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Horizonte de possibilidades em um cenário de instabilidades

Se a vigência provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia começar, de fato, em 1º de maio de 2026, como já anunciaram oficialmente o governo brasileiro e o próprio Mercosul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul poderão ingressar em uma nova etapa de inserção internacional. Não se trata apenas de vender mais para os países da União Europeia. Trata-se de atuar em uma área econômica que reúne cerca de 720 milhões de pessoas e mais de US$ 22 trilhões de PIB, em um momento em que o comércio mundial volta a ser impactado por protecionismo, insegurança logística e rivalidades geopolíticas.

O tarifaço promovido pelo presidente norte-americano, Donald Trump, ao longo de 2025, as instabilidades no Estreito de Ormuz e o prolongamento da guerra na Ucrânia são sinais de que o comércio global ficou mais caro, mais complexo e mais arriscado. Nesse contexto, o acordo com a União Europeia passa a ser, para o Brasil e, em especial, para a região Sul, menos uma aposta abstrata no livre comércio e mais uma estratégia concreta de diversificação de risco.

A melhor forma para entender isso é por meio da interdependência complexa, uma abordagem teórica das Relações Internacionais. Em vez de imaginar o comércio apenas como troca de mercadorias, essa perspectiva permite enxergar que cadeias produtivas, regras sanitárias, compras públicas, propriedade intelectual, padrões técnicos, investimentos, serviços, pesquisa e cooperação regulatória estão cada vez mais conectados. A própria Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), ao analisar a política comercial norte-americana de 2025, fala em "interdependência instrumentalizada" e recomenda aos países latino-americanos diversificar parceiros e aprofundar a integração econômica regional. 

Em outras palavras, num mundo em que a dependência pode ser usada como mecanismo de pressão, reduzir a concentração em poucos mercados deixa de ser uma preferência e passa a ser uma necessidade. Para a região Sul, isso é fundamental, porque seus setores mais internacionalizados são justamente os mais expostos a choques externos, como carne, celulose, móveis, autopeças, calçados, químicos e máquinas.

O Paraná poderá passar a exportar soluções industriais ligadas ao agro, à mobilidade e à madeira processada

O desenho do acordo corrobora essa leitura. Pela oferta negociada, a União Europeia eliminará tarifas sobre aproximadamente 95% dos bens que importa do Brasil, enquanto o Mercosul liberalizará cerca de 91% dos bens importados do bloco europeu, com cronogramas distintos conforme os setores. No lado agropecuário, há concessões particularmente relevantes para carnes, frutas, café, açúcar, etanol, mel e milho. No lado industrial, há abertura gradual para autopeças, têxteis e calçados, além de regras de origem, facilitação aduaneira e mecanismos de transparência regulatória que podem reduzir custos indiretos. Isso importa muito porque, em vários casos, o ganho não virá só da queda tarifária. Virá também da previsibilidade. Para uma empresa exportadora da região Sul, saber a trajetória da tarifa, a regra de origem e o padrão técnico exigido pela Europa vale quase tanto quanto a tarifa final.

Nesse sentido, vale um olhar detalhado para cada estado do Sul do Brasil. No caso do Paraná, a oportunidade é particularmente visível porque a União Europeia já é um parceiro de peso. Em 2025, as exportações paranaenses para o bloco somaram US$ 2,46 bilhões, o equivalente a 10,4% das vendas externas do estado, superando mercados como Argentina, Estados Unidos e México. O perfil dessa pauta ajuda a entender por que o acordo pode ter efeito relevante sobre a economia paranaense. O farelo de soja liderou as vendas para a UE, com US$ 950 milhões, seguido por madeira compensada, com US$ 203 milhões, e carne de frango in natura, com US$ 187 milhões.

Mas o dado mais importante talvez seja outro: além do agronegócio, o Paraná já vende para a Europa máquinas de terraplanagem, produtos químicos e partes de motores para veículos. Isso mostra que o estado não entra no acordo apenas como produtor de commodities, mas como território de agroindústria, base florestal e manufatura. O próprio Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) estima que cada aumento anual de 1% nas exportações do Paraná para a UE pode acrescentar R$ 137,5 milhões ao PIB estadual e gerar cerca de 1,1 mil empregos.

Benefícios em três frentes
Por isso, o Paraná tende a ser um dos maiores beneficiários do acordo em três frentes ao mesmo tempo. A primeira é a do complexo agroindustrial do Oeste, especialmente aves e derivados, que podem aproveitar melhor a cota de 180 mil toneladas com tarifa zero para carne de aves no mercado europeu. A segunda é a da indústria de base florestal, sobretudo nos Campos Gerais, que ganha mercado com a combinação entre redução de barreiras e demanda europeia por produtos com maior rastreabilidade e certificação. 

A terceira é a do complexo automotivo e de bens de capital da Região Metropolitana de Curitiba, porque autopeças, químicos e máquinas são segmentos que tendem a ganhar com a desgravação progressiva, com a facilitação de comércio e com maior integração a cadeias transatlânticas de valor. Em termos gerais, o Paraná pode transformar sua posição atual, de grande exportador de alimentos e insumos, numa posição mais sofisticada, de exportador de soluções industriais ligadas ao agro, à mobilidade e à madeira processada.

Acesso mais barato a insumos, componentes e máquinas especializadas: indústria catarinense pode elevar produtividade mesmo quando o efeito do acordo for gradual

Santa Catarina também é um estado que pode se beneficiar, já no médio prazo, com a vigência do acordo. Em 2025, a União Europeia ultrapassou a China como destino das exportações catarinenses, somando US$ 1,3 bilhão e respondendo por 11,1% das vendas externas do estado. Só no agronegócio, as exportações catarinenses para o bloco europeu chegaram a cerca de US$ 765 milhões, alta de 15,4% sobre 2024. Nessa pauta, as carnes de frango e derivados lideraram, com US$ 335,7 milhões, seguidas por madeiras e obras de madeira, com US$ 186,5 milhões, tabaco e derivados, com US$ 99 milhões, e móveis de madeira, com US$ 54 milhões.

Em Santa Catarina, portanto, o acordo conversa diretamente com o aspecto central da economia estadual: proteína animal, madeira, móveis e manufaturas com maior intensidade exportadora. E se depara também com um problema recente: em 2025, setores catarinenses como madeira, móveis e metalurgia sofreram com a elevada exposição ao mercado norte-americano, justamente no ambiente do tarifaço.

É por isso que, em Santa Catarina, o acordo com a UE precisa ser lido como vetor de diversificação, não apenas de expansão. A avicultura e a suinocultura ganham por já operarem com escala, sanidade e produtividade internacionalmente reconhecidas. A indústria madeireira e moveleira ganha por encontrar na Europa um mercado mais sofisticado, menos concentrado e potencialmente mais estável do que os Estados Unidos num ciclo de guerra tarifária. E há ainda um quarto campo, menos lembrado, mas estratégico: a base industrial ligada a materiais elétricos, máquinas, química fina e cerâmica de revestimento.

A Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) sinaliza que o estado tem elevada exposição exportadora em madeira, móveis, materiais elétricos, máquinas e metalurgia. Com a entrada em vigor do acordo, parte desses segmentos ganhará não apenas novas vendas, mas também acesso mais barato a insumos, componentes, máquinas especializadas e padrões tecnológicos europeus. Em um estado cuja indústria é densa e capilarizada, essa combinação pode elevar produtividade mesmo quando o efeito direto sobre exportações for gradual.

Economia diversificada
No Rio Grande do Sul, o acordo se depara com uma economia ainda mais diversificada e ainda impactada pelos eventos climáticos extremos de 2024. Em 2025, a União Europeia respondeu por 12,9% das exportações gaúchas, atrás apenas da China. No primeiro semestre de 2025, entre os dez principais produtos exportados pelo estado estavam fumo, soja, cereais, carne de frango, farelo de soja, celulose, carne suína, polímeros de etileno, partes e acessórios de veículos automotivos e calçados. Esse dado é importante porque mostra que o Rio Grande do Sul não tem uma única possibilidade no acordo. Ele tem várias, como agroindústria, produtos florestais, químicos e polímeros, além de autopeças e veículos. E possui ainda um setor simbólico, o de calçados, que volta ao centro do debate sempre que se fala em abertura comercial, este tão impactado pelo dragão chinês, pelo tarifaço norte-americano e pela própria competitividade interna do Mercosul.

Para o Rio Grande do Sul, os maiores ganhos tendem a aparecer onde a tarifa se soma à diferenciação produtiva. Carnes, tabaco, celulose, autopeças e calçados são exemplos claros. O acordo prevê tratamento preferencial para carne de aves e carne suína, abre espaço relevante para bens industriais e estabelece que têxteis e calçados terão liberalização em até uma década, enquanto autopeças terão desgravação entre sete e dez anos. Isso é especialmente importante para o estado porque sua pauta exportadora já combina tradição industrial e base agropecuária. Além disso, o reconhecimento mútuo de Indicações Geográficas (IGs) protege na Europa produtos brasileiros como os vinhos e espumantes do Vale dos Vinhedos e do Pampa, o que reforça a capacidade gaúcha de disputar nichos de maior valor agregado. Numa economia em que exportar volume continua importante, mas exportar reputação tornou-se decisivo, isso vale muito.

Nichos de maior valor agregado: o reconhecimento mútuo de IGs protege na Europa produtos brasileiros como os vinhos e espumantes do Vale dos Vinhedos

Ainda assim, seria um erro inferir que o acordo é a solução para todos os problemas estruturais da economia gaúcha. Ele também aumenta a concorrência doméstica. Isso vale principalmente para segmentos em que a Europa exporta produtos de maior sofisticação e marca forte. O consumidor brasileiro deverá perceber, ao longo do tempo, preços mais competitivos em vinhos, outras bebidas, azeite de oliva, chocolates, malte e alguns queijos, à medida que as tarifas forem caindo e as quotas forem sendo implementadas.

No caso de bens industriais, a abertura tende a baratear sobretudo máquinas em geral, equipamentos industriais, máquinas elétricas, produtos farmacêuticos, químicos orgânicos, plásticos e máquinas especializadas para determinadas indústrias, itens que já pesam fortemente nas importações brasileiras vindas da UE. O efeito sobre o preço final ao consumidor não será instantâneo nem homogêneo, porque dependerá de câmbio, frete, logística e concorrência no varejo. Mas a direção é clara. O próprio Itamaraty estima, em simulação para o Brasil, redução de 0,56% no nível de preços ao consumidor no horizonte de longo prazo.

Reposicionamento do Sul
Para a região Sul, isso significa duas questões ao mesmo tempo. Para as famílias, em termos microeconômicos, especialmente de renda média urbana, pode haver ampliação de acesso a produtos europeus antes considerados caros ou muito tributados. Para as empresas, sobretudo as industriais, pode haver redução do custo de modernização produtiva por meio da importação de máquinas, equipamentos, fármacos, componentes elétricos, químicos e soluções tecnológicas. Isso ajuda a entender por que inovação, ciência, tecnologia e educação entram no centro da discussão.

O acordo possui seções específicas sobre serviços e investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual, pequenas e médias empresas, barreiras técnicas, desenvolvimento sustentável e facilitação de comércio. Ele amplia segurança jurídica para investidores e prestadores de serviços, abre espaço para integração de PMEs em cadeias globais e preserva, ao mesmo tempo, instrumentos brasileiros de política pública em saúde, tecnologia e inovação. Para estados com universidades de referência, parques tecnológicos, agroindústria intensiva em conhecimento e manufatura sofisticada, como os três do Sul, isso poderá criar um ambiente favorável a joint ventures, a pesquisa aplicada, a laboratórios de certificação e a cooperação empresarial e acadêmica.

No campo de ciência e educação, o efeito será menos imediato, mas não menos importante. A aproximação regulatória, a intensificação dos fluxos de investimento e a maior densidade das cadeias produtivas costumam aumentar a demanda por cooperação universitária, formação técnica, certificação profissional, intercâmbio de pesquisadores e desenvolvimento conjunto de tecnologias. Para Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, isso é particularmente promissor porque os três estados combinam universidades relevantes, centros de pesquisa aplicados, forte presença de cooperativas, sistemas industriais interligados e vocação exportadora. Em vez de pensar educação e ciência como temas externos ao acordo, seria mais correto vê-las como infraestrutura indispensável da nova competitividade regional. Quem souber traduzir exigências europeias em capacitação, laboratório, inovação e rastreabilidade ficará na frente.

É claro que haverá custos de adaptação. Nem todo frigorífico estará pronto para ampliar presença na Europa. Nem toda indústria moveleira ou calçadista conseguirá competir com marcas europeias dentro do mercado brasileiro. Nem toda empresa média saberá operar com as regras de origem, certificações técnicas e exigências de sustentabilidade. Além disso, o contexto internacional segue instável e imprevisível. A guerra na Ucrânia continua afetando rotas e custos logísticos, enquanto a crise envolvendo Irã e o Estreito de Ormuz mantém sob tensão preços de energia, fertilizantes e fretes marítimos. Em outras palavras, o acordo reduz uma parte do risco, mas não elimina o mundo real em que esse risco opera. Ele abre portas, mas não substitui política industrial, inteligência comercial, infraestrutura e a diplomacia corporativa.

No entanto, espera-se um cenário favorável para a região Sul. O acordo Mercosul-União Europeia tende a beneficiar mais os estados que já possuem base exportadora diversificada, densidade industrial, capacidade sanitária, inteligência logística e algum ecossistema de inovação. É exatamente o caso de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O Paraná deve ganhar muito com agroindústria, madeira processada, químicos, máquinas e autopeças. Santa Catarina deve aproveitar proteínas animais, madeira, móveis, materiais elétricos, máquinas e a chance de reduzir dependência dos Estados Unidos.

O Rio Grande do Sul deve combinar ganhos em carnes, tabaco, calçados, autopeças, celulose, vinhos e nichos industriais de maior valor. Para o consumidor, os efeitos mais visíveis virão de importados europeus mais competitivos. Para a economia regional, o ganho mais sensível virá de algo maior: um reposicionamento estratégico da região Sul em mundo em que comércio, tecnologia, investimento e geopolítica são inseparáveis e fundamentais para cadeias de valor cada vez mais competitivas. Obviamente, para além da diplomacia corporativa, também será indispensável a atuação do poder público e dos novos governantes eleitos em outubro para a consolidação deste que será o maior acordo inter-regional de livre comércio da história.

Roberto Rodolfo Georg Uebel é economista, geógrafo e professor de Relações Internacionais da ESPM-SP. Esse conteúdo é parte integrante da edição 352 de AMANHÃ. Acesse a publicação completa gratuitamente.

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