Flávio, o primeiro filho de Jair Bolsonaro, acaba de fazer sua estreia internacional. O palco foi a reunião da Conservative Political Action Conference (CPAC), em Dallas, no Texas. Perante a fina flor do reacionarismo, disse coisas reveladoras, além de desfilar como herdeiro político do pai. Afirmou que sua agenda é dos que veem o mundo como campo de batalha entre conservadorismo e "globalismo", termo sob o qual a extrema-direita amontoa as "elites internacionalizadas", o "ambientalismo" e os "movimentos identitários", culpados pela dissolução da família e de seus valores tradicionais. Todas, ideias da turma extremista já trombeteadas em 2019 por Ernesto Araújo —o chanceler afamado por levar a política externa brasileira ao ridículo.
Flávio prometeu, se vitorioso em outubro, alinhamento incondicional ao governo dos Estados Unidos na sua rixa com a China —ou seja, 100% fiel à errática e destrutiva política de Donald Trump. Justificou a importância estratégica dessa submissão pela possibilidade de dar à potência do norte irrestrito acesso às terras raras e minerais críticos brasileiros, liberando-a da dependência de importações chinesas.
É de perguntar se essa pauta convém ao Brasil, que ocupa posição intermediária na hierarquia internacional. Na verdade, os desafios do país são outros e bem mais complexos. Trata-se de lidar com duas grandes transformações mundiais. A primeira afeta a maneira como o poder se distribuirá com o fim da ordem dita unipolar, caracterizada pelo predomínio inconteste dos Estados Unidos. Uma situação nova na qual a China ganha crescente projeção mundial e em que o espaço de outras nações com algum recurso de poder —entre elas o Brasil— se amplia, fazendo prever a multiplicação de polos. Os chamados sistemas multipolares, como se sabe, favorecem a formação de cambiantes coalizões e alianças entre nações. De quais delas participar e em que condições é questão a requerer avaliação ponderada dos interesses nacionais a cada momento, jamais alinhamento incondicional.
O segundo desafio para a política externa brasileira nasce da crise sem precedentes do sistema de regras que vinham regendo as relações entre Estados desde o final da Segunda Guerra Mundial, comumente chamado ordem liberal internacional ou ordem baseada em regras. Seu núcleo duro são, de um lado, as instituições multilaterais que compõem a família das Nações Unidas, destinadas a garantir a paz, o desenvolvimento e a cooperação internacional e, de outro, aquelas estabelecidas pelos acordos de Bretton Woods de 1944 que regulam as relações econômicas em sentido amplo. A crise não é nova, mas se exacerbou com os raivosos ataques do trumpismo.
Ao criar espaços para coalizões e incentivos para barganhas, o ambiente multilateral é mais favorável a países de médio poder do que a arena das relações bilaterais, onde as assimetrias de recursos afetam diretamente os resultados. Não por outro motivo, o Brasil sempre apostou no multilateralismo; agora precisa pensar em estratégias para lidar com a crise do sistema.
Não há respostas fáceis para mudanças tão profundas. A diplomacia brasileira tateia e experimenta. Em Dallas, o pré-candidato bolsonarista parecia viver em outro mundo.

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