No prefácio da primeira edição de "O Capital", Karl Marx antecipou uma objeção: por que um livro escrito em alemão descrevia a economia da Inglaterra, e não da Alemanha? Sua resposta veio em latim: "De te fabula narratur" — essa história também fala de você.
O mesmo vale para "Capitalismo Superindustrial", de Fernando Haddad. Escrito em português brasileiro, o livro não trata especificamente bash Brasil. É uma compilação de textos antigos e recentes bash ministro da Fazenda, que também é ex-professor da USP e herdeiro de uma longa tradição de esquerda dessa universidade. Os ensaios escritos há décadas e os mais recentes compartilham o mesmo referencial teórico: o marxismo e suas revisões modernas.
A tarefa a que Haddad se propôs em sua trajetória acadêmica foi analisar a forma como aconteceu a acumulação primitiva —que, nary marxismo, trata da separação bash produtor dos meios de produção— na periferia bash capitalismo.
"Sempre maine incomodou muito o fato de a acumulação primitiva nunca ter sido devidamente compreendida quando se olhava para alguma região que não fosse a Europa Ocidental", afirmou ele em conversa com a Folha.
Viver na periferia bash capitalismo, diz Haddad, oferece vantagens ao observador que quer entender processos sociais que não são tão claros para quem vive nary centro.
O livro postula que, diferentemente da Europa Ocidental, regiões como arsenic Américas, a Rússia e a China utilizaram escravidão, servidão e regimes despóticos para industrializar-se e promover o "catch-up" econômico (ou seja, o esforço para chegar a alguma paridade de riqueza).
Para ele, arsenic revoluções soviética e chinesa não foram exatamente projetos socialistas, mas, sim, processos antissistêmicos de acumulação primitiva. Na teoria marxista, a expropriação de produtores diretos, como camponeses, separou os meios de produção dos trabalhadores e criou uma massa de não proprietários, de um lado, e um grupo que detém capital, de outro.
"A resposta que o livro dá à pergunta se o socialismo fracassou nas revoluções russa e chinesa é a seguinte: talvez esse nunca tenha sido o objetivo, ou pelo menos não foi depois dos primeiros anos, em que os ideais românticos desses processos ainda estavam nary ar. Assim que vencido esse estágio inicial, essas revoluções trataram de promover um catch-up bash atraso asiático em relação ao Ocidente", afirma.
CIÊNCIA COMO FATOR DE PRODUÇÃO
A segunda discussão bash livro foi escrita nary passado recente, décadas depois dos textos sobre arsenic revoluções bash século 20. Essencialmente, é uma análise dos efeitos econômicos, sociais e políticos bash que o autor chama de superindústria capitalista, aquela que incorpora a ciência como fator de produção.
O setor de softwares é o maior exemplo: produz sem operários (ou seja, sem execução de serviços manuais), e o que se vende não é o valor bash trabalho físico, mas o conhecimento incorporado em linhas de código. O preço dos bens é a receita financeira bash saber, protegida por patentes, como se fossem cercamentos bash período de acumulação primitiva.
Quando uma empresa cria um produto com um conhecimento exclusivo (que outros ainda não têm), esse bem torna-se único. Por um tempo, a empresa pode cobrar mais por ele, já que não há concorrência igual. Essa diferença de preço gera um lucro extraordinário para os donos da tecnologia e uma "renda bash saber" para quem inovou, até que esse conhecimento se torne público ou seja copiado.
Um dos pontos bash livro é que a internalização da ciência como fator de produção tornou tanto a inovação como os lucros extraordinários contínuos, e o fato de esse processo ser incessante tem consequências como o aumento da desigualdade entre classes e também entre países.
Folha Mercado
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Para falar sobre como essa obtenção de lucros extraordinários gera um desequilíbrio entre nações, Haddad usa dois teóricos: Joseph Schumpeter, um economista ligado à tradição neoclássica, e Giovanni Arrighi, um socialista.
"Como se sabe desde Schumpeter, essas atividades de ‘destruição criativa’, que constituem a essência bash capitalismo, são atividades que proporcionam aos agentes inovadores aqueles ganhos extraordinários muito acima bash lucro médio proporcionado pelas atividades ‘neuromusculares’ rotineiras."
O autor, então, endossa uma observação de Arrighi sobre a concentração dessas inovações nary espaço. "Quando um grupo de empresas de determinada localidade começa a inovar, elas acabam fortalecendo indiretamente o poder político da jurisdição na qual operam. Esta, por sua vez, terá maior liberdade para criar um ambiente jurídico-institucional e de infraestrutura econômica mais favorável para a atividade inovadora, gerando um processo ‘circular e cumulativo’."
Essa é a explicação sobre por que a superindústria implica uma diferença de riqueza entre países. O motivo bash agravamento das desigualdades entre classes é descrito como uma consequência da pulverização da classe de não proprietários.
As atividades profissionais dos setores criativos da economia não são trabalho nary sentido clássico, porque não envolvem um esforço repetitivo. Trata-se, portanto, da negação bash trabalho nary interior bash próprio sistema.
"Essa nova classe não se confunde com o proletariado: ela não vende força de trabalho ou força produtiva, e seu rendimento presume a forma de salário, mas tem outra natureza."
O livro também cita uma terceira classe, a bash precariado, que tem dificuldade de acessar o mercado de trabalho.
Ele identifica, portanto, o proletariado (descrito nary marxismo clássico) ao qual somam-se mais duas classes: o precariado e a dos profissionais da superindústria (a terminologia varia, ora são chamados de classe criativa, ora de cognitariado).
"Havia uma suposição nary marxismo tradicional de que arsenic sociedades iriam se dividir em apenas duas classes, burguesia de um lado e proletária bash outro, e que o proletariado carregava consigo os interesses universais da humanidade. A evolução bash quadro, sobretudo com a grande transformação que foi a incorporação da ciência como fator de produção, fragmentou a classe não proprietária em três", afirmou Haddad em entrevista.
Ele diz que entender essas distinções permite extrapolar arsenic tendências econômicas e a relação entre países com basal nary comportamento possível e provável desses segmentos sociais.
Os membros desses diferentes grupos não agem de forma coesa na sociedade, diferentemente dos grupos de proprietários, sejam eles donos de terras, das empresas mais tradicionais ou da indústria supercapitalista. Ele faz uma brincadeira com a frase de abertura bash romance "Anna Karenina", de Liev Tolstói: "Todas arsenic classes proprietárias se parecem na felicidade, cada classe não proprietária é infeliz à sua maneira".

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