Além de acompanhamento do sono e contagem de calorias, boa parte dos smartwatches mais recentes oferece também monitoramento do índice de estresse. Sempre que o relógio detecta mudanças fisiológicas como aumento da frequência cardíaca, emite um alerta para indicar que o usuário não está bem. Mas será que essas notificações são confiáveis? Afinal, sensores de relógios inteligentes e algoritmos são capazes de mensurar um fenômeno tão complexo como o estresse?
Para responder essas perguntas, o TechTudo conversou com dois profissionais. De um lado, a especialista em Nutrologia e Nutrição Clínica e Metabólica Dra. Ana Luisa Vilela traz um panorama das questões hormonais e como o estresse age em nosso corpo. Do outro, o especialista em Tecnologia da Informação e Segurança Digital Arthur Lebrum detalha os sensores e algoritmos usados na medição, bem como as limitações dos smartwatches na hora de monitorar o bem-estar dos usuários. Confira.
Seu smartwatch diz que você está estressado? Saiba como ele mede isso — Foto: Pexels Seu smartwatch diz que você está estressado? Saiba como ele mede isso
Confira, no índice abaixo, os assuntos abordados nesta matéria.
- Por que ficamos estressados?
- Como os smartwatches medem o nível de estresse?
- Os resultados são precisos e confiáveis?
- Os resultados podem variar de acordo com a marca do smartwatch?
- Por que é difícil estimar o nível de estresse?
Por que ficamos estressados?
Apesar de parecer um vilão, o estresse é, na verdade, uma resposta biológica criada para ajudar o ser humano a lidar com ameaças e desafios. Quando o cérebro interpreta uma situação como perigosa ou exigente, o cérebro ativa um sistema de alerta que prepara o corpo para reagir rapidamente. Nesse processo, hormônios como adrenalina e cortisol entram em ação, aumentando o estado de alerta e disponibilizando energia para enfrentar a situação.
Estresse é resposta biológica criada para ajudar o ser humano a lidar com ameaças e desafios — Foto: Andrea Piacquadio/Pexels Ana Luisa Vilela explica que a adrenalina acelera os batimentos cardíacos, eleva a pressão arterial e deixa o corpo mais preparado para agir, enquanto o cortisol — conhecido como hormônio do estresse — ajuda a mobilizar recursos energéticos para que o organismo consiga responder às demandas do momento. Na prática, isso significa coração acelerado, respiração mais rápida, músculos tensionados e maior atenção ao ambiente.
O problema surge quando esse estado de alerta deixa de ser temporário e passa a fazer parte da rotina. “O excesso de cortisol ao longo do tempo pode afetar o sono, a imunidade, o metabolismo, o humor e até aumentar o risco de doenças cardiovasculares”, alerta a especialista.
Como os smartwatches medem o nível de estresse?
Os smartwatches não conseguem medir o estresse diretamente. Na verdade, o que eles fazem é criar uma estimativa dos níveis de estresse com base nos sinais fisiológicos que costumam se alterar quando o organismo está sob pressão. Segundo Arthur Lebrum, o principal indicador utilizado atualmente é a redução na variabilidade da frequência cardíaca (HRV ou VFC), que avalia as pequenas diferenças de tempo entre um batimento cardíaco e outro.
Para coletar essas informações, os dispositivos utilizam sensores ópticos de frequência cardíaca, conhecidos como PPG (Photoplethysmography). Lebrum acrescenta ainda que modelos mais avançados incorporam recursos como eletrocardiograma (ECG), sensores de temperatura da pele e sensores de condutância elétrica da pele, capazes de identificar alterações relacionadas à atividade das glândulas sudoríparas.
Imagem ilustrativa de uma mulher medindo o pulso no pescoço e comparando com os dados no smartwatch — Foto: wayhomestudio "Todos esses dados são processados por algoritmos que geram uma estimativa do estado fisiológico do usuário", explica Lebrum. Na prática, o relógio pode identificar que uma pessoa está apresentando respostas corporais semelhantes às observadas em momentos de tensão e emitir um alerta. Para quem trabalha sob pressão ou possui uma rotina intensa, esses avisos podem servir como um lembrete para fazer pausas, respirar fundo ou rever hábitos de descanso.
Os resultados são precisos e confiáveis?
Segundo os especialistas ouvidos pelo TechTudo, o estresse é um fenômeno complexo e multifatorial, e os indicadores considerados pelos smartwatches não são capazes de diagnosticá-lo — não sozinhos. Ana Luisa Vilela afirma que o relógio pode identificar alterações fisiológicas normalmente associadas ao estresse, como aumento da frequência cardíaca ou redução da variabilidade dos batimentos, mesmo quando a pessoa não percebe qualquer sensação de tensão.
A frequência cardíaca, por exemplo, pode aumentar por diversos motivos, como atividade física, café, falta de sono, ansiedade, calor ou até uma emoção positiva. A variabilidade da frequência cardíaca, por sua vez, pode diminuir durante períodos de estresse, mas também sofre influência da idade, condicionamento físico, medicamentos e doenças.
Imagem ilustrativa de um homem sobrecarregado com trabalho e tarefas pessoais e ficando, por consequência, estressado — Foto: Creativeart Além disso, Arthur Lebrum acrescenta que uma pessoa pode se sentir emocionalmente sobrecarregada, ansiosa ou preocupada, mas não apresentar naquele momento alterações fisiológicas significativas capazes de serem detectadas pelo relógio. "Atualmente, não existe uma tecnologia capaz de determinar com total precisão se uma pessoa está ou não estressada apenas com base nesses parâmetros fisiológicos", completa.
Os resultados podem variar de acordo com a marca do smartwatch?
Sim. É bastante comum que diferentes relógios apresentem níveis distintos de estresse para uma pessoa e em um mesmo momento. Isso ocorre porque cada fabricante utiliza sensores, algoritmos e critérios próprios para interpretar os dados coletados. “Como esses métodos costumam ser proprietários e não seguem um padrão único de mercado, é natural que os níveis de estresse indicados variem entre dispositivos de marcas diferentes”, explica Arthur Lebrum.
Além das diferenças de hardware, os softwares também influenciam diretamente nos resultados. Marcas como Apple e Garmin realizam medições mais frequentes, enquanto outras como a Samsung combinam informações adicionais, como sono, atividade física ou temperatura corporal.
Resultados de teste de estresse podem variar conforme as diferentes marcas de smartwatch — Foto: Ana Letícia Loubak/TechTudo Na prática, isso explica por que uma pessoa pode receber um alerta de estresse em um relógio e não em outro. Por isso, o mais recomendado é utilizar o mesmo dispositivo ao longo do tempo para acompanhar tendências pessoais, em vez de comparar números entre marcas diferentes.
Por que é difícil estimar o nível de estresse?
A principal dificuldade reside no fato de que o estresse é uma experiência complexa, que envolve aspectos físicos, emocionais, psicológicos e sociais. Os sensores conseguem monitorar alterações no organismo, mas não têm acesso aos pensamentos, preocupações ou sentimentos que estão por trás dessas mudanças.
Além disso, diversos fatores podem interferir nos sinais fisiológicos analisados pelos relógios. Exercícios físicos, medicamentos, temperatura ambiente, doenças, consumo de estimulantes e até o modo como o relógio está ajustado ao pulso podem influenciar as medições.
Em outras palavras, o corpo pode apresentar sinais semelhantes aos do estresse por razões completamente diferentes. Por esse motivo, especialistas defendem que os smartwatches devem ser vistos como ferramentas complementares de monitoramento da saúde.
Nesse sentido, a maior contribuição dos smartwatches talvez não seja dizer exatamente quando alguém está estressado, mas incentivar uma observação mais atenta dos sinais do próprio corpo. Quando utilizados dessa forma, eles podem se tornar aliados importantes para promover hábitos mais saudáveis, melhorar o equilíbrio entre trabalho e descanso e estimular uma relação mais consciente com a própria saúde.
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