Uma delas é inserir propositalmente erros de digitação, o famoso typo, para criar a evidência de que a máquina não passou por ali.
Na semana passada, a The Atlantic publicou um texto sobre esse fenômeno e deu até um nome para ele: "typo vibe shift". E a tendência ganhou tanta força que a Business Insider já chamou o typo de novo símbolo de status dos executivos.
O pequeno erro, que por muito tempo foi sinônimo de descuido, hoje funciona como uma marca d'água da humanidade.
Aquela falha que antes denunciava quem escrevia mal agora passa a provar que alguém, de fato, escreveu. Ou, pelo menos, manipulou o texto para causar essa impressão.
A gente nunca leu um texto só pelo conteúdo, mas também pelas pistas que indicam quem está do outro lado. Durante muito tempo, a escrita correta e limpa foi uma das mais confiáveis dessas pistas, principalmente por sinalizar o esforço do autor.
Só que quando a IA transforma o texto impecável em um padrão, essa pista desaparece. E então passamos a procurar outro jeito de encontrar o humano.
Esse outro jeito, por enquanto, tem sido o erro. Mas, para ser sincero, acho que essa onda vai durar menos do que imaginamos.
Quando um sinal qualquer pode ser facilmente usado para fabricar uma percepção, ele perde valor. Soma-se a isso o fato de que escrever com IA virou um caminho sem volta.
Devemos evitar o uso preguiçoso dessas ferramentas, claro, mas é inevitável que voltemos a normalizar textos limpinhos e bem acabados. Daqui a pouco, quem insistir no erro proposital não vai parecer autêntico, mas apenas alguém tentando bancar o diferentão.
Mas ainda que essa onda passe, a pergunta que ela levanta fica, especialmente por dialogar com o que ainda separa o humano da máquina. Nesta mesma semana, o papa Leão 14 lançou uma encíclica inteira sobre inteligência artificial e tocou exatamente nesse ponto.
Vou até trazer uma citação direta:
Para um algoritmo, o erro é algo a corrigir; para uma pessoa, pode ser o início de uma mudança profunda. O futuro de uma pessoa não é calculável, mas está confiado aos laços que cultiva e à sua liberdade, elevada pela inesgotável graça divina.
Tirando o vocabulário religioso, o que ele descreve é a distância entre a palavra otimizada, que a máquina empurra para o previsível, e a palavra encarnada, que carrega o acaso, a subjetividade e o imprevisto de quem escreveu.
E se a lição aqui não é manter o typo, qual é?
É aprender a usar a IA sem entregar a tarefa inteira, evitando assim o "problema do primeiro rascunho".
Quando deixamos a IA escrever o rascunho inicial, passamos o resto do tempo editando um pensamento que não foi nosso, ancorando nossas ideias ao que a máquina criou.
Fica difícil sair daquela proposta inicial, e é por isso que deixar espaço para essas imperfeições é o que evita que a escrita vire só mais um padrão.
No fim, talvez a gente esteja preocupado com a coisa errada.
Nosso texto ser confundido com um de IA é o de menos. O risco real é deixar de pensar, porque é rascunhando, mexendo e voltando atrás que a gente pensa.
Se a máquina faz tudo isso por nós, sobra o texto, mas some o pensamento que vinha junto.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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8 horas atrás
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