Ilustração digital mostra nuvens vermelhas e gelo de água sobre a superfície de Marte contra o fundo preto do espaço

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Ilustração digital da superfície de Marte
    • Author, Rebecca Morelle
    • Role, Editora de ciências
    • Author, Alison Francis
    • Role, Jornalista de ciências, BBC News
  • Há 18 minutos

  • Tempo de leitura: 7 min

Em questão de poucos dias, a Nasa pretende lançar a missão Artemis 2, que irá enviar quatro astronautas em direção à Lua. Sua viagem em torno do nosso vizinho mais próximo abrirá o caminho para um novo pouso e, eventualmente, uma base lunar.

O programa Artemis, da Nasa, exigiu anos de trabalho, envolveu milhares de pessoas e seu custo estimado, até aqui, é de US$ 93 bilhões (cerca de R$ 487 bilhões).

Mas, para algumas pessoas, existe uma clara sensação de que "já estivemos lá e já fizemos isso".

Mais de 50 anos atrás, as missões americanas Apollo fizeram história quando o ser humano pisou, pela primeira vez, na superfície lunar. E, com seis pousos ao todo, parecia que a Lua havia sido totalmente retirada da lista de objetivos a serem alcançados no espaço.

Então, por que os EUA vêm dedicando tanto tempo, esforço e dinheiro nesta corrida para retornar ao nosso satélite natural?

Recursos valiosos

Vista de crateras de impacto na superfície lunar

Crédito, NASA

Legenda da foto, 'A Lua tem os mesmos elementos que temos aqui na Terra', segundo a professora Sara Russell

O terreno pode parecer seco, poeirento e um tanto estéril, mas é muito mais do que isso.

"A Lua tem os mesmos elementos que temos aqui na Terra", segundo a professora Sara Russell, cientista planetária do Museu de História Natural de Londres. "Um exemplo são as terras raras, que são muito escassas na Terra, e pode haver partes da Lua com concentração suficiente para permitir sua mineração."

Existem também metais, como ferro e titânio, além de hélio, que é empregado para tudo, desde supercondutores até equipamento médico.

Mas o recurso que mais nos atrai é o mais surpreendente: a água.

"A Lua tem água capturada em alguns dos seus minerais e também quantidades substanciais de água nos polos", segundo Russell.

A professora destaca que existem crateras permanentemente na sombra, onde pode se acumular gelo.

Ter acesso à água é fundamental para viver na Lua. Ela não só fornece água potável, mas pode também ser repartida em hidrogênio e oxigênio, para fornecer aos astronautas ar para respirar e até combustível para espaçonaves.

A corrida pela dominação do espaço

O astronauta Buzz Aldrin, de pé, ao lado de uma bandeira dos Estados Unidos colocada na Lua, durante as atividades extraveiculars da Apollo 11, em 1969

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, O astronauta Buzz Aldrin saúda a bandeira americana na superfície da Lua, em 1969

As missões americanas Apollo, nos anos 1960 e 1970, foram impulsionadas pela corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética (1922-1991). E, desta vez, a concorrente americana é a China.

Legenda do vídeo, Por que estamos voltando à Lua?

Ser o primeiro país a hastear sua bandeira na poeira lunar ainda traz prestígio. Mas, agora, o que realmente importa é onde você a coloca. Os EUA e a China querem ter acesso às regiões com maior abundância de recursos, o que significa garantir para si o melhor terreno lunar possível.

Veículo lunar chinês em foto tirada da 'câmera móvel' operada pela sonda Chang'e (fora do quadro), na superfície lunar segurando uma bandeira da China, durante a missão lunar chinesa em 4 de junho de 2024

Crédito, CNSA via EPA

Legenda da foto, A China colocou sua bandeira na Lua ao fazer pousar uma aeronave robótica no satélite em 2020

O Tratado do Espaço Sideral das Nações Unidas de 1967 afirma que nenhum país pode tomar posse da Lua. Mas, em relação ao que for encontrado por lá, não há tanta clareza.

"Você não pode ser dono de um terreno devido ao tratado da ONU, mas você pode basicamente operar naquele terreno sem interferência de ninguém", explica a primeira astronauta britânica, Helen Sharman. "Por isso, o importante agora é tentar capturar o seu pedaço de terra. Você não pode ser dono dele, mas pode usá-lo. E, quando você estiver lá, ele é seu pelo tempo que quiser."

Abrir o caminho para Marte

Regiões mais altas do monte Sharp, em Marte. À frente, áreas mais escuras com pequenos morros e uma encosta levemente maior à esquerda. No meio da imagem, áreas rochosas com aparência escarpada. À distância, morros maiores, mais arredondados, com encostas suaves.

Crédito, NASA

Legenda da foto, Viver em Marte será muito mais difícil que na Lua

A Nasa tem seus olhos voltados para Marte e pretende enviar pessoas para lá na década de 2030.

Considerando os obstáculos tecnológicos que precisam ser superados, este é um prazo bastante ambicioso. Mas é preciso começar em algum lugar e, para isso, os EUA escolheram a Lua.

"Ir para a Lua e permanecer lá por um período prolongado é muito mais seguro, mais barato e mais fácil como teste para aprendermos a viver e trabalhar em outro planeta", afirma Libby Jackson, chefe de espaço do Museu de Ciências de Londres.

Em uma base lunar, a Nasa pode aperfeiçoar a tecnologia para fornecer o ar e a água de que os astronautas necessitam. Eles precisarão descobrir como gerar energia e construir habitats para proteger as pessoas das temperaturas extremas e da perigosa radiação espacial.

"São todas tecnologias que, se você experimentar pela primeira vez em Marte e elas saírem errado, será potencialmente catastrófico", explica Jackson. "É muito mais seguro e muito mais fácil experimentá-las na Lua."

Mistérios ainda a serem descobertos

O astronauta Harrison Schmitt, da Apollo 17, coleta amostras de rochas da Lua. A rocha é um pouco mais alta que ele e tem cerca de três vezes sua largura. Ele está à esquerda da foto, de costas para a câmera, vestindo um traje espacial branco da Nasa, e tenta coletar a amostra usando seu braço direito. Seu corpo cria uma sombra sobre a grande rocha cinza escura.

Crédito, NASA

Legenda da foto, Os astronautas da missão Apollo recolheram amostras de rochas durante suas missões

Os cientistas não veem a hora de colocar suas mãos (com luvas, é claro) em material trazido da Lua. As rochas trazidas pelos astronautas da Apollo transformaram nosso conhecimento sobre o satélite natural da Terra.

"Elas nos disseram que a Lua foi formada por um evento incrivelmente dramático, quando um corpo do tamanho de Marte se chocou com a Terra e os pedaços que saíram formaram a Lua", explica Russell. "Sabemos disso devido às rochas da Apollo."

Mas ela conta que ainda há muito a ser descoberto.

Como a Lua já fez parte da Terra, ela detém um registro de 4,5 bilhões de anos de história do nosso planeta. E, sem placas tectônicas, vento ou chuva para apagar esse registro, a Lua é uma cápsula do tempo perfeita.

"A Lua é um fantástico arquivo da Terra", segundo Russell. "Ter um novo lote de rochas de uma área diferente da Lua seria fantástico."

Inspiração para uma nova geração

A Artemis 2 no hangar de construção de veículos do Centro Espacial Kennedy, da Nasa, com três trabalhadores usando capacetes brancos olhando para o foguete

Crédito, Joe Raedle via Getty Images

Legenda da foto, Espera-se que as missões Artemis animem as pessoas a seguir carreira na ciência, tecnologia e engenharia

As imagens granuladas e em preto e branco das missões Apollo transformaram o sonho do espaço em realidade. E, embora apenas alguns poucos sortudos dos que assistiram a elas tenham se tornado astronautas, muitos seguiram carreira em ciência, tecnologia e engenharia.

Fotografia em preto e branco da missão Apollo 12 em 1969, mostrando um dos astronautas sobre a superfície lunar, segurando um recipiente de solo lunar. O outro astronauta é observado refletido no capacete.

Crédito, NASA

Legenda da foto, As imagens em preto e branco transmitidas pelas missões Apollo transformaram a ficção científica em realidade

Espera-se que as missões Artemis, transmitidas ao vivo em 4k, inspirem uma nova geração.

"Vivemos em um mundo de tecnologia", explica Libby Jackson. "Precisamos de cientistas, engenheiros e matemáticos. E o espaço tem a brilhante capacidade de incentivar as pessoas sobre esses temas."

Novos empregos e uma economia espacial em expansão oferecerão aos Estados Unidos um retorno dos bilhões de dólares sendo despejados na Artemis — e em derivações da tecnologia das missões para uso na Terra.

Mas Helen Sharman afirma que o nosso retorno à Lua também dará ao mundo um impulso bastante necessário.

"Se realmente nos unirmos, podemos produzir muitas coisas benéficas para a humanidade", afirma ela. "Aquilo nos mostra o que os seres humanos são capazes de fazer."