4 dias atrás 2

Uber cobra mais caro com bateria baixa? Entenda a precificação por vigilância

Uma teoria recorrente nas redes sociais sugere que aplicativos de carona, como o Uber, aumentariam o preço das corridas quando o celular do usuário está com bateria baixa. Nas últimas semanas, o debate foi impulsionado por um vídeo do publicitário e especialista em tecnologia Thiago Salvador (@salvador_thiago), que ultrapassou 190 mil curtidas no Instagram, e trouxe à tona o conceito de precificação por vigilância. Segundo o influenciador, a estratégia se aproveita de dados do internauta para ajustar preços em tempo real, mas será que o Uber de fato a utiliza?

Para investigar a hipótese, o TechTudo realizou testes próprios, que não permitiram estabelecer uma relação direta entre o nível de bateria e o valor das corridas, além de conversar com Salvador e procurar a Uber, que nega utilizar esse dado na definição dos preços. No entanto, o episódio levanta um debate mais amplo sobre como funcionam os algoritmos de precificação e até que ponto seus critérios são transparentes para o consumidor. Confira a seguir.

Uber cobra mais caro quando o celular está com pouca bateria? Entenda  — Foto: Reprodução/HR Leader Uber cobra mais caro quando o celular está com pouca bateria? Entenda — Foto: Reprodução/HR Leader

A bateria influencia no preço do Uber? Então o que influencia?

São 23h30 e você está saindo de uma festa com os amigos em uma parte isolada da cidade e a bateria do seu celular está prestes a acabar. Ao abrir o aplicativo da Uber, um susto: o preço da corrida até em casa está muito acima do normal. Ao mesmo tempo, seu colega de quarto, com o smartphone plenamente carregado, simula a mesma viagem e recebe um valor mais baixo.

Situações semelhantes se repetem em diferentes relatos nas redes sociais e ganharam força nas últimas semanas, após o vídeo de Thiago Salvador viralizar no Instagram, acumulando mais de 190 mil curtidas e quase 3 mil comentários. Entre os relatos dos seguidores, há usuários que apontam que “o preço sobe quando o destino é um hospital” ou que “o valor cai se fecha o app e abre outros aplicativos de transporte”.

Na publicação, Salvador levanta a hipótese de que plataformas digitais estariam utilizando dados pessoais e comportamentais para ajustar preços em tempo real, uma prática conhecida como precificação por vigilância. O conceito não é recente, mas ganhou nova dimensão com o avanço da Internet e da inteligência artificial. Se, antes, as variações de valor se limitavam a categorias amplas, como descontos para estudantes, idosos ou compras em grandes volumes, hoje algoritmos conseguem ajustar preços de forma altamente adaptável — quase individual.

Um dos trabalhos mais citados sobre o tema é o estudo “Scalable Price Targeting”, publicado em 2017 pelos economistas Jean-Pierre Dubé e Sanjog Misra, da University of Chicago Booth School of Business, que analisou como sistemas automatizados podem definir valores personalizados em larga escala. Na época, os pesquisadores escreveram que essa capacidade tende a se expandir à medida que a coleta de dados e o poder computacional crescem, ampliando o debate sobre transparência nos serviços digitais.

O estudo de Dubé e Misra dialoga com o vídeo de Thiago Salvador. Formado em Marketing, ele começou a atuar em agências de publicidade há cerca de 15 anos, justamente durante a grande expansão da mídia digital, o que o levou a se especializar em mercados ligados à inovação, como fintechs e tecnologia. Em 2022, passou a se dedicar integralmente ao estudo da inteligência artificial e hoje atua como diretor de operações e IA da empresa Zaaz, sediada em Seattle, nos Estados Unidos.

“Entender tecnologia deixou de ser opcional. Quando percebi o potencial da IA, migrei totalmente meu foco para essa área. Passei a tratar a tecnologia não como uma ferramenta neutra, mas como um campo de disputa política”, contou o especialista ao TechTudo.

Segundo ele, a ideia de produzir o vídeo surgiu da percepção de que, com a evolução da inteligência artificial, o monitoramento digital atingiu um novo patamar. “O que antes era segmentação virou exploração preditiva. Eu via as pessoas desconfiadas com o preço do Uber subindo sem lógica, com aquela 'pulga atrás da orelha'. Meu objetivo foi validar essa suspeita e mostrar que não era azar, é engenharia”, disse.

 Reprodução/Freepik Processos judiciais envolvendo o aplicativo já ocorreram ao redor do mundo — Foto: Reprodução/Freepik
Para ele, a linha entre o uso legítimo e o abuso desses dados é tênue. “Não é crime usar dados para previsão de demanda logística. O problema surge quando isso gera dano ao consumidor vulnerável. Se o algoritmo cobra mais caro de bairros periféricos, por exemplo, temos uma discriminação de classe. O risco é a automação da desigualdade. Provar a intenção do código será a grande batalha jurídica desta década”, avaliou.

E foi isso que o TechTudo tentou no tópico a seguir.

Não conhecemos o algoritmo como ele nos conhece

Para tentar entender se o nível de bateria no smartphone poderia, de fato, influenciar os preços do Uber, o TechTudo realizou um teste prático. De um mesmo ponto em São Gonçalo (RJ), simulei uma corrida até o Terminal João Goulart, em Niterói (RJ), trajeto de cerca de 20 quilômetros, utilizando dois celulares diferentes.

No aparelho da minha mãe, um Samsung Galaxy A22 com 94% de bateria, o valor exibido para uma corrida na modalidade UberX foi de R$ 27,94. Já no meu celular, um iPhone 12 Mini com apenas 7% de carga, a mesma viagem apareceu por R$ 28,95.

 Reprodução/Yuri Neri Comparação de preços no Samsung A22 (à esquerda) e no iPhone 12 Mini (à direita) — Foto: Reprodução/Yuri Neri

Além da diferença no valor final, chamam atenção também as variações nos preços iniciais — aqueles exibidos com riscos, que indicam um possível desconto promocional —, que eram distintos em cada aparelho (R$ 39,39 no Samsung e R$ 39,77 no iPhone). Outro ponto curioso é que, no meu celular, a primeira sugestão do aplicativo foi a categoria Uber Comfort, modalidade que utilizo com mais frequência, enquanto no Galaxy A22 a opção padrão apresentada foi o UberX. Na Comfort, os preços também não coincidem, com diferença de R$ 0,99. A única tarifa idêntica nas duas telas foi a da modalidade Prioridade, por R$ 33,98.

É possível, sim, que essa variação esteja relacionada à diferença de segundos entre uma solicitação e outra, embora o intervalo tenha sido menor que 15 segundos. Ainda assim, a diferença evidencia o problema principal: a falta de transparência sobre os critérios que determinam o valor final da corrida.

De fato, não acredito que os preços distintos sejam motivados pelos níveis de bateria, mas também não faço ideia do porquê. Talvez porque utilizo o serviço há mais tempo e com mais constância que minha mãe e, por isso, sou um usuário fidelizado — logo, valeria mais a pena direcionar os descontos a ela. Outros podem dizer que foi porque utilizo iPhone, mesmo que um modelo lançado há 6 anos. O fato é que, na Internet, é comum encontrar histórias que relatam variações semelhantes e sem sentido como essa.

 Reprodução/Yuri Neri Debates na rede social Reddit sobre o tema. — Foto: Reprodução/Yuri Neri

Não sabemos ao certo o quanto o algoritmo nos conhece, mas a verdade é que não conhecemos o algoritmo. Segundo Salvador, essa dinâmica dificulta que os preços do app sejam questionados. “Estamos criando um sistema de exploração personalizada, em que cada pessoa vira um ‘mercado de um’, negociando sozinha contra um algoritmo que a conhece melhor do que ela mesma”, afirma.

Do ponto de vista legal, o especialista defende que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) pode ser uma ferramenta importante para conter excessos. “O artigo 6º proíbe o uso de dados para fins discriminatórios ou abusivos, e o artigo 20 garante o direito de revisar decisões tomadas exclusivamente por sistemas automatizados. Se eu sou cobrado a mais por uma decisão de IA e a empresa não explica o critério, isso viola a lei”, argumenta.

Para os usuários, o publicitário recomenda comparar valores. “Se o preço muda ao atualizar a página, se é mais caro no celular do que no computador, ou se amigos ao lado recebem valores diferentes, esses são sinais claros”, afirmou. Entre as dicas, ele sugere usar abas anônimas, desativar o rastreamento de aplicativos, avaliar preços em mais de um dispositivo e documentar tudo com prints, data e hora. “A reclamação individual pode gerar precedentes e proteger muita gente no futuro", finalizou.

Procurada pelo TechTudo, a empresa Uber apontou que o nível de bateria do celular não é utilizado como critério para definir o valor das corridas. Segundo o serviço, a principal variável que influencia o preço é o chamado preço dinâmico, mecanismo que ajusta os valores de acordo com a relação entre oferta de motoristas e demanda de passageiros em tempo real.

“Quando a demanda por viagens, em uma determinada área, é maior do que o número de motoristas parceiros circulando na região naquele momento, o preço se torna dinâmico e o valor da viagem pode se tornar mais caro do que o habitual para aquele mesmo trecho. O preço dinâmico é aplicado para incentivar que mais motoristas se conectem ao aplicativo e, assim, os usuários tenham um carro sempre que precisar. Quando a oferta sobe novamente, os preços voltam aos valores normalmente praticados. De qualquer forma, o preço dinâmico sempre é informado ao usuário no momento em que a viagem é solicitada”, informou a empresa, em nota.

Em uma página em seu site oficial — que, inclusive, não tem tradução para português —, o Uber detalha que esse sistema é controlado por algoritmos que monitoram, em tempo real, a disponibilidade de motoristas e o volume de solicitações em cada região da cidade. Quando há desequilíbrio, com mais passageiros do que carros disponíveis, o aplicativo ativa automaticamente o aumento temporário das tarifas para estimular mais motoristas a se deslocarem até áreas com maior demanda. Isso também, segundo o serviço, ajuda a reduzir parte das solicitações, já que alguns usuários optam por aguardar a normalização dos preços.

De acordo com a empresa, o cálculo é feito em "zonas hiperlocais", que podem abranger apenas alguns quarteirões, e leva em conta mudanças rápidas no trânsito, no clima, em eventos de grande porte e em horários considerados críticos, como a madrugada e o fim de festas e shows. Além da relação imediata entre oferta e demanda, o sistema também considera projeções de mercado e padrões históricos.

Essa lógica ajudaria a entender por que viagens noturnas, especialmente em dias de grande movimentação, podem apresentar variações rápidas nos valores, já que o número de motoristas disponíveis tende a ser menor e a demanda pode subir repentinamente.

Entretanto, embora o Uber detalhe os princípios gerais do sistema, os critérios específicos utilizados nos cálculos não são totalmente divulgados, o que dificulta ao usuário compreender por que uma mesma corrida pode custar valores diferentes em aparelhos distintos, mesmo em condições aparentemente semelhantes. Não se sabe, por exemplo, quais variáveis a empresa considera ao mencionar “projeções de mercado e padrões históricos”, nem como esses fatores pesam na definição do preço final. Por isso, teorias como a influência do nível da bateria no valor final ganham força nas redes.

 Divulgação/Aeroporto Santos Dumont Esquema do ponto de Uber no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro — Foto: Divulgação/Aeroporto Santos Dumont

Vale dizer que, ao longo da última década, o Uber construiu uma base sólida de usuários ao oferecer um serviço prático, acessível e, sobretudo, com preços mais baixos do que táxis ou outras modalidades de transporte. Essa estratégia conquistou milhões de passageiros ao redor do mundo e transformou como as cidades pensam a própria mobilidade urbana, com a criação de pontos exclusivos em aeroportos e rodoviárias, autorização para circulação em faixas especiais e integração ao planejamento urbano em muitas regiões.

O próprio estudo de Jean-Pierre Dubé e Sanjog Misra sugere, inclusive, que a personalização de preços pode, em determinados contextos, reduzir o valor pago por parte dos consumidores, ampliando o acesso a serviços digitais. Justamente por isso, o debate está longe de ser simples, já que a mesma tecnologia capaz de baratear corridas para alguns usuários também pode gerar distorções, desigualdades e incertezas para outros, dependendo de como os algoritmos são desenhados e aplicados.

Por fim, com a demanda consolidada, é natural que os preços do Uber passem por reajustes ao longo do tempo. O problema principal, entretanto, é a imprevisibilidade. Quando o valor de um serviço varia sem critérios explícitos, torna-se difícil até mesmo definir se uma corrida está cara ou barata. Nesse contexto, a transparência deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser elemento central para preservar a relação de confiança entre a plataforma e seus usuários.

Grandes novidades chegam ao iOS 26 em breve; confira

Grandes novidades chegam ao iOS 26 em breve; confira

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro