativamente o risco de exaustão.”
A psicóloga relata os impactos pessoais dessa dinâmica. “Muitos momentos de silêncio, de descanso e de paz foram sacrificados. Tempo com a família, com amigos, sono.” O corpo, segundo ela, responde. “O corpo sempre vai dando sinais de que algo não está bem.”
O influenciador reforça ainda a falta de compreensão sobre a profissão. “As pessoas não entendem que ser influenciador é prestar um serviço”, afirma. “A gente ama o que faz, mas não existe glamour. Existe entrega, esforço e um custo emocional alto.”
Exposição constante faz com que influencers pareçam sempre performar — Foto: iStock Até quando esse modelo se sustenta?
Diante desse cenário, a sustentabilidade do modelo atual é colocada em dúvida. Para Flavia Rosário, “esse ciclo está se esgotando”. Ela defende mudanças estruturais: “o papel de ferramentas como a Manychat é reduzir esse nível de desgaste, devolver tempo e fôlego aos criadores e ajudar essa roda a voltar a girar de forma mais saudável.”
Pamela Magalhães alerta para os riscos de normalizar esse ritmo. “Quando os números começam a definir o humor, a autoestima e a identidade da pessoa, já há um sinal claro de alerta.” Para ela, o corpo costuma avisar. “Se o corpo começa a somatizar, esse é o momento de buscar ajuda profissional.”
Sou Will diz que segue buscando equilíbrio. “Manter esse ritmo é estar cansado o tempo todo. É a capacidade humana sendo testada constantemente.” Apesar disso, ele reconhece os limites. “Hoje estou melhor, mas sigo buscando equilíbrio, porque é uma balança muito injusta e que foge do nosso controle.”
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