O Planalto alimenta a expectativa de que reunião de Lula (PT) com Donald Trump sirva para frear a interlocução de aliados do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) com a Casa Branca. O petista tem uma agenda prevista com o presidente dos Estados Unidos nesta quinta-feira (7).
O cálculo do Planalto é que a reunião entre Lula e Trump ocorre em um momento sensível, em que Flávio cresceu nas pesquisas. O senador tem nos EUA dois interlocutores que tentam influenciar a política externa sobre o Brasil, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o empresário bolsonarista Paulo Figueiredo.
A expectativa é que o encontro consolide Lula como o interlocutor preferencial dos americanos. A reunião foi marcada após um telefonema de Trump ao presidente brasileiro no final de semana, no qual o americano sugeriu o encontro pessoal nesta semana.
A dupla Eduardo-Figueiredo tem interlocução com uma ala da Casa Branca e no passado influenciou os EUA na política do tarifaço, dizendo que o governo brasileiro e o STF (Supremo Tribunal Federal) perseguem politicamente figuras da direita brasileira como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na ocasião, auxiliares de Trump foram alertados que Lula enfrentava um mau momento no quesito de avaliação e que uma ação dos EUA poderia enterrá-lo. Na prática, aconteceu o contrário: o petista usou o embate contra Trump como plataforma para se reerguer perante a opinião pública.
Neste momento, o Planalto avalia que Trump tem outra percepção sobre o presidente brasileiro, com pouco receio de que a visita à Casa Branca se torne uma armadilha semelhante à feita contra o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski. Em 2025, ele foi constrangido em público após um encontro com o mandatário dos EUA.
Aliados de Flávio Bolsonaro disseram à Folha ter informado a Casa Branca sobre falas de Lula contra Trump e alertado sobre o que consideram ser uma grave atuação de organizações criminosas no Brasil.
O grupo prefere aguardar e observar, pois considera que a natureza imprevisível de Trump dificulta prever se ele fará da agenda com o petista algo positivo ou negativo para o mandatário brasileiro.
O Planalto avalia que este é um momento crucial para o encontro, pois a partir de junho Lula deve se dedicar mais à pré-campanha. No início do ano, havia preocupação de uma visita coincidir com a guerra do Irã, que começou em fevereiro. Agora, a avaliação é que a agenda tem chances de acontecer diante da expectativa do anúncio de um acordo de paz ou trégua.
A gestão petista também enxerga uma oportunidade político-eleitoral na agenda. A ideia é mostrar que Lula, a despeito de se colocar ideologicamente contrário a Trump, consegue sentar e conversar como chefe de Estado que deseja colocar a boa relação comercial e a diplomacia à frente das divergências.
O governo Lula e a gestão Trump têm negociado continuamente desde a conversa dos presidentes em outubro do ano passado, realizada na Malásia, mas a nova agenda vinha sendo postergada diante da necessidade da resolução de impasses comerciais.
Agora, Lula tem também novos objetivos práticos com a viagem. Um deles é a proposta brasileira para cooperação em segurança pública, que inclui colaboração no combate ao tráfico de armas e lavagem de dinheiro. Também pode estar em discussão a cooperação com terceiros países da região.
O governo brasileiro tenta evitar que os EUA anunciem a designação do CV e do PCC como organizações terroristas. Na visão do governo Lula, a designação abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro. O governo teme ainda a exploração política do tema pelos bolsonaristas durante a campanha eleitoral.
Outro tema em evidência para o encontro são as terras raras. Os EUA demonstraram interesse em explorar os minerais críticos brasileiros, e Lula pediu celeridade para o projeto que regulamenta essa atividade em solo nacional. O texto entrou na pauta da Câmara nesta quarta-feira (6).
O governo brasileiro também estabeleceu como tema prioritário a investigação da Seção 301 contra o Brasil. Por meio dela, o governo norte-americano pune práticas comerciais estrangeiras consideradas injustas ou restritivas aos interesses do país. O Planalto quer apresentar documentos que mostrem a boa relação comercial entre Brasília e Washington.

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