Vini. Jr usando uniforme da Seleção

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Legenda da foto, O Brasil chega na Copa do Mundo em busca do hexa
    • Author, Marcus Alves
    • Role, BBC Sport
  • Published Há 22 minutos

  • Tempo de leitura: 7 min

A coletiva de imprensa de Carlo Ancelotti estava chegando ao fim quando o treinador abordou um assunto delicado de sua maneira tipicamente sutil e elegante.

"Às vezes as pessoas dizem que o Brasil não tem uma estrela atualmente. Talvez seja verdade", disse o técnico da seleção brasileira antes do amistoso contra o Panamá no final de maio.

"Não temos um Pelé, um Romário ou um Ronaldo, mas podemos ter um senso de responsabilidade compartilhado, e isso pode ser algo muito poderoso."

A expectativa era de que a essa altura Vini Jr., do Real Madrid, já tivesse se tornado a principal figura da seleção.

No entanto, quatro anos após a eliminação nos pênaltis contra a Croácia nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, ainda existem dúvidas em relação ao atacante de 25 anos.

A situação é tal que, após a derrota do Brasil por 2 a 1 para a França em março, os torcedores brasileiros passaram a debater se Vini ainda merecia um lugar no time titular.

"Por que Vini Jr. não consegue reproduzir na seleção brasileira o desempenho que teve no Real Madrid?", questionou o programa Linha de Passe, da ESPN, recentemente.

Mesmo com a chegada de Ancelotti, ex-vencedor em série pelo Real Madrid e possivelmente o técnico de maior impacto que Vini Jr. teve em sua carreira em clubes, a pergunta que definiu sua trajetória na seleção até agora continua a persegui-lo.

A essência da questão é simplesmente esta: "Por que ele não consegue reproduzir na seleção o desempenho que teve no Real Madrid?"

O ponta-esquerda é o jogador brasileiro com mais participações em gols neste ciclo da Copa do Mundo, mas seus números ainda são modestos – sete gols e seis assistências em 28 partidas.

"Jogar no mesmo nível que ele joga pelo clube é complicado", disse Cleber Xavier, que trabalhou como auxiliar técnico do Brasil nas Copas do Mundo de 2018 e 2022, à BBC Sport.

"Quando você chega à seleção, a realidade é muito mais difícil do que parece para quem vê de fora. No seu clube, o treino é diferente, o estilo de jogo é diferente, os companheiros de equipe são diferentes, o dia a dia é onde as coisas acontecem e se desenvolvem", afirma.

Segundo Xavier, o exemplo mais claro disse é o de Lionel Messi com a Argentina.

"Ele sempre foi questionado sobre isso e só conseguiu em 2022. Mas isso porque a Argentina conseguiu construir uma equipe. No Catar, enfrentamos a Croácia e eles eram quase como um time de clube, porque repetiam muitos jogadores. É assim que você dá a um jogador uma estrutura adequada", disse.

Vini Jr. nunca se esquivou desse debate.

"Nos nossos clubes, a cada três dias surge uma nova oportunidade", disse ele à Caze TV em uma entrevista recente.

"De dez jogos, ninguém vai falar. E na seleção, se você tem quatro jogos durante dois ou três meses, de um jogo para outro é muito tempo. Então a cobrança sempre é muito grande e as pessoas querem que eu perfome da melhor maneira", continuou.

"Mas se eu chegar na Copa do Mundo e fizer quatro ou cinco gols e a gente for campeão toda essa história muda. E todos esses jogos que eu joguei mal a galera vai falar que eu estava me preparando para a Copa do Mundo."

Vini Jr. e Neymar jogando pelo Brasil

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Vini Jr. vai conseguir conquistar o coração dos brasileiros?

Jogar pela seleção brasileira nunca foi fácil para Vini Jr.

Um ex-técnico da seleção, que falou anonimamente à BBC Sport, disse acreditar que o vice-campeão da Bola de Ouro de 2024 sofre da "ansiedade de querer ser o protagonista".

Ser o protagonista é, obviamente, o status ao qual Vinicius se acostumou ao longo de sua carreira.

E isso se reflete, em parte, em sua segunda Copa do Mundo. Ele tem 14 contratos comerciais, mais do que qualquer outro jogador brasileiro.

Apesar de todo o seu sucesso fora de campo, Vini ainda não inspirou a mesma conexão emocional que Neymar ainda inspira no público brasileiro apaixonado por futebol.

É uma situação paradoxal: uma superestrela, já passada do auge, mas ainda amada. Outra, no auge da carreira, mas ainda aguardando o mesmo nível de carinho.

"Acredito que Vini é amado pelos torcedores brasileiros – só que não no mesmo nível que Neymar", argumentou Eduardo Musa, especialista em marketing e ex-assessor do ex-atacante do Barcelona e do Paris Saint-Germain.

"Existem algumas diferenças importantes entre eles. Neymar já tem um legado muito claro com o Brasil. Ele é o maior artilheiro da história da seleção. VinI, por outro lado, ainda não teve a chance com o Brasil de entregar o que entrega pelo Real Madrid", continua Musa.

"Esse é um ponto. O outro, de uma perspectiva mais técnica, é que Neymar permaneceu no Santos de 2011 a 2013 e teve dois anos maravilhosos lá. Os torcedores brasileiros o assistiam toda semana. Vinicius saiu antes. Ele jogava no Flamengo, mas ainda não era titular absoluto e havia dúvidas sobre seu nível técnico simplesmente porque ele não tinha tido tempo suficiente para se provar."

Uma pesquisa recente do Datafolha mostrou que a maioria dos torcedores - embora uma maioria pequena - ainda confia no veterano Neymar, com 53% apoiando sua inclusão na seleção para a Copa do Mundo.

"Acho que isso ainda está muito vivo na memória deles, o que Neymar fez no Brasil antes de ir para o exterior", disse Musa. "E também tem o fator personalidade, o carisma, essas coisas importam muito também."

"Eu sou alguém que admira muito o Vinicius. Acho que ele é um jogador fantástico, verdadeiramente fantástico. Mas Neymar teve mais anos no topo e, por isso, mais tempo para construir momentos inesquecíveis."

'Estou preparado para as porradas'

Há algum tempo, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vem trabalhando para dar a Vini Jr. um papel mais central na seleção.

Em março, após a grave lesão que tirou Rodrygo da Copa do Mundo, Vini recebeu a famosa camisa 10 e foi escolhido para participar de uma coletiva de imprensa antes da partida contra a França, algo que não acontecia há dois anos.

O plano era claro: Vini Jr. se tornar o rosto do Brasil.

Mas com o retorno surpreendente de Neymar, a camisa 10 voltou para o atacante de 34 anos do Santos.

Apesar disso, a série de problemas físicos de Neymar nos últimos tempos significa que as expectativas sobre ele não são mais as mesmas.

Muitos olhos estarão voltados para Vini, que busca brilhar na busca do Brasil pelo sexto título e deixar as dúvidas para trás de uma vez.

"Ele melhorou muito quando começou a trabalhar mais individualmente, aprimorando a finalização, o jogo coletivo, as combinações e as tabelas. Foi através desse trabalho que ele amadureceu bastante, com muitas participações em gols", explicou Xavier, atualmente auxiliar técnico da seleção venezuelana.

"Mas para ele realmente maximizar suas qualidades individuais, que é o que aconteceu no Real Madrid, ele depende da estrutura coletiva ao seu redor. Em 2022, ainda estávamos em processo de reconstrução. Agora talvez seja a hora."

Vini Jr. diz estar pronto para os holofotes.

"Claro que eu posso melhorar muito o meu nível para jogar igual eu jogo no Real, mas é bom que eu tenho sempre uma próxima oportunidade", disse ele.

"É sempre muitos altos e baixos, na minha carreira sempre foi assim. E hoje eu sou mais experiente, mais tranquilo e mais preparado para essas porradas que a vida, que a imprensa, que os torcedores me dão."