Integrantes da oposição comemoraram a decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes de mandar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para a prisão domiciliar, mas temem as consequências que isso possa trazer à campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.
Líderes do centrão e da direita avaliam que, em casa, Bolsonaro terá mais condições de fazer articulação política —apesar de estar com limitações de visitas— por estar mais confortável e poder conversar diariamente com o filho, que se tornou seu advogado.
Por outro lado, há a preocupação de que o ex-presidente amplie a interferência na campanha de Flávio —e a influência sobre o filho— e acabe dificultando a formação de acordos sinalizados pelo senador. Integrantes de partidos de direita também temem que Bolsonaro se exceda nas conversas políticas e dê alegações para que Moraes resolva determinar novamente sua prisão.
Bolsonaro está internado no DF Star, em Brasília, com um quadro de broncopneumonia. A previsão é que tenha alta e volte para casa na próxima sexta-feira (27). Ele tem um longo histórico de complicações de saúde, que começaram em 2018, quando foi alvo de um ataque a faca. A situação levou Moraes a conceder a prisão domiciliar nesta terça-feira (24), por um prazo inicial de 90 dias.
A decisão permitirá que Bolsonaro, após receber alta hospitalar, não retorne à Papudinha, onde cumpria a pena de 27 anos e três meses de prisão. Ele foi condenado pelo STF por tentativa de golpe de Estado, sob a acusação de liderar uma trama para permanecer no poder. Aliados pressionaram Moraes pela concessão da prisão domiciliar, alardeando risco à vida do ex-presidente.
A avaliação no centrão é de que, em casa, Bolsonaro poderá ser mais bem informado sobre o andamento das eleições deste ano. Esse grupo entende, também, que a domiciliar amplia a influência de Michelle Bolsonaro no clã. Somente a ex-primeira-dama e os médicos terão acesso irrestrito ao ex-presidente.
Flávio, ao se colocar como advogado de Jair, poderá visitar o pai diariamente, mas somente em horário comercial, de segunda a sexta. Ele precisa agendar antes os encontros, que podem durar no máximo 30 minutos. Aos sábados, como filho, ele também pode encontrar Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, aliados temem uma intervenção desmedida de Bolsonaro nos ramos da campanha. A primeira repercussão prática seria o risco de Moraes mandar o ex-presidente de volta ao regime fechado, sob alegação de descumprimento de medidas restritivas.
"Bolsonaro está proibido de usar celular, telefone ou qualquer outro meio de comunicação externa, direta ou indiretamente, por intermédio de terceiros. O descumprimento das regras implicará a revogação da prisão domiciliar e o retorno ao regime fechado ou, se necessário, ao hospital penitenciário", informou o STF sobre a decisão de Moraes.
O segundo temor é que Bolsonaro tente atuar politicamente sob forte influência de Michelle, num momento em que Flávio se consolidou como candidato da direita, construindo acordos nos estados. A ex-primeira-dama era vista como alternativa de vice numa chapa com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) concorrendo à Presidência, mas o senador foi o escolhido por Bolsonaro para disputar o Planalto.
A escolha frustrou Michelle, que foi deixada às escuras no processo que culminou no anúncio de Flávio como candidato à Presidência. A ex-primeira-dama, porém, assumiu um papel crucial nos apelos a Moraes pela domiciliar de Bolsonaro, e agora terá acesso singular ao ex-presidente.
Aliados de Michelle reconhecem que ela saiu fortalecida desse processo, pois demonstrou habilidades de conciliação com o STF, um dos principais alvos de Bolsonaro durante seu governo. Mais que isso, avaliam que ela demonstrou habilidade de diálogo que vai além da capacidade de Flávio.
Segundo esses aliados, a ex-primeira-dama será cautelosa para não ganhar mais apatia de pessoas próximas de Bolsonaro que também querem disputar influência sobre o ex-presidente.
A sugestão é que Michelle divida o mérito da domiciliar com o esforço conjunto de parlamentares, que pressionaram o STF pela decisão, e também com o momento delicado vivido pela corte, que se enfraqueceu diante dos escândalos do Banco Master.
Entre aliados do presidente Lula (PT), a avaliação é que o prazo de 90 dias dado por Moraes é estratégico para acompanhar se Bolsonaro vai descumprir as regras da domiciliar para fazer campanha. Petistas com trânsito no Planalto dizem que a decisão não atrapalha a campanha de reeleição.

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