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Recomeçar exige coragem; Páscoa prova que vale a pena

Fiquei ali, imóvel, ouvindo cada gota cair e torcendo para que ninguém percebesse.

Ninguém percebeu. Por sorte, não ganhei o apelido de mijão. Já carregava dois: "cunhado", por ter irmãs mais velhas bonitas, e "pimentão", porque toda vez que a professora chamava meu nome eu ficava vermelho como um.

Décadas depois, aquele mesmo menino falaria por uma hora inteira para 16 mil pessoas.

Mas a distância entre a cadeira da escola e o palco não foi percorrida de uma vez. Ela exigiu desmontar, peça por peça, a armadura que eu construí para me proteger.

A armadura

No Exército, onde servi como oficial, eu tinha um colega que despertava uma certa inveja silenciosa em mim: o tenente Rubens.

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Eu era respeitado pela tropa. Cumpria minha missão. Mas o Rubens tinha algo diferente. Seus comandados gravitavam em torno dele. Conversavam com ele. Confiavam nele de um jeito que eu ainda não sabia provocar.

Eu operava protegido por uma armadura. Ele parecia não precisar de nenhuma.

O meu medo era que, se eu tirasse a armadura, as pessoas descobrissem que eu não era perfeito. O Rubens já sabia que ninguém é, e liderava a partir dessa humanidade.

Levei anos para entender que vulnerabilidade não é uma fraqueza que você esconde. É a ponte que conecta você aos outros.

Fiz um curso de teatro na Faap para enfrentar a timidez. Trabalhei a comunicação com afinco. Aprendi a ouvir antes de falar.

E quando finalmente aprendi a baixar a guarda, a carreira decolou.

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Passei décadas liderando algumas das maiores operações do varejo e da alimentação do país. Cheguei onde queria chegar. E então, com a sensação clara de missão cumprida, comecei a pensar no que vinha a seguir.

Há cerca de um ano, almoçando com o CEO de uma das maiores empresas de tecnologia do país, ouvi dele a mesma frase que escutei de outros executivos:

Que coragem.

De fora, parecia coragem mesmo. Sair do topo por escolha própria contraria a lógica corporativa.

Mas por dentro, o que eu sentia era um enorme friozinho na barriga.

A armadura do cargo corporativo é muito confortável. Quando você a tira, precisa descobrir quem você é sem o crachá.

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O palco em T

A resposta já tinha vindo em dezembro de 2023. Fui convidado para fazer a abertura do G4 Valley.

Havia 16 mil pessoas.

Pediram-me para falar por uma hora sobre estratégia, gestão, liderança e a minha própria jornada.

Eu já havia feito palestras antes, em universidades e eventos corporativos. Mas aquela merecia algo diferente. Contratei o Bernardo Nicolau, um preparador de palestrantes excepcional que me acompanha até hoje.

No dia anterior ao evento, fui ao palco vazio. O Bernardo me fez repetir a entrada umas dez vezes.

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O palco era imenso, em formato de T.

Eu sentia o ar-condicionado gelado na pele, as luzes fortes no rosto e o silêncio daquele espaço que no dia seguinte estaria lotado.

No dia do evento, as pessoas chegaram curiosas. Saíram chorando.

Junto comigo.

Depois, passei horas tirando fotos, ouvindo histórias e sendo abraçado por pessoas que eu nunca tinha visto na vida e que me diziam que algo dentro delas tinha mudado.

Naquele palco, diante de 16 mil pessoas, o menino que não conseguia pedir para ir ao banheiro se encontrou como contador de histórias.

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Aquele dia foi um ponto de virada.

O recomeço não era um passo para trás. Era um salto para um impacto diferente.

Hoje, nessa nova fase, trabalho diretamente com líderes e recebo mensagens de pessoas que dizem que algo mudou nelas. Isso não tem preço. E nunca teria cabido dentro de um cargo.

O maior recomeço da história

Recomeçar nunca é confortável.

Exige abrir mão de certezas, de status e de armaduras que levaram anos para serem construídas.

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Mas às vezes é o único caminho para continuar crescendo.

Neste fim de semana celebramos a Páscoa. E, independentemente da sua fé, ela marca a maior história de recomeço da humanidade.

Pense no maior líder que já existiu.

Ele não tinha cargo. Não tinha estrutura hierárquica. Não tinha salário, bônus ou perfil no LinkedIn.

E, no entanto, dois mil anos depois, bilhões de pessoas continuam seguindo seus ensinamentos.

Nenhum CEO da história chegou perto desse legado.

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A Páscoa marca o momento em que a história dele parecia ter terminado em derrota. Na verdade, estava apenas recomeçando.

Seja qual for o tamanho do seu desafio hoje, lembre-se:

A armadura protege. Mas também aprisiona.

Ter a coragem de tirá-la pode ser o primeiro passo do seu maior recomeço.

Opinião

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