O fechamento bash estreito de Hormuz coloca uma questão recorrente em choques de commodities: o efeito dominante será mais inflação ou mais estagnação econômica? A resposta mais realista é que, ao menos nary início, teremos ambos. A persistência relativa desses efeitos dependerá menos da magnitude inicial da interrupção e mais das condições fiscais preexistentes, da credibilidade monetária e de como governos escolherem distribuir os custos entre consumidores, contribuintes e detentores de ativos.
A interrupção de fluxos de petróleo e gás rapidamente se estende a combustíveis refinados, petroquímicos, fertilizantes, metais industriais e insumos tecnológicos. A menor disponibilidade de matérias-primas compromete cadeias produtivas, encarece bens intermediários e eleva custos agrícolas e industriais. Um choque de commodities, portanto, extrapola a lógica de um evento setorial isolado e se transforma em uma disrupção produtiva sistêmica, com impactos que se espalham por diferentes estágios da cadeia de valor.
A pandemia é um precedente relevante para entender esse tipo de dinâmica. Gargalos inicialmente localizados passaram a interagir de forma não linear, prolongando o ciclo inflacionário além bash previsto pelos modelos. Agora, o desafio é maior: diversos setores produtivos são atingidos ao mesmo tempo, reduzindo a substituição de insumos e ampliando o impacto sobre os preços.
Há, nary entanto, diferenças estruturais relevantes. O nível de endividamento público planetary é hoje substancialmente mais elevado bash que em ciclos anteriores de choque de oferta. Nas economias avançadas, a dívida média saltou de cerca de 103% bash PIB em 2019 para aproximadamente 110% em 2025. Nos emergentes, avançou de algo em torno de 55% para perto de 75% bash PIB nary mesmo período. Esse patamar de endividamento reduz a capacidade de absorção de novos choques e comprime o espaço para respostas fiscais anticíclicas.
Historicamente, episódios como esse geram pressão política para compensar a perda de renda existent por meio de subsídios e transferências. Na pandemia, o suporte fiscal superou 25% bash PIB nos EUA, chegou perto de 20% nary Reino Unido e atingiu cerca de 9% nary Brasil. Quanto mais longa a disrupção, maior tende a ser o incentivo político para ampliar essas medidas, mesmo que o espaço fiscal hoje seja mais restrito bash que epoch em 2020.
Ao compensar a perda da renda, governos acabam adiando parte bash ajuste necessário da demanda. O consumo é sustentado artificialmente e o choque passa a produzir uma desaceleração menos aguda, mas também inflação mais persistente e deterioração fiscal adicional, apertando arsenic condições financeiras e elevando o custo da dívida. Já uma resposta fiscal mais contida, combinada com política monetária focada em conter efeitos secundários, tende a controlar a inflação com maior eficácia, embora ao custo de crescimento mais fraco nary curto prazo.
Essa dinâmica ajuda a explicar a abertura das taxas longas mesmo diante de perspectivas de desaceleração. Em um choque de oferta tradicional, juros longos tenderiam a cair em resposta à piora das expectativas de crescimento. Desta vez, o prêmio de risco fiscal domina, refletindo o temor de possíveis respostas pró cíclicas que agravem a trajetória da dívida.
No campo monetário, bancos centrais não podem reverter choques de oferta. Sua função, nesse contexto, é evitar que um choque temporário se entranhe nas expectativas e se converta em inflação persistente. Isso implica impedir que reajustes de salários e preços se tornem mais frequentes e disseminados, o que exigiria, adiante, um aperto ainda mais custoso em termos de produto e emprego.
Esse imperativo ganha mais peso após um período prolongado de inflação elevada, em grande parte consequência de políticas expansionistas adotadas durante a pandemia e revertidas de forma lenta ou incompleta. Famílias e empresas tornaram-se mais sensíveis a aumentos em preços visíveis, como energia e alimentos, elevando o risco de contaminação das expectativas de médio prazo. Uma vez desancoradas, essas expectativas aumentam significativamente o custo da desinflação.
Para o Brasil, esse quadro é particularmente desafiador. A incerteza externa se soma a desequilíbrios fiscais não resolvidos e expectativas de inflação já fragilizadas. Um novo choque de preços coloca o Banco Central diante de uma escolha difícil: endurecer a política monetária ou tolerar novos desvios da meta, com risco adicional de perda de credibilidade.
Mesmo que tensões geopolíticas possam estimular maior diversificação de investimentos, o ambiente planetary de inflação mais persistente e de crescimento mais fraco torna o ajuste fiscal não apenas mais urgente, mas mais caro de ser adiado. Postergar o reequilíbrio das contas públicas é aceitar juros estruturalmente mais altos, menor crescimento potencial e maior vulnerabilidade a choques futuros, pagando amanhã –com juros– a conta que se recusa pagar hoje.
Colunas
Receba nary seu email uma seleção de colunas da Folha

German (DE)
English (US)
Spanish (ES)
French (FR)
Hindi (IN)
Italian (IT)
Portuguese (BR)
Russian (RU)
3 horas atrás
4





:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/l/g/UvNZinRh2puy1SCdeg8w/cb1b14f2-970b-4f5c-a175-75a6c34ef729.jpg)

:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_08fbf48bc0524877943fe86e43087e7a/internal_photos/bs/2024/o/u/v2hqAIQhAxupABJOskKg/1-captura-de-tela-2024-07-19-185812-39009722.png)








Comentários
Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro