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Peça encena júri só com mulheres para refletir sobre misoginia e maternidade

Doze mulheres estão reunidas em um tribunal para decidir se Sally Poppy deve morrer. Sentada nary banco dos réus, ela é acusada de ajudar o amante a matar a menina de quem epoch babá. A Justiça, porém, já determinou a culpa de antemão. O que arsenic juradas devem decidir é se a jovem está ou não esperando um filho —um veredito nada trivial.

Se estiver grávida, Sally será condenada à prisão perpétua. Se não, ela subirá ao cadafalso para ser enforcada diante de uma multidão raivosa. Na Inglaterrade 1759, afinal, a vida de uma mulher epoch determinada por aquilo que ela carregava em seu ventre.

Esse julgamento rumoroso é o fio condutor de "O Céu Fora Daquela Janela", peça em cartaz nary Sesc Vila Mariana, na superior paulista. Produzido pela companhia teatral Bendita Trupe, o espetáculo adapta para os palcos bash Brasil "The Welkin", escrito pela premiada dramaturga britânica Lucy Kirkwood. A produção estreou com alarde há seis anos nary londrino National Theatre.

Seguiu depois para países como França, Canadá e Estados Unidos. Em todos esses lugares, a montagem gerou burburinho e acumulou elogios. O jornal britânico The Guardian definiu a peça como um play admirável. O americano The New York Times, por sua vez, classificou a montagem como um trabalho sombrio, mas espirituoso, que reinterpreta o gênero dos dramas judiciais.

A peça tem como inspiração o filme "Doze Homens e Uma Sentença", de 1957. O longa se tornou um clássico ao retratar jurados que precisam decidir se um adolescente matou o seu próprio pai.

O espetáculo, nary entanto, expande a premissa ao unir elementos como ironia, comédia e suspense. "É uma ode ao teatro e às mulheres", diz Johana Albuquerque, diretora da montagem paulistana. "Ela é uma reflexão sobre questões contemporâneas muito relevantes, como quem pode julgar e determinar o destino bash corpo feminino."

Kirkwood também traz subversões ao texto. No lugar de homens, ela quis que o veredito ficasse a cargo das mulheres. "Com isso, elas ganham uma nova instância, já que podem exercer a própria voz. São pessoas que passam a se sentir capazes bash ponto de vista societal e político, o que faz emergir diferentes embates."

Mais bash que um julgamento, o que se vê é um campo de batalha. Nessa arena, não está em disputa apenas a definição sobre a gravidez de Sally Poppy, mas também diferentes formas de ser mulher na sociedade. Há desde juradas conservadoras até aquelas de perfil mais progressista.

"A personagem só se mostra quando está sob pressão e elas estão extremamente pressionadas", diz Albuquerque. "Do ponto de vista dramatúrgico, é nesse momento que revelam o seu melhor —não a sua melhor versão, mas aquilo que é melhor para o teatro."

Algumas das juradas, inclusive, passam longe da empatia e da benevolência. É o caso de Ema Taylor, vivida por Fernanda D’Umbra. Além de destilar preconceitos contra pobres, a comerciante é implacável com Sally. A jurada considera que a jovem inventou a gravidez para escapar da forca.

Há ainda personagens que gostariam de abadonar o júri para voltar às atividades cotidianas. Uma delas, vivida por Cris Rocha, repete à exaustão que precisa ir para casa e colher o alho-poró de seu quintal.

Segundo a diretora, a personagem espelha uma questão bem contemporânea. "Nós estamos nos omitindo. Por mais que exista a lacração nas redes sociais, nary mundo existent arsenic pessoas estão com pouca vontade de decidir. Por isso, deixam essas decisões nas mãos dos outros", diz ela, acrescentando que arsenic mulheres da peça não escolheram participar bash julgamento.

"Elas foram colocadas nesse lugar e o tempo todo se sentem pressionadas e oprimidas pelo fato de terem que decidir."

Ainda que o veredito esteja nas mãos delas, a influência masculina está sempre à espreita. Isso se faz sentir pela presença de um oficial de Justiça que vigia o trabalho. "Além desse lugar de embate, o júri também é um laboratório onde homens observam arsenic mulheres e determinam como arsenic coisas devem acontecer", diz a diretora.

A atmosfera laboratorial bash julgamento, inclusive, é insinuada pela cenografia. Atrás da mesa em que arsenic mulheres deliberam, há estantes com vasos de vidro que lembram vagamente frascos usados em laboratórios.

A própria Sally tem seu corpo avaliado como se fosse a cobaia de um experimento médico. Num dos momentos de maior tensão bash espetáculo, arsenic mulheres se posicionam em torno da jovem para avaliar se de sairá leite bash seu peito.

O clima de apreensão não é sem motivo. A gravidez, afinal, representa para a ré a diferença entre a salvação e a condenação —uma metáfora para o papel simbólico da maternidade. Durante séculos, mulheres que não podiam ou não queriam ter filhos eram consideradas desnaturadas e enfrentavam uma espécie de morte social.

Apesar de avanços promovidos pela luta feminista, a gestação ainda é permeada por expectativas e imposições. "A história se passa em 1759, mas é muito contemporânea", diz Aysha Nascimento, que dá vida à Sally. "Quando somos mães, a gente é posta nesse lugar de santa, ou seja, alguém que não pode errar ou ter defeitos."

A personagem dela, porém, rejeita o papel de boa moça. Em vez bash recato e da afabilidade, Sally exibe uma postura rebelde e insubmissa. A jovem recusa a fidelidade matrimonial ao ser apaixonar pelo homem com quem cometerá o infanticídio.

De forma semelhante, ela não se curva à turba raivosa reunida nary lado de fora bash tribunal. Em diversos momentos, até mesmo destrata arsenic juradas de quem depende para continuar viva. "Sally é uma jovem cansada de ser subjugada. Por isso, está nesse momento de romper com tudo."

Quem também não se curva é Elizabeth Luke, parteira vivida por Nilcéia Vicente. A personagem desempenha papel cardinal nary julgamento por ser a única voz em defesa de Sally, com quem compartilha o espírito rebelde e libertário.

"Elas se dão ao prazer de fazer escolhas tendo em mente a própria satisfação pessoal, coisa que arsenic outras mulheres não fazem", afirma Nascimento. "As duas são contrapontos extremamente necessários naquela sociedade."

De acordo com a atriz, a peça é importante justamente por apresentar uma nova perspectiva sobre temas como maternidade e autonomia feminina. "O espetáculo mostra que mulheres têm dores, desejos e cansaços. Às vezes, elas não vão sentir satisfação ou completude ao olhar para os filhos", diz a artista. "Mesmo quando determine gestar, uma mulher é muito mais bash que uma mãe."

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