
Crédito, KWS
- Author, Wycliffe Muia
- Role, Da BBC News em Nairobi, Quênia
Há 17 minutos
Tempo de leitura: 8 min
As formigas estão voando no Quênia neste momento.
Durante esta estação chuvosa, enxames podem ser vistos deixando os milhares de formigueiros em Gilgil e nos arredores, uma tranquila cidade agrícola no Vale do Rift, no Quênia, que se tornou o centro de um comércio ilegal em rápida expansão.
O ritual de acasalamento faz com que machos alados deixem o ninho para fecundar as rainhas, que também voam nesse período. Isso torna este o momento perfeito para perseguir formigas-rainhas e vendê-las a contrabandistas que estão no centro de um crescente mercado negro global, que se aproveita da moda de ter formigas como animais de estimação em recintos transparentes projetados para observar os insetos enquanto constroem uma colônia.
São as rainhas das formigas gigantes africanas coletoras, grandes e vermelhas, que são mais valorizadas pelos colecionadores internacionais — uma única rainha pode alcançar até £170 (cerca de R$ 1.185) no mercado clandestino, que costuma operar online.
Uma única rainha fecundada é capaz de criar toda uma colônia e pode viver por décadas — e pode ser facilmente enviada pelo correio, já que scanners tendem a não detectar material orgânico.
"No começo, eu nem sabia que era ilegal", disse à BBC um homem que pediu para não ser identificado sobre como certa vez atuou como intermediário, conectando compradores estrangeiros a redes locais de coleta.
Também conhecidas como Messor cephalotes, essas formigas são nativas da África Oriental e conhecidas por seu comportamento característico de coleta de sementes, o que as torna populares entre colecionadores de formigas.
"Um amigo me disse que um estrangeiro estava pagando bem pelas rainhas — aquelas grandes e vermelhas que são facilmente vistas por aqui", disse o ex‑intermediário.
"Você procura os montes perto de campos abertos, geralmente de manhã cedo antes do calor. Os estrangeiros nunca iam aos campos — esperavam na cidade, em uma pousada ou dentro de um carro, e nós levávamos as formigas para eles, embaladas em pequenos tubos ou seringas que eles nos forneciam."

Crédito, Dino Martins
A dimensão do comércio ilícito no Quênia ficou evidente no ano passado, quando 5 mil rainhas de formigas gigantes colhedoras — coletadas principalmente nos arredores de Gilgil — foram encontradas vivas em uma pousada em Naivasha, uma cidade próxima à beira de um lago popular entre turistas.
Os suspeitos — da Bélgica, do Vietnã e do Quênia — tinham embalado os tubos de ensaio e seringas com algodão úmido, o que permitiria que cada formiga sobrevivesse por dois meses, segundo o Serviço de Vida Selvagem do Quênia (KWS).
O plano era levá‑las à Europa e à Ásia e colocá‑las à venda.
Esse comércio de formigas surpreendeu cientistas e autoridades.
O país da África Oriental está mais acostumado a crimes de grande repercussão envolvendo marfim de elefantes e chifres de rinoceronte.
A varejista britânica Ants R Us descreve a formiga gigante africana coletora como "a espécie dos sonhos de muita gente" — embora as rainhas estejam atualmente fora de estoque, com o site explicando que é muito difícil para os vendedores consegui‑las.
"Até eu, como entomólogo, fiquei surpreso com a extensão do aparente comércio", disse à BBC Dino Martins, biólogo radicado no Quênia, onde há cerca de 600 espécies de formigas.
No entanto, ele entende o fascínio pela colhedora da África Oriental, com colônias criadas por uma "rainha fundadora", que pode crescer até 25 mm (0,98 polegada) e que produz ovos ao longo de toda a vida.
"Elas são uma das espécies de formigas mais enigmáticas — formam colônias grandes, apresentam comportamentos interessantes e são fáceis de manter. Não são agressivas."
Durante o enxameamento, ele diz que as rainhas acasalam com vários machos.
"Depois disso, acabou para os machos — o trabalho deles está feito… a maioria é comida por predadores ou morre", diz o entomólogo, passando a explicar como a rainha então se afasta rapidamente para cavar uma pequena toca e começar a pôr ovos para iniciar seu império.
Suas operárias e soldados — aquelas que protegem o ninho — são todas fêmeas e podem chegar a centenas de milhares.

Crédito, Getty Images
"Os ninhos podem viver por mais de 50 anos, talvez até 70 anos. Eu pessoalmente conheço ninhos perto de Nairóbi que têm pelo menos 40 anos, pois os visito há esse tempo", disse Martins.
Isso significa que as rainhas também vivem todo esse período — porque assim que ela morre, a colônia colapsa e as operárias sobreviventes procuram outro ninho.
Os quenianos que já lidaram com formigas invadindo suas plantações ou casas sabem disso muito bem — e, para eliminar uma colônia, alguém é enviado para localizar a rainha, muitas vezes escondida profundamente em um dos túneis ou câmaras de um monte.
O ex‑intermediário disse que as formigas também podiam ser coletadas perturbando suavemente o monte e recolhendo‑as enquanto tentavam escapar.
"Só quando vi as prisões no noticiário percebi do que eu tinha feito parte — e saí imediatamente", afirmou.
Os detidos foram condenados por biopirataria e obrigados a pagar multas ou cumprir 12 meses de prisão — eles optaram por pagar a taxa de US$ 7,7 mil (mais de R$ 40,4 mil), e os estrangeiros deixaram o país.
Duas semanas atrás, um cidadão chinês — apontado como o suposto mentor do esquema do ano passado e que teria fugido usando outro passaporte — foi detido no Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta (JKIA), em Nairóbi, com outras 2 mil rainhas embaladas em tubos de ensaio e rolos de papel.
Para Zhengyang Wang, parte de uma equipe de pesquisadores que publicou em 2023 um relatório sobre o comércio de formigas com foco na China, isso é preocupante e pode "causar estragos" nos ecossistemas locais.
"No início, ficamos muito entusiasmados quando soubemos que muitas pessoas tinham começado a criar formigas", disse Wang, professor assistente da Universidade de Sichuan, à BBC.
"Uma colônia de formigas de estimação costuma ser mantida em um formicário, basicamente uma caixa de plástico transparente para que os criadores possam observar as colônias trabalhando, cavando túneis, coletando comida e protegendo sua rainha. Eu diria que é bastante encantador e… pode ser uma boa forma de educar as pessoas sobre insetos e seu comportamento.
"Mas então percebemos: espere, manter espécies invasoras não é extremamente perigoso?"
Ao monitorar as vendas on-line — mais de 58 mil colônias — na China ao longo de seis meses, os pesquisadores descobriram que mais de um quarto das espécies comercializadas não eram nativas do país — apesar de ser ilegal importá‑las.
"Se o volume de comércio de formigas invasoras continuar crescendo, é apenas uma questão de tempo até que algumas escapem de seus formicários e se estabeleçam na natureza", declarou Wang.
O estudo do qual participou, publicado na revista Biological Conservation, explicou o que poderia acontecer no caso da gigante africana coletora — uma das espécies mais comercializadas na China: "Por exemplo, Messor cephalotes, nativa da África Oriental, está entre as maiores coletoras de sementes do mundo e poderia potencialmente impactar a agricultura predominantemente baseada em grãos no sudeste da China."
As consequências ambientais também preocupam no Quênia.
"As formigas coletoras são tanto espécies-chave quanto engenheiras de ecossistemas. Elas coletam sementes de gramíneas e outras plantas e, ao fazer isso, também ajudam na dispersão das sementes", disse Martins, acrescentando que os insetos "criam um ambiente campestre mais saudável e dinâmico".
Mukonyi Watai, cientista sênior do Instituto de Pesquisa e Treinamento de Vida Selvagem do Quênia, compartilha desses receios.
"A coleta insustentável — especialmente a remoção das rainhas — pode levar ao colapso das colônias, perturbando ecossistemas e ameaçando a biodiversidade", afirmou à BBC.
É possível coletar formigas legalmente no Quênia — em conformidade com vários tratados internacionais — com uma permissão especial, que exige que o comprador assine um acordo de repartição de benefícios com a comunidade local envolvida para dividir eventuais lucros.
Mas, segundo o KWS, até agora nenhuma permissão foi solicitada — e a papelada exige ainda detalhes sobre quantas formigas estão sendo coletadas e qual será seu destino.

Crédito, Getty Images
Alguns conservacionistas agora pedem mais proteções comerciais para todas as espécies de formigas no âmbito da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas de Extinção (Cites), o tratado global sobre comércio de vida selvagem.
"A realidade é que nenhuma espécie de formiga está atualmente listada na Cites", disse à BBC Sérgio Henriques, pesquisador do comércio global de formigas.
"Sem tratados internacionais monitorando esses movimentos, a escala do comércio permanece amplamente invisível para formuladores de políticas e para a comunidade global", afirmou.
Mas, para o KWS, o problema real é mais imediato — como monitorar e reprimir o tráfico de insetos, considerado "subnotificado", com a agência sugerindo equipamentos de vigilância melhores em aeroportos e outros pontos de fronteira como um bom começo.
Martins concorda: "É provável que apenas uma fração das formigas realmente comercializadas esteja sendo detectada, então só podemos imaginar a escala real por enquanto."
O jornalista Charles Onyango‑Obbo argumenta que o Quênia está ignorando uma oportunidade significativa de receita global.
"As formigas não são itens finitos, como ouro ou diamantes. São ativos biológicos que podem ser criados e cultivados, e sua produção pode ser ampliada para milhares por dia. Ainda assim, as tratamos como artefatos roubados", escreveu ele recentemente no jornal Daily Nation.
Na verdade, o gabinete do Quênia aprovou no ano passado diretrizes de política voltadas à comercialização da economia da vida selvagem, incluindo o comércio de formigas.
"As diretrizes buscam promover o uso sustentável de espécies selvagens, como as formigas, para gerar empregos, riqueza e meios de subsistência comunitários em todos os condados", afirmou Watai.
Com monitoramento cuidadoso, é possível que futuros agricultores na região de Gilgil tenham formicários especiais em suas terras, ampliando a produção de seus campos e pomares — cheios de vegetais e frutas — para incluir também lucrativas rainhas.
Mas o debate sobre os riscos de exportar formigas para colecionadores amadores em diferentes partes do mundo ainda não foi resolvido.
Reportagem adicional de Osmond Chia em Cingapura

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