Detalhe de pintura de Magalhães, mostrando seu rostro, com chapéu e roupa amarela com mangas brancas e pretas

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Legenda da foto, Herói ou vilão? Pioneiro ou fracassado?
    • Author, Miriam Balanescu
    • Role, BBC Culture*
  • Há 14 minutos

  • Tempo de leitura: 8 min

Poucos filmes são tão épicos e exaustivos quanto Magalhães, o novo drama sobre o navegador português do século 16 Fernão de Magalhães do cineasta filipino Lav Diaz.

A história começa com o famoso explorador, interpretado pelo astro mexicano Gael García Bernal, nutrindo a grande ambição de abrir uma nova rota marítima para as então chamadas "Ilhas das Especiarias" na Indonésia.

Ele deserta de sua terra natal para a Espanha e, com o apoio do rei Carlos 1º, embarca em uma viagem árdua e amarga, durante a qual muitos membros de sua tripulação morrem de escorbuto ou são executados em motins.

Ao chegar à ilha de Mactan, no que hoje são as Filipinas, o próprio Magalhães é brutalmente assassinado em uma batalha com a população local.

As circunstâncias que envolvem essa extraordinária odisseia, que começou em 1519, tornaram-se lendárias.

Muitos historiadores afirmam que a viagem marcou a primeira circunavegação completa do globo. Após a morte de Magalhães em Mactan, em 1521, a circunavegação do globo por sua frota foi concluída no ano seguinte, sob o comando de seu colega, o capitão Juan Sebastián Elcano.

O biógrafo Laurence Bergreen afirma que os feitos do navegador português são mais "significativos" do que os de Cristóvão Colombo. A NASA, agência espacial americana, chegou a batizar uma de suas espaçonaves em sua homenagem.

Outros, contudo, questionam sua importância, especialmente porque Magalhães não viveu o suficiente para completar a viagem de volta à Espanha.

Cena do filme 'Magalhães' com Gael García Bernal em um barco

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Legenda da foto, Ator Gael García Bernal interpreta o protagonista em novo filme sobre Magalhães

Há ainda outras razões que fazem de Magalhães uma figura controversa: a traição ao seu próprio país, precedida por acusações de comércio ilegal, a alegada tirania a bordo de sua frota e a conversão forçada dos habitantes de Mactan ao cristianismo.

Em 2022, o historiador Felipe Fernández-Armesto tentou desmistificar a narrativa de Magalhães como herói em seu livro Ruas: Além do Mito de Magalhães, descrevendo o líder como imprudente e fanático e sua missão como um "fracasso total" devido à ausência de lucro e ao elevado número de mortos - de aproximadamente 270 marinheiros, acredita-se que apenas 18 retornaram à Espanha.

Fernández-Armesto também aponta Magalhães como alguém com uma sede de "sangue incontrolável", que praticou "imperialismo, escravidão, discriminação injusta" contra os povos indígenas.

Deveria ele ser considerado um pioneiro ou um traidor sedento por poder? Para complicar ainda mais o legado de Magalhães, os registros sobreviventes de sua circum-navegação são escassos.

Muito do que sabemos sobre Magalhães vem de seu cronista a bordo, Antonio Pigafetta, que atuava como assistente do navegador, mas a quem Fernández-Armesto descreveu como seu "agente de relações públicas".

Mudando o ponto de vista da narrativa

Para criar seu próprio relato semificcional da expedição de Magalhães, Diaz passou sete anos pesquisando e visitando arquivos em Lisboa.

Foi Beatriz Barbosa de Magalhães, esposa de Magalhães, que havia sido ignorada por quase quatro anos, quem inicialmente capturou a atenção do roteirista e diretor.

"Mas então, ao longo da minha pesquisa, achei Magalhães mais interessante", disse Diaz à BBC, especialmente porque viu uma oportunidade de "equilibrar a narrativa, de também incorporar a perspectiva malaia. Porque é sempre sobre Magalhães, o ponto de vista do homem branco."

Parte da reformulação da história envolveu enfatizar a importância de Enrique de Malaca, que foi escravo de Magalhães por dez anos, e é interpretado no filme por Amado Arjay Babon.

Antes de Magalhães embarcar em sua viagem para as Filipinas, ele comprou Enrique, um ex-muçulmano, na cidade malaia de Malaca e o levou para a Espanha.

Ao chegar a Mactan, a comitiva de Magalhães ficou surpresa ao descobrir que Henrique falava a língua nativa, indicando que ele havia sido criado na região.

Alguns historiadores chegaram a especular que, ao retornar à região, Henrique pode ter circunavegado o globo antes de qualquer membro da tripulação de Magalhães.

O filme de Diaz também lança luz sobre o sentimento antiescravista da época: um membro da corte espanhola adverte Magalhães contra essa prática.

Frei Bartolomé de las Casas, membro do conselho real espanhol, prega contra a escravidão, enquanto novas leis restringiam o tráfico de escravos em Portugal em 1570.

Litografia do século 19 retrata a morte de Magalhães na Batalha de Mactan

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Legenda da foto, Litografia do século 19 retrata a morte de Magalhães na Batalha de Mactan

Embora os dados sólidos sobre a vida de Magalhães sejam limitados, a narrativa que costuma prevalecer se concentra em seu heroísmo.

O Magalhães de Díaz, por outro lado, analisa com firmeza o que sabemos sobre o tratamento que ele deu à sua tripulação a bordo da Armada de Maluco, que incluiu a execução de um deles por suposta sodomia e, à medida que sua paranoia aumentava, o abandono do sacerdote Pedro Sánchez de Reina.

Os motins eram recorrentes e, em novembro de 1520, um dos cinco navios da frota, o San Antonio, e toda a sua tripulação desertaram da missão.

Magalhães pode ter se sentido obrigado a aplicar castigos tão severos por insegurança, já que, ao fugir de sua própria nação, havia se tornado um pária tanto em Portugal quanto na Espanha.

"Magalhães tinha a desvantagem de não ser castelhano, o que reduzia sua autoridade sobre a nobreza castelhana", declarou à BBC João Paulo Oliveira e Costa, professor de História da Universidade de Lisboa.

"Seus capitães castelhanos aspiravam controlar a expedição. O castigo precisava ser brutal para dissuadir novas rebeliões. Se Magalhães não os tivesse matado, eles teriam matado Magalhães."

No filme biográfico de Díaz, a violência colonial que Magalhães e seus homens desencadearam também ganha destaque.

Quando desembarcaram em Guam e tiveram uma pequena embarcação roubada, os marinheiros se vingaram sangrentamente da comunidade indígena, incendiando moradias.

As comunidades de Malaca e das Filipinas sofreram brutalidade semelhante.

No entanto, ao contrário de outras representações cinematográficas da violência colonial, como "O Rouxinol" (2018) ou "Soldado Azul" (1970), a representação de Díaz evita a ação explosiva e potencialmente exploratória.

"A saga de Magalhães é épica", explica. "Mas eu não queria fazê-la da maneira convencional, com espetáculo."

Apesar dos defeitos de Magalhães, Díaz não estava interessado em demonizá-lo.

"Eu queria ver um personagem real", insiste Díaz. "Um ser humano real é ambicioso e sonha, não apenas para si mesmo ou para sua família. Ele acreditava firmemente na fé cristã."

Além de ser considerado o primeiro europeu a entrar em contato com as Filipinas, Magalhães também foi responsável por introduzir o catolicismo na região.

O Santo Niño, uma estátua que Magalhães presenteou ao cacique local Rajah Humabon e que supostamente proporcionou a cura milagrosa de crianças doentes daquela comunidade, "continua sendo o maior ícone do país", afirma Díaz.

Hoje em dia, 93% da população filipina é cristã.

Quem matou Magalhães?

A abordagem de Díaz para desmistificar o personagem também se aplicou ao mistério da morte de Magalhães na chamada Batalha de Mactán.

Pigafetta afirmou em seu diário que, enquanto 2.000 guerreiros malaios enfrentavam os 60 sobreviventes da tripulação, Lapulapu, outro cacique local, deu morte ao conquistador.

Díaz não estava tão convencido: "Para mim, é uma espécie de caso sem solução, porque sempre aceitam o que Pigafetta disse, que Lapulapu matou Magalhães, mas ninguém viu".

Na versão de Díaz, Lapulapu é, na verdade, uma invenção fictícia de Humabon, um suposto bebedor de sangue quase sobrenatural que Humabon conjurou para assustar Magalhães e seus homens.

"Humabon não queria se converter [ao cristianismo]", diz Díaz. "E então Magalhães disse que [Humabon] morreria em dois dias, porque tinha um decreto que determinava que quem não quisesse se converter deveria morrer".

No filme, não se vê Magalhães sendo assassinado por uma pessoa específica, mas se insinua que foi um esforço coletivo dos homens de Humabon.

Pessoas em Manila segurando imagens do Menino Jesus, ícone introduzido nas Filipinas por Magalhães

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Essa sugestão de que Lapulapu não é uma figura real gerou controvérsia nas Filipinas quando o filme foi lançado em setembro passado.

Isso se deve ao seu status lendário: segundo o Dr. Danilo M. Gerona, historiador e autor de Ferdinand Magellan: The Armada de Maluco and the European Discovery of the Philippines (2016), Lapulapu foi durante muito tempo um símbolo do nacionalismo filipino, como evidenciam monumentos, insígnias e nomes de localidades que lhe prestam homenagem, apesar de que a maior parte do que sabemos sobre ele provém de relatos apócrifos, lendários e populares extraídos de tradições orais.

Por essa razão, recebe pouca atenção entre os acadêmicos.

No entanto, o filme de Díaz levou dois historiadores anônimos a se manifestarem no jornal filipino The Freeman para refutar sua interpretação do personagem.

O próprio Magalhães teve uma reputação semelhante e constantemente questionada nas Filipinas.

Outrora reconhecido como um "defensor da fé católica", segundo Gerona, tornou-se cada vez mais impopular com a ascensão do nacionalismo durante o mandato do presidente Rodrigo Duterte entre 2016 e 2022, e agora é vilipendiado pelas "gerações mais jovens" em meio a um crescente sentimento "antiocidental".

Seu papel na história filipina também é amplamente debatido.

O historiador e ex-presidente da comissão histórica nacional das Filipinas, Ambeth Ocampo, afirmou: "Magalhães não deve ser visto como o início da história filipina, mas como um acontecimento de uma história que ainda precisa ser escrita e reescrita para uma nova geração".

Não surpreende que, com séculos de retrospectiva, o legado de um explorador como Magalhães seja complexo e que até mesmo suas intenções continuem sendo questionadas.

"Magalhães não pretendia circunavegar o globo", afirma Oliveira e Costa.

No entanto, entre suas realizações, diz ele, Magalhães "descobriu a conexão entre os oceanos Atlântico e Pacífico, assim como a grande dimensão deste último".

"Foi depois de sua expedição que os cartógrafos puderam criar planisférios [mapas-múndi que mostram uma visão da superfície terrestre] com os três grandes oceanos, e as elites finalmente se deram conta do tamanho do planeta."

No final do filme, é a perspectiva conflituosa de Enrique de Malaca, mais do que a de Magalhães ou de seu co-capitão Elcano, que encerra a história: ele admite com pesar ter contribuído para o massacre de portugueses e espanhóis ainda retidos na ilha de Mactán, ao mesmo tempo em que reflete sobre a violência colonial exercida contra ele e outros malaios.

Díaz espera que seu filme incentive um diálogo sobre a viagem de Magalhães que seja "mais equilibrado, mais inclusivo, de certa forma, não apenas a partir da perspectiva dominante, a dos europeus".