O sobrenome que emerge junto com os arquivos do coronel Cyro Etchegoyen (1929-2012) é, no contexto do Exército brasileiro, sinônimo de poder e intervenções na vida republicana do país.
Os documentos referentes à ditadura 1964-1985 guardados por Etchegoyen e revelados pelo ICL Notícias detalham como as Forças Armadas britânicas colaboraram com as brasileiras ao ensinar técnicas de tortura, descrevem pelo menos um novo crime cometido pelos militares (o estupro da vendedora de joias Marilene dos Santos Mello) e incluem listas com nomes de transgressores.
É simbólico e sintomático que o material venha à luz quando se completa exatamente um século da primeira participação conhecida dos Etchegoyen na vida republicana. O gaúcho Alcides Etchegoyen (1901-1956), pai de Cyro, foi um dos líderes da chamada Coluna Relâmpago, movimento tenentista que eclodiu em 1926 no Rio Grande do Sul em apoio à Coluna Prestes para pôr fim à República Velha –contrário, portanto, aos presidentes eleitos Artur Bernardes (que deixava o cargo) e Washington Luís (que o sucedeu). Nelson Etchegoyen, irmão de Alcides, também participou do levante.
Alcides seguiu uma trajetória de oficial influente no Exército –chegaria a general de divisão, apenas um degrau abaixo do topo da carreira. Foi chefe de polícia do Distrito Federal (na época a cidade do Rio de Janeiro) durante a ditadura do Estado Novo, sucedendo ao carrasco Filinto Müller. Nos anos 1950, presidiu o Clube Militar, então uma entidade muito poderosa nas Forças Armadas.
Foi detido em 1955 pelo marechal Henrique Lott por tentar se opor ao chamado "golpe preventivo" que depôs o presidente interino Carlos Luz e garantiu a posse do eleito Juscelino Kubitschek.
Há muito se sabia que Cyro, filho do meio de Alcides, foi o Etchegoyen mais associado a violações de direitos humanos na ditadura. Como chefe da seção de contrainformações do CIE (Centro de Informações do Exército) de 1971 a 1974, ele foi braço direito de Milton Tavares, o Miltinho, chefe daquela unidade e figura de proa da linha-dura da repressão.
Em 2014, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), o coronel Paulo Malhães contou que Cyro foi comandante da famigerada Casa da Morte de Petrópolis, um dos principais centros de tortura e execução de opositores da ditadura.
Outro filho de Alcides, Leo Etchegoyen (1925-2003), também seria um oficial importante do Exército. Durante a ditadura, foi secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Sul e chefe do Estado-Maior do 2º Exército (com sede em São Paulo) e do 3º Exército (baseado no RS). Por esses cargos é que Leo foi incluído, assim como Cyro, no relatório final da CNV entre os agentes acusados de crimes durante a ditadura.
A inclusão de Leo na lista, divulgada em 2014, chamou a atenção para outro Etchegoyen poderoso no Exército, o único do clã a se tornar general de quatro estrelas. Sergio Etchegoyen, filho de Leo, sobrinho de Cyro e neto de Alcides, estava na época prestes a ser nomeado chefe do Estado-Maior do Exército, escolhido pelo comandante recém-nomeado, seu aliado e amigo Eduardo Villas Bôas. Mais tarde viria a ser ministro-chefe do GSI durante o governo Michel Temer e um dos militares mais influentes do passado recente do país.
Junto com sua família, e como pessoa física (sem mencionar sua patente), Sergio Etchegoyen divulgou uma nota pública criticando a CNV pela inclusão de seu pai na lista e foi à Justiça para que o nome fosse retirado. O pedido foi rejeitado em duas instâncias, e o processo transitou em julgado. Em suma, as decisões diziam que, mesmo que não tivesse participado de torturas e execuções, Leo Etchegoyen teria permitido que violações fossem cometidas em unidades do Exército sob seu comando.
Não faz sentido, por óbvio, que Sergio Etchegoyen nem quaisquer militares sejam responsabilizados por condutas de seus antepassados. Ocorre que, numa corporação marcada pela endogenia e hereditariedade como o Exército, em que sobrenomes costumam se repetir em gerações de oficiais, tampouco deveria se absolver quem quer que seja sob o argumento de que seus herdeiros possam ser mais tarde prejudicados pelo sobrenome.
Trata-se de um Exército, como detalhou em livro recente o historiador Carlos Fico, responsável por encabeçar todos os golpes e tentativas de golpe da história republicana brasileira.
Em seu livro de memórias ("Conversa com o Comandante", entrevista a Celso Castro), ao tentar justificar por que o Exército nunca pediu desculpas pelos crimes da ditadura, o general Villas Bôas mencionou, entre outros motivos, o fardo que o reconhecimento do erro causaria às gerações seguintes das famílias de militares, como diz ter ocorrido em países do continente em que as Forças Armadas se desculparam.
"Internamente, nos respectivos Exércitos [de Argentina e Chile], isso afetou seriamente a autoestima institucional. Na Argentina, adotaram um critério por eles designado como ‘portadores de apellido [sobrenome, em espanhol]’, segundo o qual os militares descendentes de alguém condenado por participação na repressão têm suas carreiras abreviadas, impedindo-os de exercer funções relevantes."
Em entrevista dada a este repórter para o livro "Poder Camuflado", Sergio Etchegoyen afirmou que o pleito de familiares de mortos e desaparecidos e de movimentos de direitos humanos por esse pedido de desculpas era "uma jogada política inteligente, para que o assunto nunca encerrasse".
E complementou: "Eles sabiam que isso nunca ia acontecer, tanto é que pediram. Eu não consigo entender quem toparia aparecer fardado na frente das câmeras para dizer ‘Desculpa’. Não consigo imaginar esse personagem. Quem ia topar levar essa para a biografia?".

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