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Óculos inteligentes são usados para 'colar' em provas; entenda

Os óculos inteligentes vêm ganhando espaço no mercado de wearables, mas sua chegada ao ambiente escolar tem despertado preocupações. Casos de estudantes utilizando smart glasses para obter respostas durante provas chamaram a atenção de educadores e instituições de ensino em diferentes países. Equipados com câmeras, microfones, conexão à Internet e recursos de inteligência artificial (IA), esses dispositivos são capazes de acessar informações em tempo real de forma discreta, o que cria novos desafios para a fiscalização de avaliações.

Ao mesmo tempo, especialistas ouvidos pelo TechTudo avaliam que os óculos inteligentes podem ter aplicações voltadas à acessibilidade e ao apoio pedagógico, ampliando o debate sobre o papel da tecnologia na educação. Nesta matéria, entenda como os óculos inteligentes estão sendo usados em contextos educacionais e quais desafios eles podem trazer para escolas, professores e estudantes.

 Divulgação/Ray-Ban Óculos inteligentes como o Ray Ban Meta têm câmera, microfone e outras ferramentas que facilitam a trapaça em exames — Foto: Divulgação/Ray-Ban

Óculos inteligentes são usados para 'colar' em provas; entenda

Capazes de acessar informações em tempo real e até utilizar recursos de inteligência artificial, os óculos inteligentes trazem novos desafios para o ambiente escolar. Confira abaixo os assuntos que serão tratados nesta matéria.

  • Jovens usam smartglasses para colar em sala de aula
  • Como identificar que o jovem está usando um óculos inteligente?
  • Impactos dos óculos inteligentes no processo de aprendizagem
  • Óculos inteligente em sala: uma questão de privacidade
  • Wearables e a sala de aula “do futuro”

Jovens usam smart glasses para colar em sala de aula

Os óculos inteligentes entraram no radar de escolas e instituições de ensino após uma série de casos de fraude em avaliações virem à tona nos últimos meses. Esses dispositivos permitem que usuários fotografem questões e recebam respostas em tempo real de maneira discreta, sem a necessidade de consultar um celular ou computador. Com isso, o fenômeno tem levado autoridades educacionais de diferentes países a rever protocolos de fiscalização e segurança durante provas.

Um dos episódios que mais chamou atenção ocorreu na Coreia do Sul. Segundo relatos da imprensa local, candidatos ao exame de proficiência em inglês (TOEIC) utilizaram óculos inteligentes para realizar o teste. Outro caso recente ocorreu na Universidade Nacional de Taiwan (NTU), que desclassificou um candidato do curso de Medicina após identificar o uso de óculos com IA durante uma prova de admissão.

 Reprodução/THE KOREA HERALD Estudantes durante realização do exame de proficiência em inglês (TOEIC) — Foto: Reprodução/THE KOREA HERALD

Os episódios reforçam a preocupação sobre a dificuldade de detectar dispositivos cada vez mais discretos em ambientes escolares. No Reino Unido, o órgão regulador de qualificações educacionais, OFQUAL, alertou que a rápida evolução de dispositivos portáteis dificulta a identificação de fraudes e cria novos desafios para escolas e organizadores de exames. Já nos Estados Unidos, instituições responsáveis por testes de admissão passaram a restringir o uso de óculos inteligentes em avaliações presenciais.

Como identificar que o jovem está usando um óculos inteligente?

Identificar o uso de óculos inteligentes nem sempre é uma tarefa fácil. Isso porque os wearables têm pequenas câmeras, microfones e alto-falantes embutidos na armação de forma bastante discreta. Mesmo assim, os dispositivos costumam deixar alguns indícios de que estão gravando alguém.

O mais comum é a pequena luz de LEDs próxima à lente, que costuma acender durante gravações e transmissões ao vivo. Além disso, comportamentos atípicos também podem levantar suspeitas, como movimentos frequentes da cabeça para enquadrar objetos, comandos de voz discretos ou interações incomuns com o dispositivo durante uma atividade.

 Divulgação/Ray Ban Câmeras discretas nos óculos inteligentes podem passar despercebidas a um olhar desatento — Foto: Divulgação/Ray Ban

Apesar desses sinais, especialistas destacam que a identificação tende a ficar mais difícil à medida que a tecnologia evolui. Modelos recentes se aproximam cada vez mais da aparência de óculos convencionais, o que reforça os desafios para escolas e instituições de ensino que buscam coibir o uso indevido desses aparelhos em avaliações e ambientes onde a gravação não é permitida.

Impactos dos óculos inteligentes no processo de aprendizagem

O debate sobre o uso de óculos inteligentes nas escolas vai além das preocupações com fraudes em provas. Para o professor e pesquisador Lucelmo Lacerda, doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o principal desafio está na possibilidade de a inteligência artificial assumir tarefas que deveriam ser desempenhadas pelo próprio estudante. Além de facilitar fraudes, os dispositivos podem permitir a gravação de aulas e a realização de atividades com apoio excessivo da tecnologia, o que compromete oportunidades importantes de aprendizagem.

O especialista em tecnologia e pesquisador de tendências Samuel Costa concorda e aponta que entramos na "era do pós-plágio".

"O problema mudou de figura: o aluno não está mais copiando e colando um texto; ele está usando uma câmera invisível para mandar a prova para uma IA responder por ele. Quando você terceiriza o seu pensamento para a nuvem o tempo todo, você atrofia o seu cérebro. Você não desenvolve lógica, não cria memória de longo prazo e não aprende a resolver problemas de verdade. O dispositivo deixa de ser uma ferramenta e vira uma muleta que sabota o profissional do futuro", afirma.

Por outro lado, os óculos inteligentes também podem funcionar como ferramentas de apoio ao ensino. Segundo Costa, eles têm potencial para reduzir a chamada "carga cognitiva" e tornar atividades mais dinâmicas e contextualizadas, especialmente em áreas que envolvem procedimentos técnicos, demonstrações visuais e aprendizado prático.

 Shutterstock Óculos inteligentes também podem funcionar como ferramentas de apoio ao ensino — Foto: Shutterstock

"Imagine você estar aprendendo a consertar uma máquina ou estudando anatomia, e o dispositivo projetar um gráfico 3D ou um manual bem na sua frente, em tempo real, sem você precisar tirar os olhos do que está fazendo para olhar o celular. O ganho de foco e produtividade é gigante", afirma.

Diante desse cenário, os especialistas ouvidos pelo TechTudo defendem que o papel das instituições de ensino não é apenas restringir ou liberar o uso da tecnologia, mas estabelecer regras e estratégias que incentivem seu uso de forma ética, crítica e alinhada aos objetivos pedagógicos. O desafio está em aproveitar os benefícios dos óculos inteligentes sem que eles substituam processos fundamentais de reflexão, construção de conhecimento e resolução de problemas.

Óculos inteligente em sala: uma questão de privacidade

Além das preocupações com cola em provas, os óculos inteligentes também levantam questionamentos sobre privacidade nas escolas. Como os modelos têm câmeras, microfones e conexão à Internet, eles permitem registrar aulas, conversas e atividades escolares sem que professores e colegas percebam.

Para o professor Lacerda, a principal preocupação em relação aos docentes não está necessariamente na privacidade da aula, mas na forma como gravações podem circular fora de contexto. Segundo ele, trechos de explicações, debates ou conteúdos apresentados em situações específicas podem ser compartilhados sem o devido contexto pedagógico, gerando interpretações equivocadas e ampliando a pressão já enfrentada por professores dentro e fora da sala de aula.

Samuel Costa, por sua vez, aponta que o uso de IA para processar conversas e interações em sala de aula coloca em risco a autonomia dos docentes sobre o próprio trabalho. "Para o professor, é uma sensação de vigilância pesada. Na prática, a aula do professor, o método dele e as piadas que ele conta podem ser gravados e processados por uma IA de terceiros sem autorização nenhuma. Ele perde o controle sobre o próprio trabalho", defende.

 Reprodução/Magnific Adoção de tecnologias como os óculos inteligentes pode desestimular a participação de estudantes durante as aulas — Foto: Reprodução/Magnific

A situação se torna ainda mais sensível quando envolve os estudantes. Diferente dos docentes, que atuam em um ambiente coletivo de ensino, alunos podem ter imagens, falas e interações pessoais registradas sem consentimento. Como muitas dessas situações envolvem menores de idade, os riscos de exposição indevida, compartilhamento de dados pessoais e divulgação de conversas que originalmente ocorreram em um contexto restrito ao ambiente escolar existe.

Segundo Samuel Costa, a percepção de estar sendo constantemente monitorado também pode alterar a dinâmica da aprendizagem. O receio de ser gravado pode fazer com que alunos participem menos de debates, evitem fazer perguntas ou se sintam menos à vontade para cometer erros durante o processo de aprendizagem.

"A sala de aula sempre funcionou no improviso, no debate livre, onde as pessoas têm a liberdade de errar sem julgamentos. Quando você coloca um par de óculos cheio de sensores e câmeras ali dentro, essa confiança morre. Ninguém mais quer fazer uma pergunta boba ou debater um assunto mais polêmico com medo de ser exposto ou ter seus dados coletados. Vira um ambiente de desconfiança generalizada", afirma.

Wearables e a sala de aula “do futuro”

Nas últimas décadas, computadores, notebooks e tablets passaram a fazer parte da rotina de muitas escolas, geralmente com uso supervisionado e integrado às atividades pedagógicas. Nesse contexto, os óculos inteligentes surgem como mais um exemplo de wearable capaz de transformar a forma como alunos interagem com conteúdos digitais, oferecendo recursos como tradução em tempo real, acessibilidade e experiências de realidade aumentada.

Entretanto, especialistas divergem sobre o papel que esses aparelhos podem desempenhar na sala de aula do futuro. Para o professor Lacerda, as pesquisas mais recentes têm apontado para um movimento de redução do uso de dispositivos digitais em sala de aula. Segundo ele, diversos sistemas educacionais vêm reavaliando a adoção de tablets, celulares e computadores após resultados considerados abaixo do esperado em aspectos relacionados à aprendizagem e à concentração dos estudantes.

 Reprodução/Human Ware Pesquisa da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos Estados Unidos, investiga o potencial dos óculos inteligentes no ambiente educacional — Foto: Reprodução/Human Ware

Por outro lado, Samuel Costa avalia que os óculos inteligentes têm potencial para se tornarem tão comuns quanto os notebooks são hoje. Ele destaca que recursos de IA e acessibilidade já estão sendo utilizados em iniciativas educacionais no Brasil, especialmente para auxiliar estudantes cegos ou com baixa visão na leitura de materiais didáticos.

Um exemplo é o programa Óculos Amigo, que fornece dispositivos inteligentes, como o OrCam MyEye, para ajudar os alunos a ler textos, identificar cores, reconhecer rostos e cédulas em tempo real. Desde a sua implementação, o Óculos Amigo beneficiou mais de 147 alunos da rede pública de ensino no Paraná com cegueira total.

A discussão ganha ainda mais relevância diante da lei brasileira nº 15.100/2025, que restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes durante aulas, recreios e intervalos na educação básica, com exceções para finalidades pedagógicas, acessibilidade e condições de saúde. Embora os óculos inteligentes não sejam mencionados explicitamente na legislação, a popularização desses dispositivos deverá ampliar o debate sobre quais tecnologias podem fazer parte da escola do futuro e sob quais condições seu uso será permitido.

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