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- Author, Juan Francisco Alonso
- Role, BBC News Mundo
Há 20 minutos
Tempo de leitura: 10 min
Por mais de um século, o país sul-americano foi um dos maiores produtores de petróleo do mundo. E, no fim da década passada, foi confirmado o que até então só se suspeitava: o país possui a maior reserva de petróleo comprovada do planeta.
O solo venezuelano abriga cerca de 300 bilhões de barris de petróleo, principalmente extrapesado. O volume supera os 260 bilhões da Arábia Saudita, o principal exportador do combustível do mundo e, por décadas, seu maior produtor.
"Aqui fica a maior reserva de petróleo deste planeta. Aqui, na Venezuela, temos petróleo para mais de 100 anos", declarava insistentemente o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013).
Mas não existe só petróleo nas entranhas do solo venezuelano. Elas também abrigam grandes jazidas de diversos metais e outros minerais.
Durante anos, Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, atribuíram suas más relações com os Estados Unidos ao interesse de Washington de se apropriar desses recursos.
"Qual é o objetivo do atual governo dos Estados Unidos? Eles já declararam: apoderar-se de todo o petróleo da Venezuela, do ouro, das terras raras, das riquezas da Venezuela", afirmou Maduro em entrevista publicada no dia 1° de janeiro — dois dias antes da inédita operação militar ordenada pelo presidente americano, Donald Trump, que resultou na captura do então governante e da sua esposa, Cilia Flores.
As primeiras palavras de Trump após o ocorrido pareciam confirmar as suspeitas de Maduro.
"O que precisamos [das autoridades interinas venezuelanas] é de acesso total", declarou Trump. "Total acesso ao petróleo e a outras coisas do país que nos permitam reconstruí-lo."
Para os analistas consultados pela BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) e para o próprio governo interino da Venezuela, estas "outras coisas" não especificadas pelo presidente dos Estados Unidos aparentemente incluem as vastas jazidas minerais do país.

Crédito, Pedro MATTEY/AFP via Getty Images
Amplo estoque
"Na Venezuela, o petróleo não é o único recurso mineral importante. Existem também outros e uma minoria deles começou a ser explorada", explica à BBC o geólogo venezuelano Gustavo Coronel, um dos diretores fundadores da empresa estatal Petróleos de Venezuela (Pdvsa).
Mas quais são esses minerais? "Ferro, bauxita e ouro", detalha ele.
Já o sociólogo Emiliano Terán Mantovani, da Universidade Central da Venezuela (UCV), acrescenta à lista "diamantes, coltan, níquel, cobre e carvão".
Terán Mantovani é um pesquisador especializado nos impactos para a América Latina do chamado "extrativismo", a exploração e exportação de grandes volumes de recursos naturais com pouco processamento.
As autoridades venezuelanas garantem que existem no país pelo menos 50 minerais e calculam que cerca de 15 deles podem ser explorados comercialmente.
O Centro Internacional de Investimentos Produtivos (CIIP), um organismo subordinado à vice-presidência da Venezuela, indica que o país detém a oitava maior reserva mundial de ferro, com 14,721 bilhões de toneladas do metal.
Além disso, existem na Venezuela mais de 321 milhões de toneladas de bauxita, a matéria-prima usada para a obtenção de alumínio metálico, que é empregado na fabricação de aviões, automóveis e muitos outros produtos.
Em relação ao ouro, o CIIP assegura que o país abriga entre 2,2 mil e 8 mil toneladas do metal. Este volume transformaria a Venezuela na segunda maior reserva mundial de ouro.
Mas os especialistas consultados pela BBC News Mundo alertam que estes dados não foram verificados de forma independente.
"Ninguém sabe, nem mesmo o governo, qual o volume das reservas comprovadas de ouro, já que sua exploração é muito desordenada e não houve mais estudos a respeito", explica Coronel.
A maior parte das jazidas desses minerais está localizada no sudeste do país, particularmente na região de Guayana, formada pelos Estados de Bolívar, Amazonas e Delta Amacuro. Algumas delas são exploradas há várias décadas.
Em outras partes da Venezuela, como a península de La Guajira, no Estado de Zulia (na fronteira com a Colômbia, a oeste), existem depósitos de carvão. E o cobre está espalhado pelo centro-norte e nordeste do país.
O mistério das terras raras
Nos últimos anos, as autoridades venezuelanas garantiram que existem no país depósitos das chamadas terras raras, os 17 elementos químicos atualmente em alta demanda para a fabricação de baterias, telas, ímãs e outros equipamentos tecnológicos.
Os especialistas concordam com esta avaliação.
"No ano de 1971, foi realizado um levantamento aeromagnético, que detectou a existência de terras raras em Cerro Impacto, entre os Estados de Bolívar e Amazonas", segundo Coronel.
O tório é um elemento altamente radioativo e muito utilizado na indústria nuclear. Ele foi identificado ao lado do nióbio e do tântalo, segundo um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), publicado em 1990.
Mas o organismo americano não inclui a Venezuela entre os depósitos de terras raras por falta de dados. O motivo é que, mesmo décadas depois das primeiras descobertas, o volume destas jazidas ainda é desconhecido.
"Esses minerais estão em uma zona de difícil acesso, com muita vegetação, e estão cobertos por uma enorme quantidade de sedimentos", explica Coronel. "Por isso, é necessário escavar e perfurar, o que afetaria gravemente o meio ambiente."

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Mas as autoridades afirmam que existem grandes depósitos destes elementos, bem como de coltan, que é muito utilizado pela indústria de tecnologia civil e militar.
O coltan é uma mistura de columbita e tantalita, das quais são extraídos, respectivamente, o nióbio e o tântalo. Ambos são extensamente empregados na fabricação de componentes eletrônicos.
"As reservas de coltan na Venezuela, em uma avaliação muito preliminar, podem se aproximar de US$ 100 bilhões" (cerca de R$ 520 bilhões), afirmou Chávez em um discurso no parlamento venezuelano, em 2010.
Mas a primeira exportação do chamado "ouro azul" só ocorreu oito anos depois. Em 2018, o então ministro do Desenvolvimento Mineral, Víctor Cano, anunciou a venda de cinco toneladas de coltan para a Itália, pelo valor de US$ 330 mil (cerca de R$ 1,7 milhão).
Desde então, não houve registro de novos embarques formais do mineral para o exterior. Mas existem relatos de organizações ambientalistas e da imprensa local indicando um contrabando cada vez maior de coltan venezuelano.
Plano B
A tradição venezuelana da mineração remonta aos tempos da colonização espanhola. Mas ela nunca foi um motor da economia do país, apesar do seu potencial.
Isso mudou a partir da segunda metade da década passada.
"Com a redução da produção de petróleo, Maduro estabeleceu em 2016 o Arco Mineiro do Orinoco, para explorar os minerais da região", recorda Terán, "particularmente do ouro, que assumiu protagonismo graças aos seus elevados preços internacionais."
O Arco Mineiro é uma vasta região de mais de 110 mil km², o que equivale a 12% do território da Venezuela.
Ele está localizado ao norte dos Estados venezuelanos do Amazonas, Bolívar e no sul de Delta Amacuro, perto do Cinturão Petrolífero do Orinoco, onde fica a maior parte das reservas de petróleo da Venezuela.
O Arco foi dividido em quatro blocos, conforme a preponderância das jazidas minerais que eles contêm.
"Esperava-se que cerca de 150 empresas participassem da exploração do Arco", explica o especialista. "Mas a falta de segurança jurídica, o agravamento da crise política e as sanções internacionais prejudicaram os planos."
O setor de mineração também foi objeto de desapropriações durante o governo de Hugo Chávez. Algumas destas disputas continuam a ser travadas em tribunais internacionais.

"A partir dali, o governo recorreu à pequena mineração para extrair o ouro, uma atividade que nem sempre respeita o meio ambiente, nem as comunidades indígenas", explica Terán.
E, como se tudo isso já não fosse suficiente, o especialista denuncia que "o crime organizado se expandiu na região, graças à sua associação a setores militares que enriqueceram com a mineração".
As autoridades reconheceram irregularidades na região. "Eles levam o ouro, o coltan, os diamantes", admitiu Maduro, em janeiro de 2018.
Mas os funcionários afirmam que estes são casos isolados e que seus responsáveis são perseguidos.

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Apesar dos obstáculos, a exploração do ouro aumentou de forma constante nos últimos anos, atingindo cifras sem precedentes.
São 40 a 50 toneladas por ano, o que representa US$ 2,7 bilhões a US$ 3,3 bilhões (cerca de R$ 14 a 17 bilhões), segundo fontes nacionais e internacionais. Mas apenas uma pequena parcela destes valores chega aos cofres públicos do país.
"Estariam ingressando no Banco Central da Venezuela apenas 8% do ouro explorado, a título de royalties, e 6% pela autorização de exportação, enquanto as organizações criminosas ficariam com cerca de 20% e as alianças estratégicas vinculadas à elite política, com 66%", denunciou a organização Transparência Venezuela, em um relatório publicado em 2024.
As autoridades venezuelanas têm sido muito pouco claras em relação à produção de ouro e não informam os valores recebidos pelo BCV.
Em fevereiro, a presidente interina Delcy Rodríguez afirmou que o ouro "mantém o serviço exterior" (embaixadas e consulados) e financia "os esportistas venezuelanos" que comparecem a competições internacionais. Paralelamente, ela revelou que foram extraídas 9,5 toneladas do metal em 2025.

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As minas estão na mira
Além do pedido de "total acesso" por parte de Trump, outras autoridades americanas deixaram claro o interesse de Washington pelos recursos naturais venezuelanos.
"Eles têm ferro e todos os minerais críticos, têm um grande histórico de mineração que se deteriorou, mas o presidente Trump irá arrumar e recuperá-lo", anunciou o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, horas depois da captura de Maduro e Flores.
Acrescente-se a todo o acima que, em novembro de 2025, a bauxita, o níquel, o cobre e o carvão, também existente na Venezuela, foram incorporados à lista de minerais críticos fundamentais para a economia americana, elaborada pelo USGS.
"Os minerais críticos sustentam indústrias que valem trilhões de dólares e a dependência da importação coloca setores fundamentais em risco", alerta o diretor do USGS, Ned Mamula.
Especialistas dão como certo que o interesse de Washington não se limitará ao petróleo venezuelano. Afinal, o governo dos Estados Unidos já deixou claro que pretende diversificar sua cadeia de matérias-primas.
"O ouro faz parte do interesse americano nesta nova situação", destaca Coronel.

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Mas o geólogo expressou preocupação com a forma de exploração de alguns dos minerais.
"Um governo democrático certamente deixaria intacta a região de Cerro Impacto, já que existe o risco de um desastre ecológico", explica Coronel.
"Mas receio que, agora, alguns países que precisam desesperadamente desses minerais poderiam pressionar para abrir a zona para exportação. E um deles, obviamente, são os Estados Unidos."
Terán também expressou sua apreensão com os desejos de Washington.
"Não é exagero afirmar que, aqui, não há nenhuma consideração ambiental, nem preocupação com a democracia ou os direitos humanos", alerta ele.
"O que estamos observando são sinais de acordos muito subordinados, que colocam em risco a ideia de soberania que tivemos."
Mas empresas especializadas, como a GlobalData Energy, expressaram suas dúvidas sobre a capacidade da Venezuela de se transformar em um fornecedor confiável de minerais para os Estados Unidos a curto prazo.
Isso se deve à carência de infraestrutura moderna no país, de estudos confiáveis sobre suas reservas e, sobretudo, de um marco jurídico estável, segundo um relatório publicado recentemente.

Crédito, Jesus Vargas/Getty Images
As autoridades venezuelanas já estão abordando este último aspecto. Elas se mostraram dispostas a abrir as jazidas minerais ao investimento privado.
"Essas imensas reservas de petróleo precisam ser extraídas para serem transformadas em escolas e hospitais [...]. Debaixo da terra, elas não servem para ninguém", declarou o presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Jorge Rodríguez — irmão da presidente em exercício, Delcy Rodríguez.
Jorge Rodríguez fez a declaração para defender a rápida reforma da Lei de Hidrocarbonetos, que reverte parte do modelo estatizador imposto pelo chavismo nas últimas duas décadas.
E, entre os 29 textos legais que o governo pretende modificar, também se inclui a lei que regulamenta a mineração.
Mapa de Caroline Souza, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Mundo.

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