Fausto Machado Freire e Marco Antonio Meyer, dois integrantes do grupo, haviam sido presos clandestinamente tempos antes. Sem confirmação oficial sobre o destino deles, os militantes temiam que ambos desaparecessem sob custódia do Estado. O sequestro poderia ser usado para chamar a atenção para a situação dos militantes.
Outro objetivo era retirar do país Marília Guimarães, mulher de Freire e também militante da organização. Professora e dona de uma escola no subúrbio do Rio, ela já vivia na clandestinidade com os dois filhos pequenos e corria risco de prisão. Ela utilizava o mimeógrafo do estabelecimento para fazer panfletos políticos, o que chamou a atenção dos militares.
A decisão do grupo foi levá-la para Cuba, destino de vários exilados políticos naquele período. Para isso, os militantes decidiram sequestrar um avião comercial brasileiro em Montevidéu, aproveitando a menor vigilância aeroportuária da época.
Participaram da operação:
- Cláudio Galeno de Magalhães Linhares
- James Allen da Luz
- Athos Magno Costa e Silva
- Nestor Herédia
- Isolde Sommer
- Marília Guimarães (que estava acompanhada dos dois filhos, Marcello e Eduardo)
Galeno era um dos coordenadores da organização no sul do país e havia sido o primeiro marido da ex-presidente Dilma Rousseff, de quem já estava separado havia cerca de dois anos na data do sequestro.
O voo
O alvo escolhido foi o voo 114 da Cruzeiro do Sul, operado por um jato Caravelle que partiu de Montevidéu (Uruguai) com destino ao Rio de Janeiro. A decolagem ocorreu na noite daquele 1º de janeiro.
Pouco depois que o avião deixou o aeroporto, um dos integrantes da VAR-Palmares a bordo correu armado até a cabine para anunciar o sequestro. Em seguida, leu um manifesto político explicando as motivações da ação.
Sem autonomia de combustível para chegar diretamente a Cuba, o avião precisou iniciar uma sequência de escalas pelo continente. A primeira parada não foi no Brasil conforme planejado, e o voo foi desviado para Buenos Aires (Argentina), onde dois passageiros idosos foram autorizados a desembarcar.
Após reabastecer, o Caravelle seguiu para Antofagasta, no norte do Chile.
O impasse em Lima
A escala seguinte ocorreu em Lima, no Peru, onde a operação enfrentou um imprevisto. Uma pane na bateria provocou falha elétrica e impediu a partida do avião.
O Caravelle permaneceu cerca de 27 horas no aeroporto. Durante esse período, a aeronave ficou cercada por militares, jornalistas e curiosos que acompanhavam o desenrolar da crise.
Autoridades peruanas tentaram negociar a rendição do grupo. Os sequestradores recusaram a oferta. O problema técnico acabou resolvido apenas quando baterias novas foram enviadas do Chile para substituir a defeituosa.
Com o reparo concluído e as negociações fracassadas, o governo peruano autorizou a decolagem em 3 de janeiro. O avião seguiu então para o Panamá.
EUA de olho
A chegada à Cidade do Panamá ocorreu sob forte tensão política. Na época, os Estados Unidos mantinham presença militar dominante na região, com relatos de que acompanharam o avião durante a escala.
O ambiente também gerou pressão sobre os tripulantes. Autoridades teriam chegado a sugerir uma ação para tentar retomar o controle do avião, mas a ideia não avançou.
Após algumas horas no solo panamenho, o Caravelle foi novamente reabastecido. A aeronave decolou para a última etapa da viagem.
Chegada a Cuba
Depois de quase dois dias de deslocamento pelo continente, o avião finalmente pousou no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana. Com isso, terminava o sequestro aéreo mais longo registrado durante a ditadura militar brasileira.
Ao todo, a operação durou cerca de 47 horas desde a decolagem inicial. Para os integrantes da VAR-Palmares, a missão havia sido cumprida. Marília Guimarães e seus filhos permaneceriam em Cuba como exilados políticos.
O pós-sequestro
Após o desembarque, passageiros e tripulantes passaram por interrogatórios das autoridades cubanas antes de serem autorizados a retornar ao Brasil. A aeronave também permaneceu alguns dias em Havana até que fossem resolvidas questões diplomáticas para seu retorno.
Entre os sequestradores, alguns viveram anos no exílio e só retornaram ao país após a Lei da Anistia de 1979. Marília viveu com os filhos em Cuba e retornou ao Brasil anos depois.
O episódio também teve consequências para integrantes da tripulação. Alguns relataram dificuldades profissionais e suspeitas injustas após o retorno ao Brasil, reflexo do clima político da época.
História virou série
Em maio, estreia a série "Caravelle 114", escrita e dirigida por William Biagioli. A produção reconstrói a história do sequestro em quatro episódios e irá ao ar no Canal Brasil.
A obra é ficcional, mas é baseada na história real, incluindo a protagonista, Miriam Gonçalves, personagem dividida entre as tensões da militância, maternidade e sobrevivência.
A obra foi filmada no Paraná e contou com a reconstrução de um avião em Morretes. O elenco tem nomes como Camila Carneiro, João Campos, Bela Leindecker, André de Oliveira, Joelson Medeiros e Edson Bueno.
"Mais do que um sequestro, esta é uma história sobre coragem, audácia e amizade entre quem inventa um caminho quando não há nenhum. 'Caravelle 114' foi feito para lembrar que houve ditadura e que houve quem a enfrentasse com tudo o que tinha", diz o diretor William Biagioli.
Reportagem
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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