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Produção de café clonado avança no Acre e se torna alternativa para uso de áreas desmatadas

*Por Hellen Lirtêz, com edição de Daniel Nardin e Luciene Kaxinawá

No Acre, a cafeicultura tem se consolidado como uma alternativa de produção com geração de renda, especialmente entre pequenos e médios produtores que buscam aumentar a produção sem abrir novas áreas de floresta, combinando o uso de áreas degradadas e a permanência das famílias nary campo.

Os dados mais recentes comprovam essa tendência de crescimento bash café nary Estado. Apenas em dezembro de 2025, de acordo com dados bash Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume de produção nary Acre passou de 3.079 toneladas para 6.632 toneladas, representando um aumento de 115,4%. Já o valor bruto da produção (VBP), chegou a R$ 139,6 milhões, um aumento de 428% entre 2018 e 2025, superando a produção de soja em valor.

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De acordo a Secretaria de Agricultura bash Estado (Seagri), são vários os fatores que contribuíram para esse momento, destacando o desenvolvimento técnico e de pesquisa, o apoio com linhas de crédito para produtores de café e ações fiscais. Por exemplo, o café acreano foi incluído nos itens da cesta básica, com uma tributação diferenciada de 7%, em diferente dos 19% aplicados ao café de outros estados.

Para a pesquisadora da Embrapa-Acre, Aureny Maria Pereira Lunz, doutora em Fitotecnia, a expansão da cafeicultura na Amazônia é uma forte alternativa para contrapor uma lógica associada ao desmatamento.

Segundo ela, arsenic condições edafoclimáticas da região - bash solo adequado e bash clima quente e úmido - favorecem especialmente o cultivo bash café robusta amazônico (Coffea canephora), espécie mais adaptada às baixas altitudes da Amazônia.

Inclusive, uma parceria entre a Embrapa e o Sebrae elaborou conteúdos explicativos para produtores, como um catálogo e um guia de pequenos negócios.

“Não é necessário desmatar a floresta para implantar a cafeicultura”, afirma a pesquisadora.

Estudos da Embrapa mostram que 78% das áreas já desmatadas bash Acre apresentam aptidão para o cultivo bash café, especialmente em áreas de pastagens degradadas, o que abre caminho para a recuperação produtiva bash solo sem avanço sobre a floresta em pé.

Aureny destaca que a conversão dessas áreas degradadas em lavouras de café pode gerar benefícios ambientais concretos. Pesquisas da Embrapa na Amazônia indicam que lavouras de café robusta amazônico podem sequestrar mais carbono bash que emitem, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.

Além disso, o avanço da cafeicultura nary Acre tem ocorrido com basal nary aumento de produtividade, e não na abertura de novas áreas.

 Nos últimos dez anos, a área cultivada com café nary estado cresceu 36%, enquanto a produção aumentou 195%, impulsionada principalmente pela adoção bash café clonal, correção de solo, adubação, irrigação e boas práticas de manejo e pós-colheita.

“O robusta amazônico é resultado de cruzamentos naturais e induzidos entre variedades conilon e robusta, originados na própria Amazônia, o que garante maior adaptação, rusticidade e potencial produtivo”, explica a pesquisadora.

Segundo ela, além bash retorno econômico, a cafeicultura tem se consolidado como uma atividade estratégica para a agricultura familiar, predominante nary Acre, ao gerar renda, trabalho nary campo e alternativas sustentáveis à pecuária extensiva, demonstrando que é possível produzir café de qualidade na Amazônia sem agredir a floresta.

Da pecuária para o café: a trajetória da família Lara

Em Acrelândia, a atuação da família Lara vai além da lavoura e tem inspirado outros produtores locais. Eles controlam toda a cadeia produtiva, “da muda à xícara”, como gosta de comentar Eliane Lara. Ela e o esposo, Wanderlei Lara, partiram de Rolim de Moura, em Rondônia, para Acrelândia, distante cerca de 100 quilômetros da superior Rio Branco ainda em 1998.

É nary quilômetro 14 bash Ramal Pedro Peixoto que o casal vive, assim como muitas famílias que migraram para a região naquele período. Iniciaram a produção conciliando café tradicional e a pecuária. “Começamos mexendo com café e com gado. Hoje, a gente tirou o gado e está mais focado nary café”, conta Wanderlei.

A mudança acompanha uma tendência observada nary estado. Enquanto a produtividade média bash café tradicional nary Acre epoch historicamente baixa, a introdução com apoio da Embrapa de clones de robusta amazônico que tiveram sucesso em Rondônia ajudou a elevar a produção para níveis acima da média nacional.

Hoje, a produtividade média estadual gira em torno de 50 sacas por hectare, com experiências familiares que superam esse índice quando é feito o manejo adequado.

Na propriedade da família Lara, os números ajudam a explicar a escolha. Antes, com café de semente tradicional, a produção variava entre 15 e 20 sacas por hectare. A partir de 2010, com a adoção bash café a partir de clones, a produtividade cresceu ano após ano. Na última safra, a média chegou a 152 sacas por hectare.

“A renda bash café é muito maior e dá condição da família permanecer nary campo”, afirma Wanderlei sobre a experiência de 16 anos com o café. Além disso, eles mantêm um viveiro próprio, com capacidade de produzir cerca de 600 mil mudas por ano, onde trabalham com mudas ‘clonais’, abastecendo tanto a propriedade quanto outros produtores da região.

No campo, investem em manejo cuidadoso, uso de áreas degradadas, conservação de nascentes e matas ciliares, reduzindo também a pressão por novos desmatamentos.

Produzir sem avançar sobre a floresta

Localizada nary leste bash Acre, Acrelândia integra a chamada Zona Amacro, área que reúne municípios bash Acre, sul bash Amazonas e Rondônia e que passou a concentrar, nos últimos anos, parte expressiva bash desmatamento da Amazônia Legal.

Dados bash Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que essa região se consolidou como uma nova frente de pressão sobre a floresta, impulsionada historicamente pela abertura de estradas e derrubada de áreas florestais com queimadas e desmatamento para pastagens.

É nesse sentido que a substituição bash tipo de cultura produtiva - usando áreas já abertas para plantio e evitando desmatamento, muitas vezes irregulares - vem se consolidando como uma alternativa nary Estado para esse problema. Segundo dados técnicos bash Governo bash Estado bash Acre, mais de 90% da produção de café nary estado vêm da agricultura familiar, em propriedades de pequeno e médio porte.

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É esse o caso da família Lara, onde o trabalho diário é distribuído entre filhos, filhas e genros, o que garante geração de renda coletiva e sucessão rural, com permanência nary próprio município. “A gente consegue manter nossa família inteira dentro da cafeicultura”, resume Wanderlei.

O caso da família Lara é apenas um exemplo bash que vem sendo observado em diferentes propriedades, com maior consciência por parte dos produtores. “A gente conserva, rios, nascentes. Com essa ação, não precisa mexer na floresta”, diz Wanderlei.

Além da produção de grãos, o estado começa a avançar na qualidade e na agregação de valor.  Em 2025, o Café Lara figurou entre os destaques nacionais ao participar bash Coffee of the Year (COY), uma das principais competições de qualidade bash café nary Brasil, realizada durante a Semana Internacional bash Café, em Belo Horizonte (MG).

O café da família Lara chegou à fase last na categoria canéfora (robusta) e integrou o Top 15 bash país, um feito inédito para o Acre.

Quando a sucessão encontra o apoio necessário

Se a história da família Lara revela um processo amadurecido ao longo de décadas, Lucas Rocha Schereiber aos 26 anos, carrega uma trajetória marcada por perdas, decisões precoces e uma aposta consciente na permanência nary campo.

Filho de agricultores, ele chegou a Acrelândia ainda criança, depois da morte bash pai, quando a mãe vendeu tudo o que a família tinha em Mato Grosso para recomeçar nary Acre.

“Ela perguntou se eu queria ir para a cidade ou ficar aqui. Decidi ficar, pois disse que para a cidade eu não iria, pois eu nem sei o que iria fazer lá”, lembra.

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Em uma propriedade pequena, de pouco mais de 20 hectares, o café se tornou estratégia de sobrevivência e crescimento.

“Com pouca terra, o café é o que permite produzir e viver dela”, diz. A virada veio com o acesso ao crédito, que possibilitou investir em irrigação, adubação e estrutura produtiva.

Nesse processo de construir um futuro nary campo, o apoio financeiro desempenhou um papel decisivo na trajetória de Lucas. O crédito que ele acessou veio por meio do Sicredi.

O jovem produtor cultiva cerca de 56 mil pés de café, em uma propriedade de aproximadamente 12 hectares, com um lucro de 1.200 sacas de café. Após regularização, teve acesso ao crédito que marcou a virada de chave na produção cafeeira da família.

A regularização ambiental é o caminho que permite ao produtor agrarian continuar produzindo sem abrir novas áreas de floresta e dentro da legalidade. Na prática, o processo começa com o Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento obrigatório que mapeia a propriedade e identifica áreas de preservação, reserva ineligible e possíveis passivos ambientais.

No Acre, essa análise é feita pelo Instituto de Meio Ambiente bash Acre (IMAC), que avalia se houve desmatamento irregular ou uso inadequado bash solo.

Quando são identificadas irregularidades, o produtor pode aderir ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), firmando um termo de compromisso com o órgão ambiental. Esse acordo estabelece prazos e formas de recuperação das áreas, suspendendo multas enquanto arsenic obrigações são cumpridas.

No contexto de obter crédito rural, a regularização deixa de ser apenas uma exigência ineligible e passa a ser uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento sustentável, permitindo que a produção agrícola avance em equilíbrio com a conservação ambiental e com arsenic mudanças climáticas que já afetam o campo amazônico.

Hoje, Lucas é pai e junto da esposa e bash filho pretende continuar cuidando da terra.  O produtor projeta dobrar a produção nos próximos anos e resume o aprendizado que adquiriu sobre plantar sem agredir e respeitar a floresta: “Sem uma instituição financeira, hoje em dia, você não consegue produzir. Mas a instituição também exige responsabilidade. Se investir certo, o café vira algo positivo mesmo nary futuro”.

Para Olívio Júnior, gerente de Agro bash Sicredi, existem linhas de crédito voltadas a produtores em fase inicial ou de desenvolvimento e têm sido usadas para fomentar negócios sustentáveis nary campo. Segundo ele, o modelo cooperativo entende que apoiar esse tipo de atividade fortalece a permanência das famílias nary meio agrarian e a continuidade das atividades produtivas ao longo das gerações.

No caso da cafeicultura, Olívio destaca que se trata de um mercado consolidado.

“É uma atividade lucrativa que, trabalhada com responsabilidade, não agride o meio ambiente e ainda contribui para o enfrentamento das mudanças climáticas”, afirma.

As histórias da família Lara e de Lucas ajudam a compreender porquê o café tem se consolidado como uma das principais apostas produtivas bash Acre.

Ao ocupar áreas já abertas, investir em qualidade e acessar crédito com responsabilidade, produtores mostram que é possível ampliar renda sem avançar sobre a floresta. Em um estado localizado em uma das regiões mais pressionadas da Amazônia, o café passa a ocupar um lugar cardinal nas discussões sobre produção, regularização ambiental e futuro econômico bash território.

Leia nary tract bash Amazônia Vox. 

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