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72% da população mundial vive sob regimes autoritários, indica Human Rights Watch

A análise faz parte do relatório mundial de 2026 no qual a ONG analisa a situação dos direitos humanos em mais de cem países.

"A democracia está agora de volta aos níveis de 1985, de acordo com alguns estudos, com 72% da população mundial vivendo atualmente sob regimes autoritários. A Rússia e a China são menos livres hoje do que há 20 anos. E também os Estados Unidos", diz a ONG.

Um dos documentos citados pela HRW é o estudo "25 Anos de Autocratização – A Democracia Triunfa?", feito pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia, em 2025, e que analisa a situação dos países desde 1974.

O documento classifica quase 200 países em cinco escalas: autocracia fechada (35 casos), autocracia eleitoral (51), autocracia zona cinzenta (4), democracia zona cinzenta (13), democracia eleitoral (46) e democracia liberal (29).

As divisões são feitas da seguinte forma:

  • Autocracia fechada: não há eleições multipartidárias para o Poder Executivo; inexistência de componentes democráticos fundamentais, como liberdade de expressão, liberdade de associação e eleições livres e justas;
  • Autocracia eleitoral: ocorrem eleições multipartidárias ao Executivo; porém, com níveis insuficientes de liberdade de expressão e de associação, e eleições livres e justas;
  • Autocracia zona cinzenta/democracia zona cinzenta: países onde os intervalos de confiança se sobrepõem e a classificação fica incerta e menos precisa;
  • Democracia eleitoral: Existem eleições multipartidárias para o Poder Executivo que são livres e justas; níveis satisfatórios de sufrágio, liberdade de expressão e liberdade de associação;
  • Democracia liberal: Além dos requisitos da democracia eleitoral, restrições judiciais e legislativas limitam o Executivo, há proteção das liberdades civis e igualdade perante a lei.

O Brasil é colocado como uma "democracia eleitoral", por exemplo, enquanto Estados Unidos, França e Espanha, como "democracias liberais".

Já a Rússia é identificada como uma "autocracia eleitoral" e a China, como "autocracia fechada".

Veja o regime dos países abaixo:

Mundo sofre 'avanço autoritário'

O primeiro ano do novo mandato de Trump à frente dos Estados Unidos representou, de acordo com a ONG, um "avanço autoritário" ao mundo. O documento destaca que o americano "encorajou líderes autoritários e minou aliados democráticos".

"Ao mesmo tempo em que repreendeu alguns líderes eleitos da Europa Ocidental, ele e funcionários de alto escalão expressaram admiração pela extrema direita nativista da Europa", cita a Human Rights Watch.

Além de Trump, a ONG destaca a "pressão implacável" de China e Rússia contra os direitos humanos em todo o mundo.

Trump coloca 'em perigo' sistema global de direitos humanos

A HRW questiona se "os direitos humanos sobreviverão à era Trump" e afirma que o mandato do presidente dos Estados Unidos se destaca por um “flagrante desrespeito” e por “graves violações” desses direitos.

O relatório elenca ações do segundo governo Trump que colocam "em perigo" o sistema global de direitos humanos. São citados:

  • ataque à Venezuela e captura de Nicolas Maduro;
  • deportação e envio de imigrantes para prisões em El Salvador, com ataques de agentes federais de imigração, o ICE;
  • ataque a independência judicial nos próprios Estados Unidos;
  • minar a confiança no processo eleitoral;
  • "corroer a privacidade" e usar o poder do governo para "intimidar oponentes políticos"
  • retirar os EUA do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas;
  • "destruir" programas de assistência alimentar e subsídios à saúde;
  • retirar proteções à pessoas trans e intersexuais, entre outras ações.
"A política externa de Trump abalou os alicerces da ordem internacional regida por leis que busca promover a democracia e os direitos humanos, mesmo que de forma imperfeita", afirma a ONG no relatório.

Como os países devem reagir?

Uma resposta possível, de acordo com o documento, seria o mundo se opor à postura de Trump e dos líderes de Rússia e China para "preservar a ordem internacional regida por leis".

"Para enfrentar essa tendência, os governos que ainda valorizam os direitos humanos, juntamente com movimentos sociais, sociedade civil e instituições internacionais, precisam formar uma aliança estratégica para conter retrocessos", afirma o diretor-executivo da HRW, Philippe Bolopion.

Brasil: enfrentamento a facções e preocupação com segurança

No capítulo sobre o Brasil, a HRW defende uma reformulação nas políticas de segurança pública do país de forma geral, com destaque para as facções criminosas e sua entrada, direta ou indireta, no Estado.

A ONG sugere que as autoridades brasileiras conduzam "investigações aprofundadas e baseadas na inteligência" para identificar vínculos entre criminosos e pessoas que fazem parte do poder público.

"As facções cooptam agentes públicos para proteger as suas atividades ilícitas. Essa infiltração no poder público às vezes também envolve políticos, principalmente a nível local. Essa é uma face muito perigosa do crime organizado, pois pode corromper as instituições por dentro", afirma o diretor da ONG.

O relatório destaca ainda que a segurança será "questão importante" na eleição para presidente do Brasil, em outubro. O assunto lidera os temas de maior preocupação dos brasileiros, segundo pesquisas de opinião mais recentes.

De acordo com levantamento da Ipsos-Ipec desta segunda-feira (2), 41% dos brasileiros consideram crime e violência as principais preocupações no país.

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