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O jovem uruguaio que busca o misterioso urutaú, pássaro com camuflagem que é único na América


Mauricio Silvera percorre um caminho entre a vegetação no norte do Uruguai, onde tenta capturar em fotografias o urutaú, uma espécie enigmática de ave noturna conhecida na América.

Crédito, BBC Mundo

Legenda da foto, Mauricio Silvera é fascinado pela observação de aves desde os 5 anos, quando já conhecia e identificava algumas espécies, inclusive pelo nome científico
    • Author, Mariana Castiñeiras, Natalia Guerrero e Jorge Pérez Valer
    • Role, BBC News Mundo
  • Há 17 minutos

  • Tempo de leitura: 4 min

Mauricio Silvera gosta tanto da observação de aves que a compara com o frenesi de um torcedor de futebol ao gritar um gol decisivo.

Receber uma informação, uma localização, uma foto e a possibilidade de ver uma ave única.

Ir até lá calculando variáveis, sabendo que tudo pode mudar e que os esforços podem ter sido em vão.

E, finalmente, encontrá-la, ouvi-la, fotografá-la, entendê-la.

"É uma adrenalina no peito de não saber o que fazer: se gritar, tirar a foto e contar para alguém", diz à BBC este jovem uruguaio, estudante de Biologia que já é um profissional na observação de aves.

"É quase como estar procurando pokémons e ver quantos passarinhos você encontra e se encontra o mais raro", acrescenta, enquanto viaja para o norte do Uruguai com seu equipamento fotográfico para uma missão especial: encontrar e fotografar o mítico urutaú.

O urutaú é uma espécie de ave noturna encontrada na América do Sul e na América Central, e tem inspirado lendas e mitos em regiões rurais de todo o continente.

Tem uma boca enorme e plumagem marrom-acinzentada semelhante à casca de um tronco, o que a ajuda a se ocultar nas copas das árvores ou em galhos secos.

Mas o que mais fascina são seus gigantes olhos amarelos.

Passa as horas do dia camuflado em árvores ou estacas até que chega a noite, quando sai para caçar e se alimentar de insetos.

Seu nome científico é Nyctibius griseus. No Uruguai é conhecido como urutaú, mas em outros países da região o chamam de pássaro-estaca, pássaro-fantasma, ave-bruxa, potoo, entre muitos outros nomes.

"Tem um canto incrível que parece um lamento no meio da noite e a muita gente faz lembrar o choro de uma pessoa. Se você o escuta à noite, é bastante arrepiante", comenta Silvera.

Conservacionistas insistem que se trata de uma ave inofensiva e pedem às pessoas que respeitem e cuidem dessa espécie, dada a conotação negativa que algumas lendas folclóricas lhe atribuem.

O urutau é uma das espécies de aves noturnas mais enigmáticas da América do Sul e Central

Crédito, Getty Images/Fabio Maffei

Diversidade

Desde os 13 anos, Mauricio Silvera tem feito contribuições de avistamentos de aves do Uruguai para a plataforma eBird, uma rede global de especialistas e aficionados que compartilham informações, fotografias e registros de áudio sobre as espécies de aves que observam.

"O Uruguai tem cerca de 520 espécies de aves registradas até o momento. Em uma saída de um dia, você pode chegar a ver entre 120 e 130 espécies", comenta, enquanto percorre com a câmera no ombro um caminho empoeirado nos arredores de Bella Unión, a região a 650 quilômetros ao norte do Uruguai onde espera encontrar o urutaú.


Um urutaú pousa durante o dia em um galho seco, conseguindo se camuflar graças à coloração marrom-acinzentada e à textura de sua plumagem.

Crédito, Getty/Kate Muller

Legenda da foto, Seu aspecto, comportamento e canto misterioso inspiraram lendas folclóricas em regiões rurais da América do Sul

De repente, durante o percurso, Mauricio cobre a boca. Ele leva anos observando aves, mas a emoção de se deparar com uma espécie que procura é algo que não consegue conter.

Aponta para os arbustos e ali, no fim de um longo galho seco, está pousado e camuflado — cuidando de uma futura cria — o urutaú que ele busca.

"Isso branquinho que se vê ali é um ovo, que eles põem um de cada vez, sem nenhum tipo de suporte, apenas o ovo sobre o galho onde pousa", comenta em sussurros.

Satisfeito e com o registro alcançado, Mauricio volta feliz para casa.

Mas a curiosidade por aquele ninho não ficaria quieta. Um mês depois, voltou a Bella Unión para registrar o que já intuía: que já não é apenas um, mas dois os urutaús que conseguiu somar à sua ampla coleção fotográfica de aves.


Um urutaú e sua cria pousam no topo de um galho cortado no norte do Uruguai.

Crédito, Mauricio Silvera

Legenda da foto, O urutaú põe um único ovo, que resguarda no topo de um galho até a eclosão.

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