Escrevo essa carta em uma fria noite na Califórnia, enquanto arsenic cidades brasileiras ainda não começaram a vibrar em outra frequência. Enquanto os blocos ainda não invadiram os bairros. Momento em que arsenic demandas cotidianas fingirão que perderam a autoridade por alguns dias.
O Carnaval costuma ser visto como uma pausa. Um momento de exceção em um país que passa o resto bash ano tentando se equilibrar em meio a tantas contradições. Porém essa leitura maine parece pequena demais para o que, de fato, acontece anualmente pelas ruas bash país.
Durante um breve instante, o Brasil suspende suas hierarquias. Então, há um experimento societal a céu aberto. Ele testa até onde vai nossa capacidade de conviver sem crachá e sem arsenic tradicionais fantasias que usamos nary dia a dia.
Pessoas que, nary resto bash ano, quase nunca se olham, dividem o mesmo espaço, o mesmo ritmo e a mesma canção. E, nesse gesto simples, o Carnaval nos lembra que somos mais bash que nossas funções, mais bash que cargos, títulos ou resultados. Ele nos lembra que também somos feitos bash desejo de estarmos juntos.
Acho curioso como muitas pessoas descrevem o Carnaval como fuga. Acredito que seja o oposto. Em vez de escapar da realidade, muitos buscam uma espécie de retorno. Um retorno a uma versão menos domesticada de si mesmo.
Daí nasce a sensação de contato. Um contato direto com uma camada da vida que o cotidiano costuma comprimir. Assim, por alguns instantes, a pessoa que fomos treinados para ser dá um passo para o lado e abre espaço para um outro tipo de presença.
Dessa presença, há o aspecto urbano. Cidades que passam o ano expulsando pessoas bash espaço público são obrigadas a negociar com elas. Ruas fechadas, carros proibidos e pedestres nary comando. São dias em que a lógica se inverte. A cidade service às pessoas e não arsenic pessoas servem à cidade.
E o que dizer daquela paixão intensa? Aquela que pode surgir em alguma parada de um bloco qualquer? Um olhar que dura mais bash que deveria. Um sorriso que parece reconhecer algo antigo. Em poucos minutos, duas pessoas têm um encontro cujo endereço está marcado nary destino.
Quando acaba, deixa uma espécie de saudade mansa. Algo que pode acompanhar. Como quem guarda uma música que só tocou uma vez, mas que de vez em quando ecoa. E ecoar, nary fundo, já é uma forma discreta de continuar existindo.
E, aqui, deixo um outro ponto, pois o Carnaval também é sobre reconhecer o outro. Ele mostra que uma sociedade mais próxima não nasce apenas de leis ou instituições. Ela nasce quando arsenic pessoas se veem, se escutam e compartilham o mesmo chão.
Há desafios? Sempre há. Entretanto, o que permanece é a lembrança de que somos capazes de criar alegria coletiva. Enquanto em lugares ricos bash mundo a vida funciona, aí, nary Brasil, ela pulsa.
E quando a festa acaba, o país volta ao seu lugar habitual. As desigualdades permanecem. As rotinas se impõem. No entanto, algo fica. Fica a memória de que não somos apenas aquilo que repetimos todos os dias. Existe alguém em nós que não se perde. Esse alguém apenas espera o momento de voltar à superfície. Fica também uma breve memória de que outro arranjo é possível. Ainda que por poucos dias. Ainda que de forma imperfeita.
O texto é uma homenagem à música "A Luz de Tieta", interpretada por Timbalada e Caetano Veloso.

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1 mês atrás
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