O embaixador do Brasil no Irã, Eduardo Gradilone, disse em comunicado ao Itamaraty que o objetivo de Israel ao atacar um prédio próximo à embaixada iraniana na Síria em 1º de abril foi forçar a sua entrada na guerra em Gaza.
A avaliação foi feita em 3 de abril, 2 dias depois do ataque em Damasco. Israel nunca assumiu a autoria da ação, mas é amplamente aceito que o país foi o autor. O Poder360 teve acesso ao diálogo via LAI (Lei de Acesso à Informação).
Segundo o raciocínio expresso pelo diplomata, eis a sequência de resultados que o governo de Israel vislumbrava obter com o ataque:
- forçar a entrada direta do Irã no conflito contra o Hamas;
- como consequência, forçar uma presença maior dos Estados Unidos no conflito; e
- dar sobrevida política ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com oposição crescente dentro e fora do país.
Eis o trecho da correspondência em que Gradilone expressa o raciocínio:
“Endosso as informações e os comentários feitos por Brasemb [Embaixada Brasileira] Damasco nos tels [telegramas] 90 e 91 daquela missão diplomática. Ressalto os de que Israel estaria fazendo o possível para trazer o Irã para o conflito, com o que praticamente obrigaria os EUA a apoiar mais decisivamente aquele país e seu líder Benjamin Netanyahu, reforçando condições deste de sobrevivência política“, disse. Eis a íntegra (PDF – 19 kB).
Briefing da chancelaria
No dia seguinte, Eduardo Gradilone foi a um briefing com a chancelaria iraniana junto a outros diplomatas. Ele relatou que sua principal surpresa foi com o tom do governo, descrito como “moderado” em contraste com a promessa de “dura resposta” dos discursos oficiais.
“Para quem esperava renovação de ameaças de retaliação e de aplicação de outras medidas vingativas contra Israel, na linha de manifestações das mais altas autoridades do país, o ‘briefing’ de hoje organizado pela chancelaria local, com a presença da maioria dos integrantes do corpo diplomático aqui acreditado, não deixou de surpreender pela moderação, pelo conteúdo jurídico e pelo pedido de que os países que ainda não o fizeram condenem formalmente o atentado“, disse.
A fala foi feita pelo vice-ministro das Relações Exteriores para assuntos jurídicos e internacionais, Reza Najafi. Ele posicionou o Irã como vítima e prometeu uma resposta “responsável” contra Israel. Ele repetiu o raciocínio de Gradilone sobre a suposta sequência de objetivos israelenses com o ataque na Síria.
“Enfatizou várias vezes a necessidade de todos os países se manifestarem repudiando o ato de Israel, caso contrário o silêncio poderia estimular novas medidas ilegais desse país, que passaria a ser ainda mais agressivo. Asseverou que a resposta do Irã seria autorizada e responsável, observando que o propósito de Israel com o atentado seria o de forçar os Estados Unidos a se envolverem no conflito e acobertar os crimes cometidos pelo governo israelenses nos últimos 6 meses, com raptos, genocídios e outros crimes contra a humanidade, resultantes na morte de cerca de 32 mil palestinos, a maioria compreendendo mulheres e crianças“, disse Gradilone no comunicado.
Retaliação
Em 13 de abril, o Irã lançou um ataque retaliatório contra Israel. Usou drones, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos –esses últimos mais rápidos e potentes.
Segundo Israel, foram mais de 300 artefatos, sendo que 99% teriam sido abatidos. A defesa israelense contou com a ajuda de Estados Unidos, França, Inglaterra e Jordânia.
A assessoria de comunicação do Itamaraty foi procurada para falar sobre a avaliação a respeito da guerra em Gaza, mas não respondeu aos pedidos deste Poder360 até a publicação desta reportagem.

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