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Adeus, orelhão: relembre a história do telefone ícone das ruas

A paisagem urbana brasileira está prestes a perder um de seus elementos mais característicos e democráticos das últimas cinco décadas. Em janeiro de 2026, com o encerramento dos contratos de concessão do serviço de telefonia fixa, foi decretado o início do fim para a vasta maioria dos orelhões espalhados pelo país. Ou seja: o que antes era uma obrigação regulatória das operadoras, manter telefones públicos acessíveis a cada esquina, agora se torna uma página virada na história das telecomunicações.

Para quem nasceu na era do 5G e dos apps de mensagem instantânea, pode ser difícil imaginar um cenário onde a comunicação dependia de encontrar um orelhão na rua. Afinal, durante muito tempo ter uma linha fixa em casa era um luxo declarado no Imposto de Renda. A despedida desses aparelhos, portanto, não é apenas uma questão técnica ou logística: é o adeus a um símbolo de design nacional que moldou comportamentos sociais, salvou namoros, resolveu emergências e criou gírias que usamos até hoje, como o clássico "cair a ficha".

Essa transição histórica ganha ainda mais relevância quando olhamos para o recente filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, que resgata a atmosfera dos anos 1970 e coloca o orelhão não como um mero objeto de cena, mas como um protagonista da tensão urbana da época. Nessa matéria, você vai entender como surgiram os orelhões, o porquê do seu design e mais.

 Reprodução/Pexels Com o fim das concessões em 2026, os orelhões começam a se despedir das ruas brasileiras. O ícone criado por Chu Ming Silveira deixa um legado de 50 anos conectando o Brasil, agora substituído pela era da conectividade móvel e digital total — Foto: Reprodução/Pexels

Antes de nos aprofundarmos nessa viagem no tempo, confira os tópicos que vamos abordar sobre a trajetória desse ícone:

  1. Como surgiram os orelhões?
  2. O design oval inconfundível
  3. Uma tecnologia revolucionária para o seu tempo
  4. O orelhão como ícone do cinema
  5. Por que os orelhões caíram em desuso?
  6. O fim da concessão: o que muda na prática
  7. Resistência e nostalgia

1. Como surgiram os orelhões?

A história dos orelhões se confunde com a própria tentativa de modernização da infraestrutura brasileira entre as décadas de 1970 e 1980. Antes de sua implementação massiva, falar ao telefone no Brasil era uma tarefa hercúlea e elitista, restrita a poucas residências abastadas ou a estabelecimentos comerciais que gentilmente cediam seus aparelhos. O governo da época, percebendo o gargalo crítico na comunicação, iniciou um movimento de expansão da telefonia pública sob a lógica do acesso universal. A ideia era simples, mas poderosa: se não era possível levar uma linha para cada sala de estar devido ao alto custo e à complexidade técnica, o Estado levaria o telefone para a calçada, democratizando a voz.

Nesse contexto, o orelhão surgiu como uma solução essencial para um país de dimensões continentais e desigualdades profundas. Ter uma linha fixa era tão caro e raro que existia um mercado paralelo de aluguel e venda de linhas, tratadas como patrimônio familiar e investimento financeiro. O telefone público veio para quebrar essa barreira econômica, funcionando como o ponto de contato principal para a classe trabalhadora. As filas formadas em frente aos aparelhos nos horários de pico ou em datas comemorativas eram cenas comuns, criando uma dinâmica social própria onde a privacidade era negociada e a paciência, exercitada diariamente.

O crescimento da Companhia Telefônica Brasileira (CTB) e a posterior criação do sistema Telebrás foram fundamentais para espalhar os aparelhos pelos quatro cantos do país. A premissa regulatória era garantir que ninguém precisasse andar mais de determinada distância para encontrar um telefone funcional, criando uma malha de comunicação capilar. Enquanto uma linha fixa custava o equivalente a um carro popular em alguns momentos, o uso do telefone público custava apenas o valor irrisório de uma ficha, permitindo que estudantes, trabalhadores e donas de casa pudessem se conectar com o mundo sem comprometer o orçamento.

 Reprodução/Pexels/Lucas Souza Criado em 1971 pela arquiteta Chu Ming Silveira, o design em forma de concha acústica foi pensado para o clima tropical. O "ovo" de fibra de vidro bloqueia o ruído da rua e virou um símbolo de design industrial brasileiro exportado para o mundo — Foto: Reprodução/Pexels/Lucas Souza

Esse movimento de expansão não foi apenas um projeto técnico, mas um verdadeiro projeto de integração nacional via voz. O orelhão tornou-se a "internet" da era analógica, o nó físico da rede de comunicação brasileira. Sem ele, a mobilidade urbana e a migração interna de trabalhadores teriam sido muito mais isoladoras e difíceis. Quem viajava para outra cidade em busca de oportunidades dependia exclusivamente desses aparelhos para avisar a família que havia chegado bem. Portanto, entender o surgimento do orelhão é entender como o Brasil aprendeu a se falar, superando o isolamento geográfico através de cabines que se tornaram onipresentes.

O papel do Estado e das concessões públicas foi desenhado especificamente para obrigar a instalação e manutenção desses pontos, mesmo em áreas onde não havia lucro direto para as operadoras. Essa lógica de subsídio cruzado garantiu que o orelhão chegasse a locais remotos, vilarejos e periferias que o mercado, por si só, ignoraria. Foi uma era onde a comunicação foi tratada como um direito fundamental de acesso, e o orelhão foi o instrumento físico que garantiu esse direito por quase meio século.

2. O design oval inconfundível

A solução encontrada por Chu Ming foi revolucionária e baseada na natureza: o formato de "ovo" ou "concha acústica". A escolha não foi meramente estética, mas profundamente técnica e estratégica. O design oval, feito de fibra de vidro, permitia uma acústica quase perfeita, concentrando a voz do usuário no aparelho e bloqueando até 70% dos ruídos externos da rua, como o barulho de ônibus e obras. Apelidado carinhosamente de "Orelhão" pela população. embora seu nome técnico nos projetos fosse Chu I e Chu II, o projeto foi um sucesso imediato, provando que a funcionalidade não precisava ser inimiga da beleza.

 Reprodução/orelhao.arq.br Chu se inspirou na forma de um ovo por conta da acústica e design — Foto: Reprodução/orelhao.arq.br

O design de Chu Ming também levava em conta a durabilidade e a manutenção. A fibra de vidro era resistente ao sol e à chuva, fácil de limpar e difícil de quebrar, características essenciais para um mobiliário exposto na rua 24 horas por dia. Além disso, sua forma orgânica parecia flutuar nas calçadas, fixada por um poste simples ou diretamente em paredes, o que facilitava a circulação de pedestres e a limpeza do chão urbano, diferentemente de cabines que ocupavam grandes áreas de solo. A variedade de cores, com o laranja e o azul da Telebrás se tornando clássicos, permitiu que o orelhão se destacasse visualmente na paisagem cinza das cidades.

O sucesso do projeto foi tão grande que o design brasileiro foi exportado para diversos países da América Latina, África e até para a China, terra natal da arquiteta. A versatilidade do modelo permitiu ainda a criação do "Orelhinha", uma versão menor, muitas vezes transparente ou amarela, destinada a ambientes internos silenciosos como farmácias, hospitais e repartições públicas. Essa adaptação mostrou a flexibilidade do conceito original de Chu Ming, que conseguia atender a diferentes necessidades acústicas mantendo a identidade visual que já havia conquistado o público.

A genialidade desse design reside na sua simplicidade e na forma como ele se tornou um ponto de referência urbano intuitivo. "Te espero no orelhão da praça" era uma coordenada geográfica precisa e compreendida por todos. A altura e a curvatura foram pensadas ergonomicamente para atender à média de altura do brasileiro da época, criando um abraço protetor ao redor do usuário. O trabalho de Chu Ming Silveira transcendeu a engenharia; ela criou uma escultura funcional que definiu a estética das ruas brasileiras, provando que o design público pode ser, ao mesmo tempo, belo, útil e acessível.

3. Uma tecnologia revolucionária para o seu tempo

Para a geração atual, acostumada com a latência zero e videochamadas em alta definição, pode parecer estranho classificar um telefone fixo de rua como "revolucionário". Mas, para o seu tempo, o orelhão representava o ápice da comunicação instantânea fora de casa. Antes dele, estar na rua significava estar incomunicável, num limbo de informação. A implementação dessa rede permitiu uma liberdade inédita: você podia resolver problemas, fechar negócios urgentes ou pedir socorro sem precisar bater na porta de um estranho ou entrar em um estabelecimento comercial. Era a primeira vez que a comunicação pessoal ganhava autonomia no espaço público.

A tecnologia de pagamento evoluiu junto com o aparelho, marcando a memória afetiva de milhões de brasileiros. Tudo começou com as fichas metálicas, que possuíam ranhuras específicas para cada região ou operadora, evitando fraudes. O barulho da ficha caindo ao ser engolida pelo aparelho era o sinal sonoro de que a conexão havia sido estabelecida, originando a expressão "caiu a ficha". Carregar um punhado de fichas no bolso era essencial para a sobrevivência urbana, e a falta delas gerava uma busca desesperada por bancas de jornal, criando toda uma economia paralela ao redor do telefone.

 Reprodução/Pixabay (gustavofer74) A evolução do orelhão passou pelo barulho inesquecível da ficha metálica caindo até a modernidade dos cartões indutivos. O sistema de cartão, inovação brasileira, transformou a telefonia pública em um hábito prático e colecionável — Foto: Reprodução/Pixabay (gustavofer74)

Nos anos 90, essa tecnologia deu lugar aos cartões indutivos, uma inovação criada pelo engenheiro brasileiro Nelson Guilherme Bardini, que colocou o Brasil na vanguarda mundial. O sistema usava células elétricas para contar os créditos, substituindo o peso das fichas pela praticidade de um cartão fino de PVC. Mais leves e colecionáveis, os cartões permitiram chamadas mais longas e eliminaram o problema logístico do recolhimento de toneladas de fichas metálicas. O visor digital do orelhão, que mostrava os créditos decrescendo, introduziu uma nova tensão: a gestão do tempo da conversa antes que a linha fosse cortada.

Se hoje o celular é nossa janela portátil para o mundo, o orelhão era o portal físico fixo. A grande diferença é que, antigamente, você ia até a tecnologia, em vez de carregá-la no bolso. O orelhão também funcionava como um receptor de chamadas, transformando-se em ponto de encontro fixo onde pessoas esperavam ligações em horários combinados. O "bipe" de aviso de que os créditos estavam acabando gerava uma adrenalina única para concluir o assunto, uma dinâmica de comunicação concisa que se perdeu com os planos de minutos ilimitados de hoje.

Essa infraestrutura robusta foi o alicerce que sustentou o Brasil durante décadas de crescimento urbano acelerado. O orelhão não era apenas um telefone; era um terminal de serviços de utilidade pública. Nele, consultava-se a lista telefônica — as famosas páginas amarelas, frequentemente depredadas, mas vitais — acionava-se a polícia e os bombeiros gratuitamente. Ele foi a "banda larga" da voz, garantindo que a informação fluísse mesmo em um país com sérios déficits de infraestrutura. Olhar para essa tecnologia hoje é reconhecer os alicerces analógicos sobre os quais nossa sociedade conectada foi construída.

4. O orelhão como ícone do cinema

A presença do orelhão na cultura brasileira é tão onipresente que ele transcendeu a utilidade pública para se tornar um elemento narrativo poderoso no cinema e na arte. Um exemplo recentíssimo dessa força simbólica é o filme O Agente Secreto (2025/2026), de Kleber Mendonça Filho. Ambientado na década de 1970, o longa utiliza o orelhão não apenas para compor o cenário de época com precisão histórica, mas como um catalisador da tensão e da clandestinidade que permeavam os anos de chumbo. Na trama, o personagem vivido por Wagner Moura utiliza esses telefones como ferramentas vitais de sobrevivência e articulação.

No cinema, o orelhão oferece uma linguagem visual única que diretores adoram explorar: a vulnerabilidade de estar exposto na rua misturada com a privacidade ilusória da concha acústica. A imagem clássica de alguém curvado para dentro do aparelho, cobrindo o outro ouvido com a mão para abafar o som do trânsito, é cinematográfica por natureza. Em O Agente Secreto, essa dualidade é explorada ao máximo. O telefone toca na rua deserta, o personagem atende olhando desconfiado para os lados; essa é a estética do thriller analógico, onde a tecnologia fixa obriga o personagem a se expor para se comunicar.

 Reprodução/The Movie Database O Agente Secreto pode trazer um novo Oscar de Filme Internacional para o Brasil em 2026. No filme "O Agente Secreto", o orelhão volta aos anos 70 como peça central de suspense. O longa de Kleber Mendonça Filho resgata a tensão de usar um telefone público para comunicações clandestinas em uma era sem rastreamento digital — Foto: Reprodução/The Movie Database

Diferente do celular moderno, que é pessoal e rastreável via GPS, o orelhão no cinema representa o anonimato. Ele permite que a cidade em si seja um personagem na conversa. O filme resgata o modelo laranja clássico da Telesp/Telebrás, situando o espectador imediatamente no tempo e no espaço. A necessidade de ter fichas no bolso, o medo da ligação cair no meio de uma frase crucial e a exposição aos olhares de passantes aumentam o drama das cenas de uma forma que um smartphone jamais conseguiria replicar.

Além do suspense, o orelhão no cinema evoca o "esconderijo" visível. A concha projetada por Chu Ming cria um microespaço de segredo no meio da multidão, algo que o filme explora visualmente com maestria. É um contraste tecnológico interessante: a obra nos lembra como a comunicação exigia esforço físico, deslocamento e planejamento. Cada ligação era um evento, não um ato impensado de deslizar o dedo na tela, e isso adiciona um peso narrativo a cada interação dos personagens com o aparelho público.

Essa representação cultural reforça o status do orelhão como um ícone pop definitivo. Ele já apareceu em capas de discos, foi cenário de confissões em novelas clássicas e agora, no cinema contemporâneo, retorna como uma âncora de realidade histórica. Ver atores interagindo com essa tecnologia desperta no público uma memória sensorial imediata. O orelhão nas telas não é apenas um objeto cenográfico; é um confissionário urbano onde segredos foram contados e destinos mudados, imortalizando sua importância muito além da simples função de fazer chamadas de voz.

5. Por que os orelhões caíram em desuso?

A queda do império dos orelhões não aconteceu da noite para o dia; foi um processo de erosão lento, impulsionado principalmente pela revolução digital móvel. O grande "algoz" do telefone público foi a popularização massiva do celular pré-pago no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Quando as operadoras facilitaram o acesso a aparelhos móveis e criaram planos como o "Baby", onde se pagava apenas pelo que se usava ou apenas para manter a linha ativa para receber chamadas, a conveniência de ter o telefone no bolso venceu a necessidade de caminhar até a esquina. A curva de uso despencou abruptamente à medida que a densidade de celulares por habitante crescia.

Além da concorrência tecnológica desleal, fatores econômicos e sociais aceleraram o abandono. O vandalismo sempre foi um problema crônico no Brasil: aparelhos quebrados, pichados, com monofones arrancados ou leitoras de cartão entupidas com chiclete tornaram a experiência de uso frustrante e não confiável. Manter essa rede funcionando tornou-se financeiramente insustentável para as operadoras. O custo logístico de enviar técnicos para reparar milhares de aparelhos que quase não geravam receita, já que a venda de cartões caiu drasticamente, criou um ciclo vicioso de sucateamento.

A mudança de hábito da população foi o prego final no caixão do orelhão. O advento das mensagens de texto (SMS) e, posteriormente, a revolução dos aplicativos como o WhatsApp, tornou a comunicação por voz síncrona menos frequente e necessária. As pessoas pararam de ligar para avisar que iriam atrasar; elas mandavam uma mensagem. Com a internet móvel 3G e 4G, a função do orelhão como "ponto de informação" ou de emergência tornou-se obsoleta, já que o conhecimento e o socorro estavam agora na palma da mão, acessíveis em segundos.

 orelhão quebrado em Copacabana. Você sabia que o cartão telefônico indutivo foi uma invenção brasileira? A tecnologia substituiu as fichas e permitiu que o orelhão se tornasse o meio de comunicação mais democrático e acessível do país antes da chegada do celular — Foto: Foto do leitor Leonardo Kierpel Eu-Repórter: orelhão quebrado em Copacabana. Você sabia que o cartão telefônico indutivo foi uma invenção brasileira? A tecnologia substituiu as fichas e permitiu que o orelhão se tornasse o meio de comunicação mais democrático e acessível do país antes da chegada do celular — Foto: Foto do leitor Leonardo Kierpel

A regulação do setor também demorou a acompanhar a nova realidade tecnológica. Por muitos anos, as metas rigorosas da Anatel obrigavam as empresas a manterem orelhões instalados em locais onde ninguém os utilizava há anos, gerando verdadeiros "cemitérios" de aparelhos mudos nas cidades. As concessionárias mantinham os equipamentos apenas para evitar multas, sem interesse real na qualidade do serviço. Esse descompasso entre a lei e o comportamento do consumidor resultou em uma rede fantasma, visível na paisagem, mas invisível na prática do dia a dia.

O desuso foi, portanto, o resultado natural de uma sociedade que priorizou a mobilidade total e a conectividade digital em detrimento da telefonia fixa pública. O custo de manutenção das peças de reposição ficou escasso e caro, e a receita gerada pelos poucos usuários restantes tornou-se insignificante. O orelhão, que um dia foi símbolo de modernidade, tornou-se um anacronismo de fibra de vidro, resistindo apenas como um lembrete físico de uma era onde a comunicação tinha lugar fixo e hora marcada.

6. O fim da concessão: o que muda na prática

A remoção das carcaças das ruas será feita de forma gradual, seguindo cronogramas acordados com a agência reguladora. Isso trará uma mudança visual significativa para as cidades, que ficarão mais "limpas" e com mais espaço nas calçadas, mas perderão o charme nostálgico do design de Chu Ming Silveira. No entanto, o fim da concessão não significa o desaparecimento instantâneo de 100% dos aparelhos. A Anatel e o Ministério das Comunicações estabeleceram regras de transição para garantir que ninguém fique desassistido.

Em regiões remotas, zonas rurais distantes ou pequenas comunidades onde o sinal de celular ainda é inexistente ou precário, os orelhões — agora tratados como "Telefones de Uso Público" (TUP) remanescentes — continuarão a operar. Eles deixam de ser uma regra de densidade urbana para se tornarem uma exceção de serviço essencial em áreas de "sombra" de cobertura. O critério para a manutenção deixa de ser uma meta burocrática de distância e passa a ser a necessidade real de comunicação daquela população específica.

 Reprodução/Internet Com o encerramento das concessões de STFC em 2026, a infraestrutura de cobre dos orelhões dá lugar à expansão da banda larga móvel. O fim do serviço marca a migração definitiva do Brasil para redes IP e 5G — Foto: Reprodução/Internet

Essa mudança reflete a adaptação necessária da regulação brasileira à realidade do século XXI. É um movimento de racionalização de recursos: manter uma rede ociosa de cabos de cobre e fibra de vidro custava milhões que agora podem ser direcionados para a expansão da banda larga e das redes 5G e 6G. Alguns aparelhos, inclusive, podem ser preservados como patrimônio histórico ou cultural em locais turísticos, mas sem a função ativa de telefonia, servindo apenas como monumentos à memória das telecomunicações.

Portanto, o fim da concessão é o encerramento oficial da era da voz fixa pública no Brasil. É o marco que define a transição completa para a era da conectividade digital móvel, onde o acesso à comunicação não está mais preso a um poste na calçada, mas democratizado através de tecnologias sem fio. O orelhão cumpriu seu papel de universalizar o acesso quando a tecnologia era analógica; agora, ele sai de cena para que a infraestrutura digital possa ocupar seu espaço e recursos.

7. Resistência e nostalgia

Mesmo com o desmonte físico da rede e a remoção das cabines, o orelhão sobreviverá com força no imaginário popular e nas coleções particulares. Existe um grupo apaixonado que se recusa a deixar essa história morrer: os telecartofilistas. O colecionismo de cartões telefônicos, que teve seu auge febril nos anos 90 e 2000, ganha agora um novo fôlego com o status de "relíquia histórica". Esses pequenos pedaços de PVC com estampas variadas são registros físicos da cultura brasileira, retratando desde pontos turísticos e ídolos do esporte, como Ayrton Senna, até campanhas de vacinação e obras de arte.

Para os nostálgicos e historiadores amadores, o fim dos orelhões ativa o poderoso gatilho mental da escassez. Aquilo que víamos todo dia e ignorávamos passa a ter valor inestimável assim que se torna raro. Sites de leilão e grupos de entusiastas já movimentam um mercado aquecido de peças, fichas antigas da Telerj e Telesp, e cartões raros com tiragens limitadas. É a materialização da saudade, a tentativa de segurar fisicamente um pedaço de um tempo onde a comunicação era mais lenta, mas talvez mais valorizada e esperada.

Além dos cartões, há um movimento de reuso criativo e artístico das próprias carcaças. Designers e decoradores têm buscado comprar as cúpulas de fibra de vidro para reformá-las e transformá-las em itens de decoração retrô, como poltronas acústicas, chuveiros de jardim ou cabines de leitura em escritórios modernos. O design de Chu Ming Silveira está sendo ressignificado, mantendo viva a forma oval icônica em novos contextos, provando que a boa arquitetura sobrevive até mesmo à obsolescência de sua função original.

O sentimento de perda com a retirada dos aparelhos gera uma melancolia coletiva sobre a passagem do tempo e a efemeridade das tecnologias. Muitos brasileiros têm memórias afetivas ligadas a um orelhão específico: aquele perto da escola, o da praça onde se encontrava a turma, ou aquele em frente de casa que servia de telefone comunitário. A resistência da memória garante que, mesmo sem linha, o orelhão continue existindo como um marco afetivo.

A despedida do orelhão é, no fundo, um convite para valorizarmos nossa própria história tecnológica e social. Eles foram testemunhas silenciosas da nossa evolução. Ao passar por um dos últimos exemplares ainda de pé na sua cidade antes da remoção, vale a pena olhar com atenção. Ali não está apenas um telefone quebrado; está um monumento à criatividade brasileira e a uma era onde a voz humana precisava de um teto na rua para ser ouvida e conectada.

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