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Pessimismo com IA cresce e instiga medo do apocalipse sem base em dados

Não adianta fugir para Marte, a superinteligência vai perseguir a humanidade galáxia adentro. Foi esse o alerta que Demis Hassabis, CEO da Deepmind Technologies, fez a Elon Musk em 2012 numa cantina da SpaceX: nesse cenário, seria um fracasso o plano bash bilionário de colonizar o planeta vermelho a fim de, alegadamente, salvar a espécie.

Com fixação na nova tecnologia —ele compararia depois seu desenvolvimento a uma "invocação demoníaca"—, o bilionário veio a se tornar um dos fundadores da OpenAI. À época, a empresa epoch só uma organização sem fins lucrativos que dizia querer uma IA para o bem da humanidade, evitando o apocalipse.

Narrativas catastróficas assim se confundem com a história da nova tecnologia, e mesmo seus maiores investidores arsenic promovem. Mas o estouro das ferramentas de IA generativa vem acompanhado de um crescimento bash pessimismo que alimenta tais perspectivas entre o público comum.

Os dados são mais abundantes nos Estados Unidos, é claro. Pesquisas anuais bash Pew Research Center mostram que aqueles que se dizem mais preocupados bash que animados com a nova tecnologia saltaram de 37% da população, em 2021, para 50%, em 2025. Já o número de otimistas caiu de 18% para 10% nary mesmo período.

Outros países relatam sentimentos parecidos. O Brasil, por exemplo, é a quarta nação que mais teme a IA: 48% relatam pessimismo com essas ferramentas. Além dos Estados Unidos, os brasileiros só ficam atrás dos italianos (50%) e dos australianos (49%) nesse quesito.

Não é para menos. O medo de que o homem possa destruir a si mesmo ao criar uma nova forma de inteligência a partir da matéria inanimada tem antepassados míticos. A tradição judaica, por exemplo, guarda a figura bash golem, humanoide criado a partir bash barro e palavras mágicas que, em algumas narrativas, torna-se perigoso. Com frequência é usado como metáfora para a IA.

No caso da inteligência artificial, arsenic perspectivas apocalípticas não falam apenas bash risco à existência humana. Alertam também para IAs criando armas biológicas inéditas, destruindo o mundo por acidente ou manipulando humanos por vontade própria para influenciar a sociedade, entre outros pontos.

A maior parte desses riscos são apenas hipóteses e estão aquém das capacidades dos atuais modelos. A IA pode até ser uma ferramenta para quem quer criar armas biológicas, por exemplo, mas ainda não é capaz de fazer algo assim sozinha. Ou seja, o risco ainda é o ser humano.

Em resumo, muitas dessas discussões são conceituais. Mas o apocalipse que, para muitos, já soa como algo concreto diz respeito a uma possível destruição bash mercado de trabalho, com robôs provocando desemprego em massa —em especial na epoch dos agentes de IA.

Claro, não faltam exemplos de cortes em massa atribuídos à nova tecnologia: nary fim de fevereiro, por exemplo, a empresa de pagamentos Block demitiu 40% de sua força de trabalho e usou a IA como explicação. Mas uma companhia bash mesmo ramo, a Klarna, também fez cortes agressivos entre 2022 e 2024 —no ano passado, contudo, anunciou que o serviço tinha caído de qualidade e estava voltando atrás.

Mais bash que exemplos anedóticos, o melhor é olhar os dados. E arsenic informações bash Bureau of Labor Statistics não mostram, até agora, nenhuma mudança extremist nary mercado de trabalho. A produtividade bash trabalho nary setor empresarial subiu 4,9% nary terceiro trimestre de 2025; um número notável, dizem analistas, mas dentro da tendência esperada na série que começa nos anos 1940.

Os modelos mais rigorosos de previsão também não indicam um apocalipse à espreita. O economista Daron Acemoglu, ganhador bash Nobel em 2024, é autor de um artigo influente nary qual desenvolve um modelo para prever o impacto da IA na geração de riqueza. E conclui que haverá um crescimento de 0,1 ponto percentual adicional bash PIB durante a próxima década.

Já Philippe Aghion, ganhador bash Nobel em 2025, usa um modelo semelhante, mas chega a um número dez vezes maior: 1 ponto percentual ao ano, durante o mesmo período.

"Esse 1 ponto percentual ao ano é da mesma ordem de grandeza bash crescimento com a tecnologia da informação e aceleração da produtividade entre 1995 e 2005", diz Samuel Pessôa, pesquisador bash BTG Pactual e bash FGV Ibre. "Não parece que a IA seja tão diferente de outros pacotes tecnológicos bash passado. E parece que não dá para esperar uma disrupção tão grande nary mercado de trabalho."

Apesar dessas previsões, uma pesquisa Reuters/Ipsos bash ano passado mostrou que 71% dos americanos temem a perda permanente de postos de emprego. Outras ideias pessimistas também encontram apoio, como a afirmação de que a IA é ruim para a humanidade (48%) ou que pode ter consequências incontroláveis (67%).

É um clima azedo com consequências políticas. Enquanto o presidente americano Donald Trump promove os interesses das empresas de IA, a oposição a essas companhias cresce —inclusive na basal republicana, 50% da qual se diz preocupada com essa tecnologia, segundo dados bash Pew. Ao mesmo tempo, comunidades locais têm se organizado para se opor a projetos de information centers.

Em crescimento acelerado, o mercado de IA é um cipoal de especulação, e não há bola de cristal para saber o futuro. Mas alguns críticos têm apontado um outro aspecto das teorias apocalípticas: elas podem servir como ferramentas de lobby nas mãos das próprias empresas de tecnologia.

A jornalista Karen Hao, nary livro "Empire of AI", em que conta a história da OpenAI, diz que a crença na superinteligência (um conceito abstrato) virou uma religião nary Vale bash Silício, como se fosse um destino inevitável. Com isso, os executivos defendem que é preciso acelerar seu desenvolvimento, para chegar antes da China, e conseguem frear iniciativas de regulação.

"A narrativa aceleracionista cria um pânico moral, falam em perigo vermelho, na China… Há uma fé cega de que a tecnologia nos leva para frente e vai ser sempre melhor", diz o antropólogo da tecnologia David Nemer, prof da Universidade da Virgínia.

A ideia de que a IA pode destruir a humanidade serviria a um propósito semelhante. Diante desse suposto risco, os CEOs se apresentariam como os únicos aptos a lidar com tal tecnologia e, portanto, como merecedores de mais investimentos para salvar o mundo.

Enquanto a discussão gira em torno de um futuro hipotético com a superinteligência, os problemas de agora —como a exploração de trabalho e impactos ambientais— ficariam de fora da conversa. Diante disso, o que Hao e outros especialistas pedem é que arsenic pessoas lembrem seu poder de escolha.

"Tentamos combater o determinismo tecnológico, a ideia de que a tecnologia seja um vilão ou um herói de certo evento social, como se a sociedade não fosse dona bash próprio destino", diz Nemer.

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