Mulher e homem dormindo um de costas para o outro

Crédito, Getty Images/BBC

    • Author, Ruth Clegg
    • Role, Repórter da saúde da BBC News
  • Há 2 minutos

  • Tempo de leitura: 11 min

Como membro do grupo The Dreamboys nos anos 1990, Alan Reeves regularmente subia ao palco e tirava a roupa para milhares de pessoas.

Era tão requisitado que, ao lado do grupo de dançarinos, chegou a fazer uma ponta no filme das Spice Girls, Spice World.

Então com 24 anos era, como ele mesmo define, "um galã".

Quando chegou aos 30 anos, contudo, Reeves se viu em uma situação bem diferente: sua disposição não era mais a mesma e sua libido havia praticamente desaparecido.

"Eu simplesmente não me sentia bem", diz ele.

Agora com 52 anos, o ex-dançarino afirma que sua falta de desejo sexual começou a ter um impacto negativo em seu relacionamento.

"Ficávamos sem sexo por três, quatro meses seguidos. Eu simplesmente não tinha interesse", conta.

"Esse tipo de coisa pode levar casais a romperem."

Geri Halliwell e Alan Reeves no filme das Spice Girls, Spice World

Crédito, Fragile Films/ Icon Entertainment International/ Polygram Filmed Entertainment

Legenda da foto, Geri Halliwell e Alan Reeves no filme Spice World

Hoje coach de fitness e lifestyle em Londres, Reeves começou a fazer terapia de reposição de testosterona (TRT) e diz que o tratamento lhe devolveu a libido.

Transformou-o "de um velho rabugento" em alguém que se sente como se tivesse voltado aos 20 anos. A sensação é "fenomenal", diz ele.

Mulheres também estão recorrendo à testosterona.

Rachel Mason, uma blogueira de 37 anos que escreve sobre temas relacionados à menopausa, diz que o hormônio tem sido "incrível" para manter altos seus níveis de energia, concentração e libido.

Em países como o Reino Unido, onde as estatísticas apontam uma redução do apetite sexual de forma geral, as prescrições de testosterona têm crescido substancialmente.

Os dados mais recentes da NHS Business Authority (órgão ligado ao Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido e ao Departamento de Saúde e Assistência Social), compilados pela Care Quality Commission, apontam aumento de 135% entre 2021 e 2024.

Em 2010, pessoas entre 16 e 44 anos no país relataram fazer sexo em média três vezes por mês, conforme os dados compilados pela Pesquisa Nacional de Comportamento Sexual e Estilo de Vida (Natsal, na sigla em inglês), realizada a cada dez anos com mais de 10 mil entrevistas.

O número é menor do que o registrado no ano 2000, quando britânicos adultos afirmaram fazer sexo quatro vezes por mês, e do que na década de 1990, quando a média era de cinco vezes por mês.

Os próximos resultados estão previstos para serem divulgados no final deste ano, e os pesquisadores esperam que a tendência de queda continue — embora não apontem um motivo isolado para o declínio.

Nesse contexto, um debate está ganhando força: aumentar a testosterona pode melhorar a libido, ou grande parte da atenção dada ao assunto é apenas propaganda, busca por lucro e efeito placebo?

Redução do desejo sexual

A experiência de Alan Reeves com a diminuição da libido é apenas um exemplo de uma tendência que, segundo pesquisadores, está se tornando cada vez mais comum.

"Ao longo dos anos, notamos uma queda em todos os grupos demográficos", diz Soazig Clifton, diretora acadêmica da Natsal.

"Há menos casais vivendo juntos do que na década de 90, por exemplo, o que poderia ajudar a explicar a redução do desejo sexual, mas, mesmo quando analisamos especificamente esse grupo, houve uma diminuição."

De fato, algumas das quedas mais acentuadas na frequência sexual foram observadas entre casais mais velhos, casados ​​ou que vivem na mesma casa.

Clifton afirma que é difícil dizer de maneira conclusiva por que o desejo sexual parece estar diminuindo.

"Nenhum dado que temos até agora pode realmente nos dizer com segurança por que, como população, não estamos mais fazendo sexo com tanta frequência", diz ela.

Um fator destacado entre estudos sobre o tema é o mundo digital e hiperconectado no qual vivemos e do qual é difícil de se desligar.

Os níveis de estresse também são hoje, de forma geral, mais altos do que eram há 30 anos, o que pode contribuir, pontua Ben Davis, clínico geral e terapeuta sexual.

"As pessoas têm tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo", comenta ele. "Há a tecnologia, obviamente, mas também há um aumento no estresse, na depressão, na solidão [...] tudo isso contribui para a redução do desejo sexual."

E há ainda a tendência de diminuição nos níveis de testosterona, um tema que tem gerado muito interesse online e se converteu em um grande negócio.

"Os níveis de testosterona nos homens estão definitivamente diminuindo", diz o professor Geoffrey Hackett, urologista consultor e membro da Sociedade Britânica de Medicina Sexual.

"O aumento da obesidade, do diabetes tipo 2, o número crescente de pessoas que levam vidas mais sedentárias — tudo isso reduz os níveis de testosterona. E a queda nos níveis de testosterona vai ser um fator na diminuição do nosso desejo sexual."

Diversos estudos abrangentes realizados nos últimos 20 anos que mediram os níveis de testosterona em homens sugerem que esses níveis diminuíram.

Hackett ressalta, no entanto, que o quadro é complexo: ter baixa testosterona aumenta a probabilidade de se ter baixa libido, mas isso não significa que todos aqueles que têm baixos níveis de testosterona terão baixo desejo sexual.

Apesar dessa complexidade, estações de metrô, pontos de ônibus e redes sociais estão repletos de anúncios como frases de efeito como: "Baixa libido? Confusão mental? Cansado? Hora de verificar seus níveis de testosterona! Seu parceiro perdeu o brilho? Podem ser os hormônios!"

Nesse sentido, a terapia de reposição de testosterona (TRT) pode realmente oferecer uma solução milagrosa para a baixa libido?

Testosterona 'me deu minha vida de volta'

Melissa Green toma testosterona há quase um ano. Ela diz que isso não só lhe devolveu "o entusiasmo pela vida", como também salvou seu casamento.

Aos 43 anos, ela afirma que sua baixa libido estava tendo um grande impacto em seu relacionamento.

Por estar na perimenopausa, seu médico já havia prescrito estrogênio e progesterona por meio de terapia de reposição hormonal (TRH), mas Green diz que o profissional se recusou a verificar seus níveis de testosterona, alegando que ela não precisava de suplementação do hormônio.

Mulheres produzem testosterona em pequenas quantidades, e as diretrizes do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) indicam que a testosterona pode ser prescrita para mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo, caracterizado por pouco ou nenhum desejo sexual.

A condição pode afetar mulheres de qualquer idade, mas tende a atingir o pico por volta da menopausa.

Green eventualmente foi a uma clínica particular por conta própria, fez exames de sangue e foi informada de que seus níveis estavam baixos.

Depois de levar os resultados ao seu médico de família, ela agora recebe testosterona pelo sistema de saúde britânico e um pequeno complemento por meio de uma receita particular.

"Isso me devolveu a vida. De certa forma, sinto que voltei aos meus 20 anos", diz ela. "Tenho mais energia, me sinto mais alerta e meu desejo sexual voltou."

Melissa Green (à direita) com seu marido, Marcus (esquerda)

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, Melissa Green e seu marido, Marcus

Enquanto algumas pessoas são efusivas sobre o impacto da testosterona na libido, outras dizem que ela teve efeitos menos desejáveis.

Cheryl O'Malley fez terapia de reposição de testosterona por um ano. Ela diz que, embora possa ter ajudado a recuperar parte da energia que havia perdido durante a menopausa, também aumentou demais seu desejo sexual e a deixou com sentimentos de raiva intensa.

"Eu estava muito excitada. Queria fazer sexo com meu marido, mas ao mesmo tempo o odiava.

"É aí que você percebe que não está bem, que não sou eu, que me sinto fora de controle."

Rachel Mason diz que, quando publica sobre TRT, percebe que "muitas mulheres têm tanto medo de começar a terapia de reposição de testosterona que temem se tornar masculinas, desenvolver pelos faciais, perder a si mesmas."

Rachel Mason

Crédito, Arquivo pessoal/@raysecommunity

Legenda da foto, Rachel Mason diz que a testosterona tem sido 'incrível' para ela

Mason diz que tem uma "parte particularmente mais peluda" no pulso onde aplica seu gel de testosterona diariamente, mas que os benefícios que obtém com o hormônio valem a pena.

Além do aumento de pelos no corpo, a TRT pode causar uma série de outros efeitos colaterais. Para as mulheres, os efeitos mais comuns são crescimento excessivo de pelos, acne e ganho de peso, que geralmente são reversíveis com a redução da dosagem ou a interrupção do tratamento. Alopecia e engrossamento da voz são raros.

Para os homens, os efeitos colaterais podem variar entre ganho de peso, ereções dolorosas e prolongadas, calvície e alterações de humor. Também pode levar à diminuição da produção de espermatozoides, o que pode afetar a fertilidade. Existem tratamentos que podem ajudar, mas recomenda-se aconselhamento médico.

'Mina de ouro'

Alguns médicos clínicos gerais e consultores em atenção secundária (aquela dada por profissionais de saúde especializados) do NHS disseram à BBC que clínicas privadas estão lucrando com a venda de TRT como uma solução rápida para um problema complexo.

Paula Briggs, consultora do NHS em saúde sexual e reprodutiva, descreve isso como uma "mina de ouro" (ou "gravy train", expressão em inglês usada para descrever situações de onde se tira dinheiro fácil com pouco esforço), em que muitas pessoas acabam pagando muito dinheiro por algo de que não precisam.

"Está fora de controle", diz ela. "A indústria do bem-estar criou essa lacuna no mercado que está usando a seu favor. É abusivo."

Clínicas privadas, no entanto, afirmam que estão melhorando a vida das pessoas ao oferecer um serviço que o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido não consegue fornecer.

Jeff Foster, clínico geral do NHS e diretor médico da Voy, uma clínica multimilionária especializada em saúde masculina, afirma que o setor privado está preenchendo uma lacuna no atendimento.

"No momento, o NHS não está preparado para diagnosticar ou tratar os milhares de homens que podem ter baixa testosterona."

Michael Kocsis oferece terapia de reposição de testosterona por meio de sua empresa, Balance My Hormones, desde 2016. Ele afirma que viu a demanda crescer "exponencialmente" nos últimos anos.

Kocsis diz que alguns de seus pacientes fizeram exames no NHS e foram informados de que não tinham níveis baixos de testosterona, então decidiram procurar tratamento particular.

"Só porque o nível de testosterona deles pode estar um pouco acima do limite estabelecido pelo NHS, não significa que a TRT não possa ajudá-los. Não é uma questão preto no branco, é mais complexo do que isso."

 'Sentindo-se irrtado? Pode ser testosterona baixa. Faça um teste em casa'

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Propaganda no metrô de Londres: 'Sentindo-se irrtado? Pode ser testosterona baixa. Faça um teste em casa'

Para os homens, a testosterona começa a diminuir em cerca de 1% entre os 30 e 40 anos. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido aponta a taxa como parte normal do envelhecimento e que avalia que provavelmente não afete a libido.

Alan Reeves recebeu inicialmente terapia de reposição de testosterona pelo NHS. Dois exames mostraram níveis de 10 nmol/L (nanomoles por litro) e 12 nmol/L, e ele recebeu um ciclo de quatro injeções, com três semanas de intervalo entre elas. Mas, após o quarto tratamento, Reeves foi informado de que não poderia mais continuar, "sem muitas explicações".

"Voltei à estaca zero", explica ele. "Foi então que decidi procurar um médico particular."

Alan Reeves

Crédito, Arquivo pessoal/@coachalreeves

Legenda da foto, Alan Reeves hoje é coach de fitness e lifestyle

Qual é então o nível saudável de testosterona para homens? A resposta varia a depender da organização consultada e da pesquisa.

As diretrizes da Sociedade Britânica de Medicina, formuladas a partir de importantes estudos internacionais, sugerem que homens com menos de 12 nmol/L devem ser considerados para terapia de reposição de testosterona e provavelmente apresentarão sintomas de hipogonadismo — uma condição na qual os testículos não produzem quantidade suficiente do hormônio.

As diretrizes do NHS variam entre os hospitais, mas apontam que um homem com níveis abaixo de 6 a 8 nmol/L pode ter deficiência de testosterona.

Nas mulheres, a testosterona começa a diminuir entre os 20 e 40 anos, estabilizando-se com a entrada na menopausa. É normal que os níveis diminuam, mas a questão é o quanto essa redução impacta o desejo sexual e o bem-estar geral.

Existem exames disponíveis, mas é difícil obter leituras precisas porque, embora a testosterona também seja vital para as mulheres, a quantidade necessária é muito menor.

E mesmo que seja prescrito, precisa ser usado "off-label" ou "fora da bula", já que atualmente não existem tratamentos licenciados para mulheres disponíveis no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido.

Briggs vê com cautela a repercussão em torno da terapia de reposição de testosterona.

Ela diz ter observado um aumento significativo no número de pacientes que lhe relatam precisar de testosterona porque se sentem deprimidos e sem vontade de fazer sexo.

"Eles me dizem que fizeram sua pesquisa. Muitas vezes, isso significa que viram o impacto transformador que o hormônio teve na vida de alguém que publicou sobre isso nas redes sociais", continua.

"Só porque funciona para uma celebridade não significa que funcione para a população em geral."

Ela diz que os médicos clínicos gerais na sua área de atuação, Cheshire e Merseyside, estão inundados de pacientes que pedem exames de testosterona. Muitos, diz ela, saem com uma receita de TRT, apenas para voltarem alguns meses depois e dizerem ter notado pouco impacto.

Embora ajude algumas pessoas, acrescenta ela, a proporção daqueles que dizem precisar de testosterona e que realmente se beneficiarão dela é pequena. As evidências clínicas até agora, no que diz respeito às mulheres, sugerem que a TRT só é eficaz no tratamento de mulheres pós-menopáusicas com baixa libido.

Briggs diz que a publicidade das clínicas privadas "exagerou tudo".

"Não sou contra a TRT quando é necessária, o que me incomoda é vê-la tão exageradamente promovida."

O médico clínico geral Ben Davis também alerta que a TRT pode ter um efeito placebo, levando os pacientes, às vezes, a tomar e pagar por medicamentos dos quais não precisam.

Cheryl O'Malley parou de tomar testosterona. Ela diz que a raiva intensa e a excitação sexual exacerbada que sentiu durante o tratamento diminuíram, e sua libido retornou a um nível que lhe parece confortável.

"Estou tão aliviada por ter parado de tomar", comenta.

'Não é uma bala de prata'

"Para alguns, a medicação pode ser realmente transformadora", diz Davis, acrescentando que se trata mais do que apenas prescrever medicamentos.

"Os médicos clínicos gerais podem não ter tempo para discutir com um paciente o que está por trás de sua baixa libido; poderia ser o relacionamento com o parceiro, a forma como se veem, ou o que sexo que praticam atualmente não os excita mais?"

Ele afirma que existem muitos fatores que contribuem para a baixa libido e que a testosterona não é a única resposta.

Cheryl O'Malley

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, 'Estou tão aliviada por ter parado de tomar [testosterona]', diz Cheryl O'Malley

Alan Reeves, que faz terapia de reposição de testosterona há sete anos e recebe prescrição de testosterona da clínica particular Balance My Hormones, afirma que sua vida melhorou drasticamente.

"Minha libido voltou, de forma que, no início, eu queria fazer sexo todas as noites por 10 noites. Mas agora isso se acalmou e estou bem."

Ainda assim, Reeves acredita que a testosterona "não é uma solução mágica" e que não faz sentido tomá-la sem fazer outras mudanças no estilo de vida.

Caso contrário, diz ele, é como colocar um motor de Ferrari em um "carro velho".

"Eu ando com uma postura melhor agora, isso se deve em parte à testosterona, em parte a mim."

Com reportagem adicional de Nat Wright.