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IA recria o gol mais bonito de Pelé, perdido pelas câmeras em 1959

Na prática, não é só a IA que está recriando o gol de Pelé

Mosaico com imagens do processo de reconstrução do gol  de Pelé, realizado ao longo dos últimos dois anos
Mosaico com imagens do processo de reconstrução do gol de Pelé, realizado ao longo dos últimos dois anos Imagem: Divulgaçã/Google

O projeto levou cerca de dois anos para ser desenvolvido e reuniu um grupo pouco convencional para uma iniciativa de IA: historiadores, jornalistas esportivos, curadores do Museu Pelé, familiares do jogador, pesquisadores do Google DeepMind, testemunhas da partida e nomes como Neymar Jr., Marta e Pepe, ex-companheiro de Pelé no Santos e considerado o único jogador ainda vivo que esteve em campo naquele dia.

Segundo KK Walker, diretora criativa do Google AI e Gemini, a preocupação central nunca foi a tecnologia em si. "Por estarmos visualizando um momento lendário, garantir precisão histórica e autenticidade foi nosso principal objetivo", disse durante a apresentação.

A reconstrução começou longe dos modelos generativos.

A equipe analisou centenas de fotografias, entrevistas, arquivos históricos e relatos sobre o jogo para entender detalhes que iam muito além do lance: como era o estádio da Rua Javari em 1959, como eram os uniformes, que bola foi utilizada naquela partida e como se comportava o público.

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A partir dessa pesquisa, o Google realizou uma reencenação física completa do gol utilizando atletas, atores, diretores e cinegrafistas. Uniformes históricos foram reproduzidos e uma bola semelhante à utilizada na época foi recriada artesanalmente.

O inverso do que sabemos sobre comandos de IA

Os projetos mais sofisticados de IA não começam com prompts, os comandos que damos às ferramentas para gerar algo. Começam com pesquisa, contexto e conhecimento especializado.
Só depois da gravação prática entraram em cena os modelos utilizados para reconstruir o ambiente histórico, gerar novas perspectivas de câmera e preencher elementos visuais que jamais poderiam ter sido registrados em 1959.

Um dos recursos centrais foi uma tecnologia semelhante ao motion capture utilizado no cinema. Os movimentos realizados pelos atletas foram capturados e transformados em estruturas digitais que permitiram reconstruir a ação preservando física, gestual e dinâmica esportiva.

Mas o aspecto mais relevante dessa iniciativa talvez esteja além do futebol.

Durante os últimos anos, o mercado de inteligência artificial concentrou seus investimentos em produtividade, automação e geração de conteúdo. A lógica dominante era produzir mais, mais rápido e com menor custo.

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O projeto apresentado em Cannes aponta para outra direção. Museus, acervos esportivos, arquivos audiovisuais e instituições culturais acumulam milhões de registros fragmentados ou incompletos. Pela primeira vez, existe tecnologia capaz de conectar documentos, imagens, relatos e evidências históricas para reconstruir experiências que antes estavam restritas à memória de poucas pessoas.

O Gol da Rua Javari é apenas um exemplo.

O que o Google apresentou não foi apenas uma demonstração tecnológica. Foi um sinal de que a inteligência artificial também abre uma nova fronteira: a transformação de patrimônio histórico em experiências acessíveis para novas gerações.

IA e patrimônio cultural: uma tendência que ganhou força em 2025 e 2026

O projeto de reconstrução do Gol da Rua Javari não é um caso isolado. Nos principais eventos globais de tecnologia dos últimos meses, a preservação cultural começou a surgir como uma nova frente de aplicação para a inteligência artificial.

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A marca de canetas BIC apresentou, em 2025, um projeto que utilizou inteligência artificial para analisar a obra e os padrões de escrita de William Shakespeare. Criada pela agência VML São Paulo, a iniciativa permitiu gerar novos textos inspirados no estilo do dramaturgo inglês e reacendeu o debate sobre como a tecnologia pode ajudar a preservar e ampliar o acesso a patrimônios literários.

  • Microsoft + Ancient Olympia

Em parceria com o governo da Grécia, a Microsoft utilizou IA, computação espacial e modelagem 3D para recriar digitalmente a antiga Olímpia, permitindo que visitantes visualizem o local como era há mais de dois mil anos. Foi um dos projetos apresentados na última edição da London Tech Week.

Destacada pelo SXSW London, no início de junho, a iniciativa reúne universidades, museus e centros de pesquisa europeus para transformar milhões de mapas, documentos, fotografias e registros históricos em reconstruções digitais navegáveis de cidades ao longo dos séculos.

  • Museus e acervos digitais
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Instituições culturais na Europa e nos Estados Unidos vêm adotando IA para restaurar fotografias, recuperar arquivos audiovisuais deteriorados e ampliar o acesso público a coleções históricas.

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Seguimos aqui no Cannes Lions até o fim desta semana. Na minha próxima coluna, vou trazer uma análise das tendências observadas na premiação, conhecida pelos famosos Leões.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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