Há 50 anos foi lançado o álbum "Falso Brilhante", marco na trajetória de Elis Regina (1945-1982), que nos deixou precocemente.
Elis sempre foi unanimidade quanto às qualidades vocais. Extensão, técnica e afinação justificavam que fosse considerada uma das maiores ou a maior intérprete do Brasil. Havia entretanto senões de gosto a seu estilo, alguns implicavam com o repertório e outros com certos posicionamentos.
Um exemplo foi o papel que ela assumiu num movimento contra a guitarra elétrica na canção brasileira, que culminou numa passeata em julho de 1967, em São Paulo
O episódio nos revela um pouco das hesitações e disputas políticas no meio musical mais antenado nos anos que se seguiram ao golpe de 1964.
Com a crise semântica do amor do sorriso e da flor, a chamada segunda geração da bossa nova entrava em cena com uma guinada para as raízes populares, o regionalismo e o protesto. Elis fazia parte desse grupo, ao lado, entre outros, de Edu Lobo, Dori Caymmi e Geraldo Vandré.
Paralelamente, ganhava projeção, naquele Brasil que se industrializava e urbanizava, o iê-iê-iê, nossa versão do pop e do rock internacionais, de Elvis a Beatles.
A jovem guarda de Roberto e Erasmo era a grande adversária na marcha contra a guitarra elétrica. Seriam os representantes de uma invasão imperialista.
Nos famosos festivais da canção valorizavam-se canções como "Arrastão", "Disparada", "Ponteio" e mesmo "A Banda", em seu afável conservadorismo. Havia ali, na esquerda cultural e universitária, uma vontade de ser nacional, "autêntico", popular.
A nota dissonante chamava-se Caetano Veloso, que demonstrava uma compreensão mais profunda e sofisticada do processo em curso. Não acreditava que o caminho fosse um retorno às raízes e defendia a retomada do que chamou de "linha evolutiva" da canção brasileira. Não era o caso de ceder a uma "folclorização do subdesenvolvimento"; tratava-se, sim, de prosseguir no rumo cosmopolita da bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim.
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Diferentemente de Gil, que, de modo ambíguo, compareceu à marcha, Caetano foi contra —e teve apoio de Nara Leão.
Quem explicou essa movimentação, no calor da hora, foi o poeta Augusto de Campos, cujos artigos reunidos no seminal livro "O Balanço da Bossa e Outras Bossas" estão aí para serem lidos e relidos.
Caetano, como se sabe, liderou o que viria a ser o tropicalismo. Em 1967, apresentou "Alegria, Alegria" no festival da Record com uma banda de rock argentina Beat Boys. Gil, já em outra, subiu ao palco com os Mutantes para defender "Domingo no Parque". A turma de Elis não gostava daquilo.
Em 1978, quando ninguém mais dava bola para guitarra elétrica, a cantora, no show "Transversal do Tempo", sob a direção de Aldir Blanc e Mauricio Tapajós, foi maliciosa com a canção "Gente", que Caetano acabara de lançar. Seu disco "Bicho" era visto como despolitizado. No espetáculo aparecia a palavra "Gente" com a tipografia da Coca-Cola.
Caetano ficou danado. Houve um estremecimento. Ele compôs a seguir "Diamante Verdadeiro", gravada por Maria Bethânia. O título era numa irônica referência a "Falso Brilhante".
Tempos depois, fizeram as pazes –ela escreveu uma mensagem a Caetano que foi, com Gil, assistir seu último show, "Trem Azul".

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