
- Author, Nada Tawfik
- Role, Correspondente da BBC para América do Norte
Published Há 19 minutos
Tempo de leitura: 4 min
Com seis partidas por dia até o fim da fase de grupos, acompanhar a Copa do Mundo virou quase um trabalho em tempo integral. Mas, para Kevin Akoto e Austin Franklin, esse é literalmente o caso.
Os dois foram contratados para assistir aos 104 jogos do torneio e vão receber US$ 50 mil (cerca de R$ 273 mil) cada pelo trabalho.
A BBC conversou com os dois torcedores pouco mais de uma semana depois de começarem seus cargos como chief world cup watchers ("observadores-chefes da Copa do Mundo", em tradução livre) do serviço de streaming Fox One, para saber como tem sido a experiência.
É difícil não notar a cabine de vidro feita sob medida no meio da Times Square, em Nova York, nos Estados Unidos, onde os passantes e curiosos podem espiá-los. Akoto e Franklin trabalham ali, em um espaço que conta com poltronas reclináveis, um sofá de couro, duas TVs de tela grande e até uma mesa de pebolim.
O espaço também está cheio de itens ligados ao futebol e petiscos, criando o ambiente de uma verdadeira "sala de torcedor".
"É o sonho de qualquer fã de futebol de 20 e poucos anos. Se você pudesse colocar qualquer coisa aqui dentro, seria isso que você colocaria como fã de futebol", disse Akoto à BBC.
Akoto, que trabalha como cozinheiro na Flórida, e Franklin, influenciador da Filadélfia, superaram milhares de candidatos para conseguir a vaga. Além de assistir a todas as partidas, eles também precisam produzir conteúdo para os torcedores.
Como ainda faltam várias semanas para o fim da Copa, que vai de 11 de junho a 19 de julho, os dois dizem que estão tentando dosar o ritmo.
"Eu já comecei a sentir o cansaço, o Franklin também. Estamos aprendendo a lidar com tudo o que acontece ao mesmo tempo", afirma Akoto.
Franklin concorda e compara a experiência a um acampamento de férias, quando os dias começam a parecer todos iguais.
"É realmente uma maratona. No fim das contas, é um trabalho tranquilo: fico sentado no sofá assistindo a futebol. Mas cansa, e faço questão de dormir minhas oito horas sempre que posso."
Felizmente, o trabalho não exige que eles durmam na cabine de vidro da Times Square. Ao fim de cada turno, eles voltam para casa para descansar antes do dia seguinte.
A dupla já presenciou momentos históricos. Assistiu ao argentino Lionel Messi quebrar o recorde de maior artilheiro da história das Copas do Mundo enquanto saboreava um churrasco argentino. Outro benefício do trabalho é experimentar pratos típicos dos países que disputam o torneio.
Nos intervalos entre os jogos, eles também têm a oportunidade de interagir com torcedores, como os milhares de brasileiros que tomaram conta da Times Square. A região turística se transformou em um ponto de encontro de visitantes da Copa, incluindo os noruegueses que fizeram ali a tradicional comemoração conhecida como "remo viking".

Crédito, Getty
Franklin diz que essa tem sido a melhor parte da experiência: conhecer torcedores do mundo todo e conversar sobre futebol, cultura e a forma como cada um está vivendo a Copa nos EUA (sede da Copa ao lado do México e do Canadá).
"O mais louco é a frequência com que esqueço que estou na Times Square, com um monte de gente me observando. Fico 10, 15 minutos assistindo ao jogo completamente concentrado. Aí olho para o lado, vejo o Akoto, vejo toda aquela gente passando pela Times Square e percebo onde estou."
E quanto aos palpites?
Akoto aposta que a Espanha ficará com a taça, embora esteja torcendo pelos EUA e por Gana, país de origem de sua família.
Franklin veste a camisa da Noruega, não por motivos pessoais, mas pelo desempenho da equipe até aqui e pela fase do atacante norueguês Erling Haaland, que atua no clube inglês Manchester City.
"É fácil dizer que Espanha ou França vão ganhar. Mas acho que a Noruega está muito perto desse nível. Se as coisas acontecerem da maneira certa, consigo imaginar o time levantando a taça."
Já entre quem acompanha a história da dupla, as opiniões se dividem sobre aceitar ou não um trabalho como esse.
O torcedor norueguês Eimund Liland, de 52 anos, e sua filha Camille, de 15 anos, afirmam que assistir aos 104 jogos, sem qualquer privacidade, seria um pouco "exagerado".
Matthew Mendez, de 18 anos, disse à BBC que preferiria viver a Copa ao lado de amigos ou da família.
Já Miguel Sanchez, de 20 anos, mal consegue acreditar na sorte da dupla.
"Sério? Isso é até melhor do que ir aos jogos. Ser pago para assistir à Copa do Mundo é uma loucura, uma verdadeira loucura."

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