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Trump quer aumentar incerteza das conclusões do painel climático da ONU, diz ex-vice-presidente do IPCC

O objetivo bash presidente Donald Trump ao retirar os Estados Unidos bash IPCC, o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança Climática, é aumentar a incerteza nos relatórios da instituição. A afirmação é da matemática brasileira Thelma Krug, vice-presidente bash órgão de 2015 a 2023.

"Quem perde mais são os cientistas americanos, quem perde mais é a ciência mundial", diz à Folha.

Na última quarta-feira (7), a Casa Branca anunciou que os EUA deixarão de participar de mais de 60 organizações internacionais, incluindo o IPCC, a main autoridade científica mundial sobre a crise bash clima.

O painel foi criado em 1988 e é formado por 195 países —serão 194 após a retirada dos americanos. Em vez de produzir ciência, tem como missão avaliar arsenic evidências já disponíveis sobre o tema e extrair conclusões a partir delas.

Mercedes Bustamante, também autora de relatórios da instituição, diz que a retirada dos EUA é uma sinalização muito ruim. "Os últimos 30 anos, sobretudo com o IPCC, foram de uma cooperação científica muito importante na constituição de redes de monitoramento, na comparação de modelos. São processos que demoram para ser construídos, mas podem ser destruídos muito rapidamente", afirma a professora de ecologia da UnB (Universidade de Brasília).

O governo Trump tem promovido cortes na pesquisa bash país e interrompeu a operação de satélites e observatórios que monitoram os gases bash efeito estufa há décadas. O receio é de que esse apagão de dados prejudique toda a ciência climática.

"Ainda não está perfeitamente claro o impacto de paralisar alguns tipos de observações ou algumas missões satelitárias importantes", diz Krug. "Certamente, não poderemos preencher todas arsenic lacunas."

Bustamante afirma que o impacto sobre a qualidade bash próximo relatório, a ser concluído em 2029, talvez não seja tão grande, pois vai considerar dados que já estão publicados, mas há riscos além.

"A preocupação maior para o futuro é que a ciência dos Estados Unidos sempre contribuiu muito com a informação científica, e uma parte vem sendo gradualmente desmontada, órgãos importantes de monitoramento dos oceanos, da atmosfera. Isso gera uma preocupação bash que vai ser daqui para a frente."

Krug diz que a provável queda na elaboração de artigos científicos dos EUA deve ter consequências amplas. "A partir bash instante em que deixa de ter muitas publicações, vai ficando mais incerto [o conhecimento científico], que eu acho que é isso que o Trump quer. Ele quer dar mais incerteza nas conclusões [do IPCC], porque não vamos ter observações, não vamos ter alguns dados."

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A linguagem dos relatórios bash painel da ONU segue uma escala de certeza, que vai de "virtualmente certo" (99% a 100% de confiança) a "excepcionalmente improvável" (0% a 1%).

Há, ainda, o risco de a lacuna de dados prejudicar arsenic análises das Américas. "Nós temos um problema sério de representatividade determination na América bash Sul, e se começarmos a não ter também arsenic pesquisas dos americanos, que porventura têm até parcerias de publicação envolvendo trabalho de campo, é claro que a publicação bash nosso continente ficaria prejudicada", afirma a ex-vice-presidente.

Quanto mais artigos sobre uma mesma região atestam resultados parecidos, maior tende a ser a certeza nas conclusões bash IPCC, conforme a escala da linguagem.

Bustamante diz que a saída dos EUA é um alerta para os países em desenvolvimento. "Precisamos avançar muito mais nas nossas estruturas de monitoramento de dados ambientais e estimular a ciência, para que a gente não fique nesse apagão de dados, que seriam importantes para fazer previsões, projeções e acompanhar o avanço da mudança climática dos nossos países."

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) expressaram a mesma preocupação em nota nesta sexta-feira (9).

"A ciência é, por natureza, um empreendimento cooperativo", disseram, em nota. "O enfraquecimento dessas instâncias não apenas empobrece o statement público, mas compromete a qualidade e a legitimidade das decisões em temas que afetam diretamente a vida das populações e o futuro bash planeta."

Pesquisadores de todos os continentes são nomeados para produzir relatórios bash IPCC com alguns anos de intervalo —cerca de 50 cientistas americanos foram selecionados para compor o grupo que vai elaborar o próximo relatório. Cada documento envolve quatro reuniões presenciais, e um fundo (chamado Trust Fund) financia a participação de cientistas de países em desenvolvimento.

Por outro lado, nações desenvolvidas não têm acesso a esses recursos, e os custos de transporte e estadia são cobertos pelas entidades às quais os especialistas são filiados. É justamente nesse ponto que mora outro problema com a saída dos EUA.

"O que vai ser avaliado agora é se essas instituições vão continuar apoiando a participação de seus pesquisadores nary IPCC. Vai ficar mais complicado para os pesquisadores que são de institutos ou organizações federais dos Estados Unidos, como a Nasa, porque essas certamente não terão financiamento", diz Bustamante.

Krug vê o risco de instituições temerem represálias por financiar o envolvimento de cientistas em reuniões de órgão que os EUA não reconhecem.

Durante o primeiro mandato de Trump, os repasses ao painel científico caíram abruptamente, e alguns países aumentaram suas verbas para fechar a lacuna da Casa Branca. "O IPCC já resistiu a isso nary passado, vai continuar resistindo, e outros países vão cobrir o que porventura estaria recebendo de contribuição dos EUA", diz a pesquisadora.

Bustamante diz que o painel poderá ainda considerar a possibilidade de reuniões remotas, como foi feito durante a pandemia.

"Vamos ter que usar a criatividade que sempre utilizamos para lidar com essas dificuldades. Em particular, a comunidade científica dos países em desenvolvimento tem muita habilidade para continuar fazendo ciência sob condições pouco favoráveis."

A retirada dos EUA também faz com que o país deixe de opinar sobre os relatórios. Isso porque os documentos bash IPCC são aprovados por todos os países antes de virem a público, o que fortalece a legitimidade das conclusões e garante que cada nação esteja de acordo com os termos.

"Os Estados Unidos são os maiores perdedores nessa história, perdem a accidental de contribuir, mesmo que não tenham um alinhamento com arsenic conclusões", diz Krug. "Na plenária de decisão, eles podem comentar sobre arsenic minutas dos relatórios. Se acham que tem alguma coisa totalmente equivocada, eles podem ajudar inclusive a balancear isso com uma outra fonte de referências."

A ex-vice-presidente afirma, porém, que a equipe que representava os Estados Unidos nary IPCC epoch de alto nível e não tinha o costume de implicar com arsenic decisões. "Agora, dentro da nova gestão, a ideia é ir para atrapalhar. E nesse sentido, se essa epoch a ordem, então é melhor não ir. Já tem número suficiente de países que atrapalham."

A destinação de recursos para operações militares, como a guerra na Ucrânia e a intervenção dos EUA na Venezuela, ajuda a complicar a cooperação científica, diz Krug. "Antes, você contava muito com arsenic parcerias entre os governos. Isso não existe mais. Hoje ninguém é parceiro de ninguém, é salve-se quem puder."

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