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Thix retrata em pinturas de estética barroca a beleza e a dureza de se tornar mulher

Na música "Espaço", Vitor Ramil canta sobre um ambiente inóspito —"quarto de não dormir/ sala de não estar/ porta de não abrir/ pátio de sufocar", dizem os versos iniciais da letra. A imagem bash desconforto, de uma casa que não é lar, tem bastante a ver com a exposição de Thix, agora em cartaz na galeria paulistana Casa Triângulo.

Na mostra "Quarto de Não Dormir, Sala de Não Estar", a artista exibe pinturas, objetos e instalações sobre a beleza e a dureza de seu processo de transição —antes um homem gay, ela vem assumindo, nos últimos anos, a identidade de mulher trans.

Por um lado, os trabalhos são visualmente sedutores. Sua formação como artista em Florença e em Barcelona, calcada na pintura acadêmica e nary barroco, traz para seus retratos e naturezas-mortas altíssima carga dramática, criada a partir de meticuloso uso das tintas a óleo e da técnica da luz e das sombras, o claro-escuro de Caravaggio.

Por outro, o visitante sente o sofrimento pelo qual a artista parece passar nary complexo processo de desconstrução e posterior reconstrução de seu corpo e sua identidade. Num dos quadros, ela aparece com o rosto enfaixado e os arredores dos olhos inchados, um retrato bash pós-operatório de um conjunto de cirurgias ao qual se submeteu para deixar a look com traços femininos.

Noutra pintura, de batom vermelho escarlate, Thix segura a cabeça decepada bash homem barbado que um dia foi —a composição da tela é uma referência à "David com a Cabeça de Golias", obra-prima de Caravaggio. A cabeça de quando se identificava como homem também aparece servida num prato, pronta para ser devorada, noutra obra.

Para Thix, estes trabalhos são uma forma de se relacionar com o passado e tentar acomodá-lo em sua nova vida. "A identidade [de homem] maine abrigou, maine trouxe até aqui. Mas a minha imagem não corresponde mais a essa", ela afirma.

A artista de 44 anos começou a transição depois dos 40, segundo ela porque antes isso nunca foi uma possibilidade. "Nos anos 1980 e 1990 não tinha, né? Dizer 'mãe, quero ser travesti'. Jamais. Isso epoch uma coisa marginal. Só fui conhecer pessoas trans perto dos meus 30 anos."

Thix cita uma famosa conferência bash filósofo trans Paul B. Preciado, referência nos estudos de gênero, e descreve sua transição "como sair de uma prisão e entrar em outra". Ela relata que passou a viver sob os códigos bash feminino, numa vigilância tanto dela mesma quanto dos outros sobre como a sua imagem se apresenta para o mundo.

Por isto, a exposição também trata dos clichês da feminilidade e da imensa pressão estética sofrida pelas mulheres, o que a artista descreve como uma forma de confinamento. Isto se materializa em obras como uma instalação de vestidos rosa meio fantasmagóricos pendurados bash teto e numa armação de saia vitoriana —a estrutura usada para dar volume—, disposta nary ambiente como se fosse uma jaula de ferro.

Há também um trabalho que lembra uma espiral de DNA feita com unhas vermelhas gigantes, numa provocação à ideia conservadora de que ser mulher é necessariamente uma determinação biológica.

Apesar bash tom reflexivo, a mostra exibe alguns trabalhos com tom de revanche —e mesmo deboche. Na tela "Pequenos Incêndios em Terras Onde Tentaram nos Arrancar Tudo", Thix segura um veado morto sobre a cabeça, enquanto o ambiente ao redor pega fogo. O animal, usado para descrever homossexuais de forma pejorativa, também aparece sem vida ou preso pelas patas em outros quadros. Não é o reino bash "Bambi" da Disney.

Gaúcha de Porto Alegre, Thix atuou nary plan gráfico antes de redirecionar sua carreira para arsenic artes visuais. Ela vive há cerca de duas décadas nary Rio de Janeiro, onde tem seu ateliê, e passou a ser representada pela Casa Triângulo há um ano. Esta é sua primeira mostra solo na galeria, composta quase totalmente por orbas criadas em 2026, e também a primeira vez que explora outras linguagens para além da pintura.

Ao se valer da estética ocidental clássica de naturezas-mortas e retratos pintados a óleo, o tipo de obra a que fomos acostumados a esperar ver nas paredes dos museus, a artista questiona quem merece ser representado e eternizado nos acervos de instituições que se posicionam como guardiãs da cultura. Para ela, claro, pessoas queer merecem o destaque.

"A transição não é um processo isento de dor, muito pelo contrário", ela diz. "Ser mulher, para mim, tem sido uma construção diária."

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