O tema esteve entre os mais debatidos durante o SXSW London, um dos mais influentes festivais de inovação do mundo, realizado na semana passada na capital inglesa. Em diversos painéis, pesquisadores discutiram uma preocupação crescente: estamos usando a inteligência artificial para ampliar nossas capacidades ou para substituir processos mentais fundamentais?
Parte dessa discussão começa com um problema já conhecido: a crise da atenção.
A pesquisadora Gloria Mark, professora da Universidade da Califórnia e uma das maiores especialistas do mundo no tema, apresentou dados que ajudam a dimensionar a transformação. Segundo seus estudos, em 2004 uma pessoa conseguia permanecer, em média, dois minutos e meio focada em uma mesma tela. Em 2020, esse tempo caiu para apenas 47 segundos. A projeção mais recente aponta que ele pode chegar a apenas 25 segundos em 2026.
O desafio vai além da distração
O que mais tem preocupado os cientistas não é apenas a redução da atenção. É o impacto da inteligência artificial sobre processos mais profundos, como memória, aprendizado, autonomia intelectual e pensamento crítico.
Um dos estudos mais comentados durante o festival em Londres foi conduzido pelo MIT Media Lab. A pesquisa acompanhou 54 participantes durante tarefas de escrita e dividiu os voluntários em três grupos: um utilizava IA generativa, como ChatGPT e Claude, outro recorria a mecanismos de busca tradicionais e o terceiro realizava as atividades sem apoio tecnológico.
Monitorando a atividade cerebral dos participantes, os pesquisadores identificaram um padrão consistente entre os usuários de IA: menor atividade neural durante a tarefa, menor retenção do conteúdo produzido e uma percepção reduzida de autoria sobre aquilo que escreveram. Em muitos casos, os participantes tinham dificuldade para lembrar ou reconhecer trechos que haviam acabado de produzir com ajuda da ferramenta.
O MIT Media Lab classificou esse fenômeno como uma espécie de "dívida cognitiva". Quando o esforço mental é terceirizado repetidamente, parte dos processos de aprendizado e consolidação do conhecimento simplesmente deixa de acontecer.
O estudo ainda precisa passar pelo processo completo de revisão por pares, mas seus resultados ajudam a inaugurar uma discussão relevante: a eficiência gerada pela IA pode vir acompanhada de um custo cognitivo que ainda estamos começando a compreender.
Menos retenção, menos questionamento
Outro trabalho que chamou atenção foi desenvolvido por pesquisadores da Microsoft Research em parceria com a Carnegie Mellon University. O estudo analisou o comportamento de 319 profissionais que utilizam inteligência artificial em atividades intensivas de conhecimento.
A principal conclusão foi direta: quanto maior a confiança depositada nas respostas geradas pela IA, menor a tendência de questioná-las, verificá-las ou confrontá-las com outras fontes.
Em outras palavras, a confiança excessiva na máquina estava associada à redução do pensamento crítico. Os pesquisadores observaram que muitos profissionais deixavam de exercer etapas fundamentais do raciocínio, como validação, análise de inconsistências e construção independente de argumentos.
A terceirização do pensamento
O alerta é sutil, mas profundo.
Não estamos apenas automatizando tarefas operacionais. Estamos começando a terceirizar atividades cognitivas que historicamente foram responsáveis pelo desenvolvimento da nossa capacidade de raciocinar, refletir e formar julgamentos próprios.
Existe uma diferença enorme entre usar a inteligência artificial como ferramenta de apoio e utilizá-la como substituta do pensamento.
Calculadoras não eliminaram a matemática porque continuamos aprendendo matemática antes de utilizá-las. O GPS não eliminou completamente nossa capacidade de orientação porque ainda compreendemos conceitos espaciais básicos. A diferença é que a IA generativa atua justamente sobre territórios tradicionalmente associados ao pensamento humano: escrita, análise, interpretação, síntese e criatividade.
Talvez o maior risco não seja uma tecnologia mais inteligente do que nós. Seja nos acostumarmos a pensar cada vez menos
A tecnologia está cada vez mais acessível para todos. Isso significa que ela deixa de ser um diferencial competitivo por si só. O que pode nos diferenciar das máquinas é exatamente o que estamos delegando a elas: curiosidade intelectual, repertório, senso crítico, visão de mundo, originalidade e capacidade de formular boas perguntas.
A questão não é se a inteligência artificial vai pensar por nós. É o quanto do nosso pensamento já estamos conformados a automatizar.
Reportagem
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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