No auge da primeira disputa presidencial vitoriosa de Lula, em 2002, o QG petista buscava reagir à campanha do medo alastrada pelo adversário José Serra (PSDB).
O segundo dos três volumes da biografia de Lula assinada por Fernando Morais, 79, que chega às livrarias neste sábado (28) pela Companhia das Letras, mostra bastidores da fórmula encontrada à época pela campanha petista, mas omite de forma proposital um personagem central para a reação: o próprio Morais.
Em um evento de campanha daquele ano, o jornalista subiu ao palanque e leu o poema "O outro Brasil que vem aí", escrito em 1926 por Gilberto Freyre. Lula tomou de Morais a folha de papel com o poema e passou a repeti-lo em discursos de campanha.
O passo seguinte veio com Duda Mendonça, o marqueteiro petista, que adotou o slogan "A esperança vai vencer o medo", inspirado justamente naqueles versos. Era também uma resposta à atriz global Regina Duarte, que havia aparecido no programa de TV de Serra dizendo estar com medo de Lula.
Na passagem do livro que trata disso, aquele que leu o poema diante de Lula é identificado apenas como "orador". Em entrevista à Folha, o jornalista diz ter se incomodado com a possibilidade de aparecer como protagonista e revelou ser o personagem oculto: "Acabei me eliminando".
A biografia de Lula é uma trilogia. O primeiro volume foi lançado em 2021, com uma amarração sobre sua infância pobre e ascensão como sindicalista, com destaque para bastidores inéditos da prisão do petista após condenação na Lava Jato.
Já "Lula: Volume 2" trata do período da derrota nas eleições de 1982 ao Governo de São Paulo até a primeira vitória presidencial, em 2002, passando por Diretas Já, Constituinte, Caravanas da Cidadania, brigas internas no PT e as duras derrotas de 1989, 1994 e 1998.
Se comparado ao volume 1, o 2 é mais relatorial e menos eletrizante. No primeiro volume, Morais segura o leitor com bastidores até então desconhecidos do momento em que Lula é preso e dos 580 dias em que passa no prédio da Polícia Federal em Curitiba.
Já o novo livro se prolonga em relatos nos quais o próprio biografado desaparece por algumas páginas e vira um personagem lateral. É assim ao tratar das Diretas Já, do Plano Real e do governo paralelo do PT na gestão de Fernando Collor.
"É absolutamente impossível você fazer uma história de um cara como Lula sem sair do tronco central da árvore e sair para galhos paralelos. Às vezes são galhos mais longos", afirma o autor.
O leitor deve estar preparado para duas características principais da obra.
Primeiro, a narrativa é clara e objetiva. Mistura contexto e bastidores de uma forma fluida a partir de um texto de um premiado escritor que assina clássicos como "Olga" e "Chatô". Não é um livro para iniciados, e sim para iniciantes. Morais concorda: "Para quem é iniciante e não viveu [o período] talvez seja mais válido".
E Morais foi testemunha de diferentes passagens do livro, como jornalista ou no período como deputado estadual por São Paulo, de 1978 a 1982.
O segundo ponto é que o autor é amigo de décadas do biografado. Por um lado, isso lhe deu uma posição privilegiada de acesso a seguidas entrevistas com Lula. Por outro, dá ao livro um tom mais acrítico, sendo algumas vezes até de defesa direta do personagem central.
Morais afirma que jamais antecipou trechos do livro a Lula e também nunca deixou de publicar algum bastidor para protegê-lo. "Não há nada que eu tenha sabido que não esteja nos dois livros."
No volume 1, por exemplo, Morais evita tratar dos desvios bilionários descobertos pela Lava Jato. No volume 2 passa quase despercebido pelo caso Santo André, escândalo de corrupção que veio à tona após o assassinato de Celso Daniel e que emparedou o partido às vésperas da eleição de 2002.
"Você vai ver que isso tem uma relevância muito pouco significativa na história do Lula e na história do PT", diz o autor sobre a crise na cidade do ABC paulista.
No volume 2, diferentemente do tom mais crítico à imprensa do primeiro livro, Morais destaca o papel dos principais veículos nos anos 1980 e 1990. Cita, por exemplo, o papel da Folha na campanha das Diretas Já e a reportagem exclusiva do jornal sobre a compra de votos para a aprovação da PEC da reeleição sob FHC.
Ao longo de 14 capítulos, o livro ajuda a entender o Brasil dos anos 1990 —um país com cenas chocantes de miséria, antes de ações efetivas de programas de transferência de renda e de contrapartidas em saúde e educação.
O mau humor de Lula aparece em diferentes momentos, assim como o pouco caso dele com a morte de Ayrton Senna em 1994.
"O povão que vai nos nossos comícios e vota no PT quer saber é de futebol, não de Fórmula 1", disse a assessores, segundo o livro, ao reclamar com irritação do adiamento de um comício horas após a trágica morte do piloto.
José Dirceu aparece ao lado de Lula ao longo de quase todo o livro. Jogam entrosados na maioria dos episódios, em especial nas derrotas presidenciais e nas disputas internas do PT. Chamam a atenção, porém, momentos em que eles se atracam.
O primeiro é a fritura de Dirceu na disputa ao governo paulista de 1994. "De certa maneira ele me deixou a ver navios", disse Dirceu a Morais sobre Lula e seu entorno.
O segundo é quando Dirceu é barrado para discursar no carro de som da avenida Paulista após a vitória em 2002. Ao tentar reagir ao veto, ouve a explicação de outro petista: "Não fui eu quem decidiu isso. Foi o Lula".
Para "Lula: Volume 3", ainda sem previsão de publicação, restam os dois primeiros mandatos de Lula (2003-2006 e 2007-2010), a gestão de Dilma Rousseff (2011-2016) e o início da Lava Jato.
E o Lula-3 e as eleições de 2026?
"A minha ideia é acabar o volume 3 com a vitória dele sobre o Bolsonaro [em 2022]. Não tenho nenhum interesse profissional no que está acontecendo [agora], sabe? Absolutamente nenhum."

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