Eles sabiam de tudo, inclusive daquela reunião secreta, em novembro de 1971. Na ocasião, o general Humberto Sousa Melo, chefe do 2º Exército em São Paulo, leu uma carta em que o ditador Emílio Garrastazu Médici pedia ajuda financeira para a ditadura. O objetivo, esclareceu Melo, era construir uma sala de tortura na capital paulista, nos moldes do Doi-Codi do Rio de Janeiro, e adquirir novos veículos e armamentos.
Compareceram à reunião, convocada pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), vultos da oligarquia paulistana e um representante do empresariado americano —o presidente da General Electric, Thomas Romanach. O grupo contribuiu com a causa: cada empresa fez um aporte de "algumas centenas a alguns milhares de dólares". Para disfarçar, eles criaram um fundo educacional por meio da Fiesp, emitindo recibo e tudo mais.
Assim, as empresas ianques registraram os gastos com a ditadura e evitaram a prática de caixa dois. O esquema é revelado pelo historiador e professor de Relações Internacionais da USP Felipe Loureiro, em seu mais novo livro, intitulado "Olhares Ianques: A Ditadura Brasileira nos Arquivos Norte-Americanos", que agora chega às livrarias.
Em nota à reportagem, a Fiesp reafirmou "o seu compromisso inabalável com o Estado Democrático de Direito e a transparência de suas relações com a sociedade". E destacou: "os documentos citados pela reportagem referem-se a supostos fatos ocorridos há mais de 50 anos".
Por uma década e meia, Loureiro se debruçou sobre documentos oficiais dos Estados Unidos que aludiam ao regime militar. O objetivo da pesquisa, diz ele, foi mostrar a visão americana e matizar as relações entre Brasil e Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970, rejeitando reducionismos.
Disso decorrem as teses centrais da obra: os Estados Unidos tiveram papel importante no golpe, mas uma influência menor na estruturação do regime; os EUA tinham livre acesso a tudo o que se passava no Brasil, com informantes em diversos segmentos da sociedade; as relações dos militares não eram nada harmônicas, e o regime era desorganizado.
"Trabalhos anteriores não se beneficiaram da abertura de arquivos a partir dos anos 2010, que ocorreu sobretudo em razão dos esforços da Comissão Nacional da Verdade", diz Loureiro, em entrevista por videoconferência. "Me chocou a capilaridade informacional dos EUA no Brasil. A representação diplomática americana conseguia falar com quem eles quisessem, da elite econômica e política até os principais jornalistas que atuavam no Brasil."
Os materiais datam sobretudo dos três primeiros governos da ditadura. A partir de 1977, o fluxo de documentos tornou-se escasso, porque alguns deles foram vazados.
O autor pesquisou diferentes acervos dos EUA, em especial o National Archives And Records Administration, o Arquivo Nacional de lá, e os documentos dedicados a presidentes que exerceram mandatos enquanto havia ditadura por aqui. No National Archives, Loureiro encontrou os telegramas do Consulado dos EUA em São Paulo comprovando o envolvimento de empresários americanos no esquema da Fiesp.
Além de Romanach, participaram integrantes da Câmara Americana de Comércio, incluindo seu presidente, Mack Verhyden, da Catterpillar, o representante da DuPont no Brasil, Lou Rossi, e o representante da Anderson Clayton, Trajano Pupo Neto. A documentação do departamento de Estado americano recebeu o selo de confidencial.
Temendo a exposição pública, o Consulado dos EUA em São Paulo tentou dissuadir o empresariado americano de efetuar o aporte.
O livro mostra que Romanach rebateu o Consulado, ressaltando que a reunião havia sido convocada pelo próprio presidente da Fiesp, Teobaldo de Nigris, "um amigo de longa data e alguém que ele considerava de altíssima integridade."
"Olhares Ianques" contraria o senso comum ao mostrar que os EUA mantiveram uma postura ambígua diante da ditadura brasileira. Decerto, o embaixador Lincoln Gordon fez tudo o que pode, em 1964, para garantir apoio do governo Lyndon Johnson ao golpe. O próprio livro conclui que a perspectiva de adesão dos EUA, com a Operação Brother Sam no litoral brasileiro, foi fundamental para excitar as casernas.
Ao mesmo tempo, a Casa Branca aparentemente esperava que a normalidade democrática seria restituída logo depois do levante militar. "Os EUA se arrependeram de não terem sido mais enfáticos no início do regime contra o crescente autoritarismo e as violações de direitos humanos", afirma Loureiro.
Segundo o livro, os ianques queriam se expor pouco e se preocupavam em manter uma aparência institucional à ditadura. Não à toa, Gordon se disse perplexo com a imposição do AI-1, que foi seguida pela Operação Limpeza, contra "subversivos". A ação redundou em milhares de prisões —e muita violência.
Mais tarde, em 1968, Washington suspendeu temporariamente o envio de recursos ao Brasil, quando Costa e Silva anunciou o AI-5, fechando de vez o regime. A Casa Branca, porém, não condenou publicamente a decisão do ditador. Durante o governo Geisel, uma figura ganha importância no livro: o cônsul dos EUA em São Paulo, Frederic L. Chapin.
O diplomata, diz Loureiro, conhecia toda a elite brasileira e relatou a Washington violações de direitos humanos que ocorriam por aqui. Inclusive, Chapin reportou aos EUA a morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, concluindo rapidamente que a tese de suicídio era uma farsa.
Em "Olhares Ianques", os militares não são exemplos de idoneidade e eficiência, ideia reavivada com a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência. Ao contrário, os arquivos documentam um funcionamento atabalhoado da ditadura, com disputas internas pelo poder capazes de estremecer hierarquias, e também dão indícios de corrupção generalizada.
Segundo Washington apurou, os IPMs (Inquéritos Policiais Militares) e a CGI (Comissão Geral de Investigações), braços da repressão, se sobrepunham, com frequência, e agiam sem coordenação. Os ianques ainda retratam a permanente tensão entre o segmento linha-dura do Exército, formado sobretudo por oficiais de baixa patente, e o alto generalato, de maneira a dar impressão de que o acirramento do regime se deu pela pressão das casernas.
"Essa sensação é parcialmente verdadeira. O generalato era extremamente autoritário também, mas acreditava que o autoritarismo poderia se impor de outras formas", afirma Loureiro. O historiador prega cautela, mas não descarta uma intervenção em 2026. "Se for uma intervenção contra o crime organizado, Lula fica numa situação difícil para se opôr a uma agenda de segurança pública."

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