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Reorganização do centro enfrenta resistência da direita

A reorganização do centro político brasileiro voltou ao radar na última semana, impulsionada pela reunião de governadores e pela empreitada do PSD de se apresentar como polo nacional em um ambiente saturado pela polarização.

Gilberto Kassab, Ronaldo Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite passaram a ser mencionados como partes de um mesmo projeto, quase sempre tratados como bloco. Tarcísio de Freitas, por sua vez, permaneceu em posição singular. Mesmo deixando claro que não é candidato a presidente, continuou se mantendo como um dos nomes mais mencionados no debate de sucessão presidencial.

Esse tipo de articulação de centro nasce com uma contradição de origem. Ao mesmo tempo em que tenta se diferenciar da polarização Lula versus Bolsonaro, depende dela para existir como alternativa. A terceira via só se torna relevante se há fadiga com os polos, mas enfrenta dificuldade estrutural para se sustentar. O movimento é liderado por políticos experientes, mas com baixa capacidade de mobilização emocional.

Com dados analisados a partir de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp monitorados pela Palver, essa assimetria aparece com clareza. Tarcísio de Freitas concentra, de longe, o maior volume de menções entre os atores analisados. Mais importante do que o alcance é a natureza dessas menções. Diferentemente dos demais, Tarcísio apresenta a menor rejeição relativa do grupo e uma distribuição equilibrada entre avaliações positivas, negativas e neutras.

O contraste com os demais é expressivo. Gilberto Kassab e o PSD aparecem associados majoritariamente a avaliações negativas. Ratinho Jr. e Eduardo Leite também enfrentam rejeição predominante, enquanto Ronaldo Caiado oscila de forma mais intensa, alternando picos de aprovação com ondas de crítica. Nenhum deles consegue sustentar uma narrativa contínua de entusiasmo.

Parte relevante dessa rejeição é produzida. A análise qualitativa das mensagens e vídeos que circulam nos grupos mostra uma articulação explícita da direita bolsonarista que ataca o PSD e qualquer tentativa de reorganização do centro.

O PSD é descrito como partido do centrão, associado a acordos de bastidor, à sustentação do governo Lula e à traição do bolsonarismo. Kassab é apresentado como operador do sistema, símbolo de uma política profissional que sobreviveria a qualquer governo. Caiado, Ratinho e Leite aparecem como cúmplices conscientes desse arranjo, rotulados como direita falsa ou esquerda disfarçada.

A filiação de Ronaldo Caiado ao PSD acendeu nessa direita o uso da palavra "traição", que aparece de forma constante e é enquadrada como abandono da lealdade, submissão ao sistema e cumplicidade com o governo federal. Vídeos longos e altamente emocionais reforçam a ideia de que votar em partidos associados ao centro equivale a legitimar a prisão dos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro e a perpetuação de um regime supostamente corrupto.

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Nesse momento, a estratégia da direita não é disputar o centro, mas interditá-lo. E o governador de São Paulo ocupa um lugar distinto dos outros governadores. Ele é alvo de críticas duras, inclusive vindas do próprio bolsonarismo, mas essas críticas assumem a forma de cobrança da sua lealdade, sua hesitação e sua disposição de apoiar Flávio Bolsonaro (PL). Isso, paradoxalmente, reforça sua relevância, uma vez que só se cobra fidelidade de quem importa. Tarcísio é o único nome tratado simultaneamente como ativo estratégico e risco potencial. É aceito, desde que não se emancipe.

A disputa se desenha entre formas de organizar o campo político. De um lado, uma tentativa de reconstrução do centro, do outro uma direita que busca impedir essa reorganização, moralizando o debate e transformando qualquer iniciativa que ameace a candidatura de Flávio como prova de traição.

No meio desse conflito, Tarcísio emerge como exceção. Não porque representa a terceira via, mas porque ainda não foi completamente capturado por ela. É justamente essa abertura que explica por que ele organiza o debate, mesmo quando tenta não participar dele.

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