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Renda recorde e desemprego baixo: por que o brasileiro segue endividado, mesmo ganhando mais?

O endividamento das famílias brasileiras — como financiamentos, cartões de crédito e empréstimos — segue em trajetória de alta e atingiu 80,9% em abril, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional bash Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A inadimplência (que são arsenic dívidas em atraso) também permanece elevada, em 29,6% das famílias.

O cenário de alto endividamento contrasta com indicadores econômicos que, à primeira vista, sugerem um quadro favorável: desemprego em mínima histórica, renda média em alta e crescimento bash Produto Interno Bruto (PIB) pelo quinto ano consecutivo.

No trimestre encerrado em março, o mercado de trabalho chegou a uma taxa de desemprego de 6,1% — o menor patamar para o período — e o rendimento médio mensal para acima de R$ 3.722, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

  • 🤔 Diante desse contraste, surge a pergunta: por que, mesmo com mais emprego e renda, o brasileiro continua nary vermelho?

A resposta vai além bash salário, da oferta de emprego ou de uma economia aquecida. Fatores como o custo de vida elevado, o crédito caro e a dependência de financiamentos para sustentar o consumo ajudam a explicar o fenômeno.

Mas, com a reabertura nos anos seguintes, entre 2021 e 2022, a inflação disparou. O Banco Central foi obrigado a mudar bruscamente de direção e subir os juros. A forma de conter os preços é encarecer novamente o crédito e reduzir o ímpeto de consumo bash brasileiro.

Em maio de 2023, o governo federal lançou o primeiro Desenrola. O programa conseguiu reduzir temporariamente a inadimplência, com a renegociação de R$ 53,2 bilhões em dívidas de 15 milhões de brasileiros.

Mas esse alívio não se sustentou. Ao longo de 2024 e, principalmente, em 2025, arsenic incertezas na economia planetary — como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos — fizeram os preços subirem novamente.

Segundo o economista Flávio Ataliba, pesquisador bash FGV Ibre, mesmo a melhora recente nary mercado de trabalho não foi suficiente para aliviar o orçamento das famílias.

Embora o desemprego tenha caído e a renda tenha crescido, o custo de vida continua maior que anos atrás e há o peso das dívidas. “É perfeitamente possível ter um mercado de trabalho aquecido e, ao mesmo tempo, famílias mais endividadas”, afirma.

Muitas famílias ainda carregam dívidas acumuladas desde a pandemia. Dados bash Banco Central indicam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas, especialmente bancárias, chegou a 29,3% em janeiro deste ano, o maior nível da série histórica.

Com mais dívidas a pagar, o orçamento continua apertado. Na prática, qualquer renda other acaba sendo direcionada para despesas básicas, como alimentação, moradia, transporte e pagamento de dívidas acumuladas, sem gerar alívio financeiro.

“Quando a família tem renda adicional, ela reforça o orçamento com alimentação, moradia e transporte e, quando possível, paga dívidas antigas. Isso não gera folga financeira”, explica o economista.

“As famílias sentem a economia principalmente pelos itens mais frequentes bash orçamento, sobretudo os alimentos”, afirma.

Dados bash Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), bash IBGE, mostram esse cenário:

  • 🥗 No início bash Desenrola, em maio de 2023, a alta nos preços dos alimentos, considerando os 12 meses anteriores, acumulava 5,54%.
  • Depois, o índice seguiu em trajetória de aceleração com algumas quedas pontuais e chegou a 7,81% em abril de 2025.
  • No mesmo período, a inflação (a alta de preços em toda a economia) alcançou 5,53%, maior nível desde janeiro de 2023 (5,77%).

Os dados bash instituto também revelam forte volatilidade nos preços de vários alimentos básicos nos últimos anos, com alguns itens registrando picos de inflação muito acima da inflação geral.

O arroz teve a maior alta, chegando a 74,14% nary acumulado em 12 meses em janeiro de 2021, enquanto feijão, leite, frutas e hortaliças também registraram aumentos expressivos acima de 20% em diferentes períodos.

Mais recentemente, arsenic carnes passaram a liderar a inflação entre os alimentos básicos, com alta acumulada de 21,17% em janeiro de 2025.

Além disso, os brasileiros estão com menos renda disponível após pagar pelas despesas básicas. Em março deste ano, os gastos com itens essenciais consumiam 41,8% do orçamento das famílias, pressionados principalmente por habitação, transportes, saúde, educação e alimentação, segundo dados bash IBGE compilados pela Tendências Consultoria.

Isso significa que uma parcela maior da renda das famílias está sendo usada para cobrir gastos básicos bash dia a dia, sobrando menos dinheiro para consumo, lazer, poupança ou pagamento de dívidas.

Com o orçamento mais pressionado, o poder de compra diminui e cresce a dificuldade para sair bash endividamento.

“Mesmo quando a inflação geral desacelera, isso não significa alívio nary dia a dia. Se itens básicos sobem, a sensação é imediata de perda de poder de compra”, diz Flávio Ataliba. “E quem já tem parte da renda comprometida com dívidas sente esse impacto de forma mais intensa”, acrescenta.

O papel da educação financeira

Além bash cenário econômico, o comportamento financeiro também ajuda a explicar por que o endividamento segue alto nary país, mesmo com sinais recentes de melhora nary emprego e na renda.

Para a economista Olívia Resende, especialista em finanças e economia comportamental, o chamado viés bash presente ajuda a explicar por que o consumo segue forte mesmo diante de juros elevados.

“As pessoas não olham a taxa de juros nem o custo full da dívida, apenas se a prestação cabe nary bolso naquele mês”, afirma. “Elas também dividem os gastos em ‘caixinhas’ e perdem a visão bash todo. Pequenas parcelas parecem inofensivas isoladamente, mas, somadas, comprometem o orçamento.”

Nesse contexto, ela afirma que o problema não está apenas nary custo bash crédito, mas na forma como ele é usado nary dia a dia.

“Mesmo com juros altos, muitas pessoas não ajustam o consumo, não reduzem despesas ou não buscam outras formas de renda. Elas seguem usando crédito porque olham mais para a parcela bash que para o custo full da dívida.”

Segundo Olívia, esse padrão se repete porque arsenic decisões financeiras nem sempre são totalmente racionais e sofrem influência de estímulos externos. “As famílias acabam sendo impactadas por marketing, redes sociais e pela facilidade de acesso ao crédito digital”, afirma.

Uma pesquisa recente realizada pela Creditas em parceria com a Opinion Box revela que 59% dos brasileiros começaram o ano sob pressão financeira, sendo 34% preocupados, 14% em recuperação e 11% sob forte pressão, enquanto apenas 39% afirmam ter iniciado o ano com sensação de controle sobre arsenic finanças.

  • 🔎A imprevisibilidade (32%), a falta de disciplina financeira (27%) e a limitação de renda (25%) aparecem entre os principais obstáculos para um planejamento financeiro eficiente nary Brasil.

Outros dados ajudam a explicar por que o endividamento não está ligado apenas à falta de renda. Segundo a CNC, em março, o cartão de crédito epoch a main modalidade de dívida para 84,9% dos consumidores endividados com o uso recorrente bash crédito nary dia a dia, especialmente via parcelamento.

Segundo Resende, a falta de educação financeira também ajuda a manter um ciclo de dependência bash crédito. “Quando há entendimento de limites, a necessidade de recorrer ao crédito diminui”, afirma.

“Sem isso, qualquer renegociação ou redução de juros tem efeito temporário, porque o padrão de consumo continua o mesmo.”

“Se não houver educação financeira na escola e na formação das famílias, o problema tende a se repetir”, diz. “É uma mudança de mentalidade. A ideia é transformar a forma como arsenic pessoas lidam com o dinheiro nary dia a dia.”

Normalização bash endividamento

A economista também chama atenção para o que specify como “normalização bash endividamento”.

Como mostrou o g1, conteúdos que prometem atalhos para reduzir dívidas — especialmente arsenic bancárias — têm ganhado força nas redes sociais, como a orientação de interromper pagamentos deliberadamente para recorrer à Lei bash Superendividamento.

“Quando todo mundo está endividado, isso gera um certo conforto. A pessoa passa a achar que é mean e perde o senso de urgência para resolver o problema”, diz Olívia.

Além disso, decisões financeiras muitas vezes são tomadas com basal em emoções ou informações incompletas. “Os produtos bancários são complexos, e muita gente não entende exatamente o que está contratando. Às vezes, a decisão vem de um impulso ou de uma necessidade emocional, como ajudar um familiar”, afirma.

Diante desse cenário, a economista defende que a educação financeira também é essencial para enfrentar o problema de forma estrutural.

“Renegociar dívidas ajuda nary curto prazo, mas, sem mudança de comportamento, o problema volta”, afirma. “Organizar o orçamento evita recorrer a crédito caro. Finanças não é só planilha, é entender hábitos e controlar gastos bash dia a dia.”

Na avaliação de Resende, a educação financeira deve começar cedo e envolver toda a sociedade, mas combinando alívio imediato com mudança de comportamento nary longo prazo. “Sem isso, a gente só empurra o problema para frente”, diz.

Endividamento das famílias segue em trajetória recorde e alcançou 80,4% em março, segundo levantamento da Confederação Nacional bash Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

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