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Universidades replicam antagonismo político em ano eleitoral com relatos de censura

Do outro lado da linha, a professora de história da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) avisa ter tomado um ansiolítico antes de dar o relato a seguir. Ela prefere não se identificar, temendo represálias. Aconteceu em novembro passado. O departamento estava em reforma curricular, e os alunos queriam incorporar os estudos de gênero e de raça às matérias. O objetivo, eles diziam, era conectar a grade do curso à realidade dos estudantes.

A professora se posicionou contra a proposta, afirmando que a sua disciplina não trata de assuntos do presente. Numa reunião, disse que as questões pessoais de cada um deveriam ser abordadas na psicanálise. O alunato, ela lembra, escreveu uma nota de repúdio, acusando-a de ter uma "postura elitista e descolada das demandas concretas de quem vive e estuda em universidade pública."

A meses da corrida eleitoral, a universidade torna-se território conflagrado, alvo de disputas, que replicam a polarização da política nacional. Professores publicaram um manifesto, relatando episódios de censura e de interdição do debate, com constrangimentos e até agressões físicas. Segundo eles, as tentativas de silenciamento partem da direita e da esquerda, em um contexto de intolerância.

Há, porém, outro grupo de docentes que nega existir censura crescente na academia. Em um contra-manifesto, denunciam, ao contrário, o ressentimento de alguns professores diante da entrada de novos segmentos sociais na universidade.

"Há uma percepção de que a crescente interdição do livre debate deve ser publicizada, sobretudo em um ano eleitoral, quando os ânimos ficam mais exaltados", afirma o cientista político Antonio Lavareda, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). "Extrema esquerda e extrema direita têm esse ponto em comum, a vocação ao autoritarismo."

Lavareda é um dos signatários do primeiro documento, intitulado "Manifesto Pelo Pluralismo e Pela Liberdade Acadêmica", publicado no início do mês. Mais de mil professores já puseram seus nomes no abaixo-assinado, que defende o dissenso como fundamento da produção científica.

O manifesto também cita uma pesquisa da More In Common, organização não partidária e sem fins lucrativos, mostrando a desconfiança da sociedade em relação à universidade —54% dizem que lá se promove mais ideologia do que ensino de qualidade. O documento foi pensado a partir de um encontro de docentes de diferentes áreas, realizado em abril, no Centro Maria Antonia, da USP.

Eles propõem uma autorreforma da academia alicerçada em neutralidade institucional, pluralismo e liberdade. "Há uma disputa política pelo terreno da universidade, então acho que as administrações devem manejar isso para que a universidade não perca a sua missão", alerta Verônica Toste Daflon, professora de sociologia da UFF (Universidade Federal Fluminense).

"As investidas vêm dos dois lados, mas percebemos que a resposta institucional é mais célere quando vêm de um agente externo, quando vêm da direita."

Daflon conta que o manifesto, também assinado por ela, foi publicado agora porque há uma percepção de censura crescente. Embora ainda esteja em andamento, a pesquisa "Restrições à Liberdade Acadêmica", realizada pela UFF em parceria com a USP e com a UFPR (Universidade Federal do Paraná), comprovaria a tese. Já são mais de cem casos analisados, de 2014 a 2026.

O estudo aponta uma tendência insólita. Enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) esteve no poder, o silenciamento partia, na maioria das vezes, da direita. Com a volta de Lula (PT) ao Planalto, o quadro inverteu-se. A base de dados compila alguns episódios que se tornaram conhecidos nesta década.

Em 2018, a tentativa de silenciamento partiu do governo Bolsonaro: o então ministro da Educação, Mendonça Filho, intimidou o professor de ciência política da Unb (Universidade de Brasília) Luis Felipe Miguel, que promoveu o curso "O Golpe de 2016 e o Futuro da Democracia no Brasil".

Mendonça Filho acusou a disciplina de ter viés partidário e ameaçou acionar a AGU (Advocacia Geral da União). "Tudo isso ocorreu em desacordo com a liberdade de cátedra, a direita tentou impedir o meu curso na marra", lembra Felipe Miguel.

Na visão dele, há um pano de fundo para a demanda por mais pluralismo agora —e isso merece uma digressão. Tudo se inicia na segunda metade do século 20, com a crítica ao positivismo e ao cientificismo. Nas últimas duas décadas, diz, intensificou-se a inserção na universidade de outras formas expressivas, na crítica decolonial ou nos estudos de gênero, por exemplo.

Só que agora, afirma Miguel, o cumprimento de critérios científicos tradicionais é exigido a esses grupos, causando conflitos. Um exemplo, segundo ele, ocorreu, há dois anos, com a palestra "Educando com o cu", da historiadora Tertuliana Lustosa, na UFMA (Universidade Federal do Maranhão). A atividade causou polêmica e foi cancelada. Seus defensores, porém, a valorizavam como a expressão de um outro saber.

Voltando à rinha partidária, alunos da USP escreveram, em 2023, uma carta contra o retorno de Janaína Paschoal (União Brasil) à faculdade de direito. Uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), Paschoal encerrava, naquela altura, mandato como deputada estadual por São Paulo. Ela nega que o impeachment tenha contribuído para aumentar o clima de intolerância.

"Pelo contrário, o impeachment deu visibilidade a pessoas que pensam diferente e se sentiram fortalecidas com isso", diz a agora vereadora de São Paulo. "Fico preocupada como será o debate neste ano eleitoral."

Há casos mais recentes. Em junho do ano passado, a direção da Universidade Mackenzie interveio na semana de psicologia, desconvidando palestrantes e proibindo mesas com temática LGBTQIA+. Em nota, o Mackenzie disse à época ter compromisso com a liberdade de expressão e com a produção de conhecimento em diferentes perspectivas.

Em setembro, estudantes de esquerda impediram que a palestra "O STF e a Interpretação Constitucional" ocorresse na UFPR, com a participação de Jeffrey Chiquini, defensor de Filipe Martins, ex-assessor de Bolsonaro, e do vereador de Curitiba Guilherme Kilter (Novo).

"A polarização fez a universidade trocar, em muitos casos, a cultura do pluralismo pela lógica da trincheira. Com extrema direita crescendo fora dos campi, setores progressistas passaram a tratar a universidade como bastião moral próprio, e não como espaço comum de liberdade e dissenso", diz Wilson Gomes, professor de comunicação da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e colunista da Folha.

Na nova direita, o MBL (Movimento Brasil Livre), que lançou o partido Missão com Renan Santos como seu pré-candidato à Presidência da República, é uma entidade central para o debate. O modus operandi do MBL já é conhecido.

Um integrante do MBL entra na universidade e filma o confronto com lideranças estudantis de esquerda para postar nas redes sociais. Em fevereiro, ativistas do MBL pintaram de branco um mural na Unicamp, decorado com as artes dos alunos. O ato terminou em briga.

A coordenadora nacional do MBL, a vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil), diz que "o que se vê na prática é uma única corrente de pensamento que, quando confrontada minimamente, resulta em agressões e violência deliberada".

"A atuação do MBL nas universidades é intimidatória e parte de uma perspectiva elitista e higienista", contrapõe a estudante Julia Maia, do coletivo Juntos!, que tem ligação com o PSOL.

Maia se diz contra o manifesto pelo pluralismo e pela liberdade acadêmica. Ela diz que a universidade não é e não pode ser neutra. Na visão da estudante, os campi não devem abrigar, por exemplo, eventos organizados por grupos com visões opostas aos direitos humanos. O manifesto, diz, dá brecha a um pensamento apolítico.

A visão da líder estudantil é referendada por 700 acadêmicos no documento intitulado "Em Defesa do Pluralismo Encarnado: Contra-Manifesto pela Igualdade Democrática nas Universidades".

Assumindo posição mais à esquerda, o texto denuncia a "racionalidade neoliberal" por trás do manifesto original e certa postura ressentida. Tensiona o sentido de pluralismo, dizendo que o conceito deve ser compreendido à luz do período histórico atual e em contato com noções como democracia e igualdade.

"A entrada de novos grupos traz novas formas de pensar para a universidade. Alunos têm disciplinas que apagam suas trajetórias, é preciso criar pontes. O problema é como pensar a pluralidade. O cancelamento não deve ser legitimado, mas os docentes precisam lidar com novos direitos", afirma o professor de psicologia Marco Aurélio Prado, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Um dos signatários do contra-manifesto, ele afirma ainda que os casos de silenciamento de que tem notícia envolvem falas e atitudes preconceituosas dos acadêmicos.

"Aquele manifesto serve à direita, é como uma Escola sem Partido. Quando não se faz política, se faz política. É estranho que Janaína Paschoal exija algum tipo de neutralidade com toda a política que ela faz. A universidade precisa de uma DR [discussão de relacionamento], isso eu concordo, mas não com uma liberdade como valor totalitário", afirma o jurista Lenio Streck, professor da Unisinos e da Unesa, outro signatário.

O professor de ciência política da UFRJ João Feres não assinou o contra-manifesto, mas escreveu um artigo para rebater o documento original. De início, Feres afasta a tese de polarização simétrica, argumentando que a radicalização da direita foi acompanhada pela moderação do lulismo.

"O manifesto é insidioso, porque você entende que, para quem assina, a grande ameaça é a esquerda identitária. Eu acredito que a universidade hoje é mais plural do que era. Só tinha gente branca e de classe média, hoje tem gente da classe trabalhadora."

Quanto à professora da Uerj acusada de elitismo, ela, que se diz comunista, afirma ver a universidade mais intolerante desde o impeachment de Dilma. Hoje, diz até evitar certas roupas, temendo acusações de apropriação cultural. Afirma que, em 15 anos de profissão, nunca foi feliz na universidade.

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